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Monday, July 2, 2007

Parênteses sobre o abandono escolar

Antes de ir ao post sobre o papel da educação numa estratégia de esquerda social-democrata num mundo globalizado, faço um parênteses sobre a questão do abandono escolar, que era afinal de contas o tema do meu artigo no dossiê do "Le Monde Diplomatique" do mês de Junho. Uma das razões pelas quais o abandono escolar me parece ser negligenciado não se deve apenas ao middle class bias que apontei no artigo. No caso de muitos, desconfio que vá mesmo mais fundo: é que convém não esquecer - e a boa memória é importante em política - que, por alturas dos anos 70 (ou seja, há não muito tempo), o abandono escolar era elogiado, mesmo que implicitamente, à esquerda. Abandonar a escola era, afinal de contas, resistir à "educação burguesa", era renunciar à "competição individual", era recusar a "institucionalização na ordem capitalista"; os lads filhos da working class, ao deixarem a escola, ofereciam à esquerda uma espécie de potencial vanguarda revolucionária, retomando a luta que os seus pais haviam renunciado.
A desgraça, claro, é que os lads não só não constituíram força revolucionária nenhuma contra nada (tirando, claro, as mais mediáticas formas de mobilização social destes indivíduos nos anos 80: o hooliganismo nos estádios e nas ruas das cidades inglesas), como foram os que mais fragilizados estavam perante o choque Thatcheriano do início dos anos 80. Sem qualificações e não sindicalizados, foram carne para canhão para as estratégias de desregulação do mercado laboral britânico e para os cortes nas transferências sociais. Pergunto se, entre os que incentivavam o abandono escolar dos would-be revolutionaries, alguém fez um sério mea culpa.
Não me espantaria nada que hoje ainda existisse por aí um resquício deste pensamento. É que se a escola é "capitalista", então é porque não vale muito a pena continuar nela. Daí a encolhermos os ombros perante o fenómeno do abandono escolar, vai um passo. Como diz uma canção popular inglesa: «The music has gone but the melody lingers on».

Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (II)

1. Um dos elementos que veio a debate a certo ponto foi a questão das prioridades: o que interessa estudar e sobre o que interessa intervir. Algumas vozes na audiência alinharam pela posição de que, por exemplo no sector da educação, todas as questões são importantes: as desigualdades no ensino básico, secundário, superior; a questão da transição do ensino superior para o mercado de trabalho, etc. Num certo sentido, não posso discordar; sobretudo quando falamos de um programa académico em torno, por exemplo, das questões da sociologia e da economia da educação, vários objectos merecem atenção simétrica.
No entanto, quando se passa à intervenção política a questão não é assim tão simples (e ela não é assim tão simples na dimensão da investigação, mas deixo isso por agora de lado). Aintervenção política é obrigada a definir prioridades, sob pena de gastar mal os seus recursos, que são por definição finitos: recursos financeiros, humanos, temporais, de credibilidade política, etc. Mesmo que se identifiquem n problemas, não podemos "ir" a todos ao mesmo tempo, com a mesma energia, sob pena de não resolvermos nenhum. Por isso é absolutamente indispensável definir prioridades, dizer "X é importante, sim, mas não tão importante como Y, que precisamos de resolver agora, sob pena de qualquer acção presente ou futura sob X ser infrutífera". Ora, isto, à esquerda, parece ser difícil, porque implica estabelecer uma hierarquia de preocupações. Mas, desculpem este tipo de argumento, só quem está de fora e não tem de gerir os múltiplos recursos acima mencionados - escassos, repito, e por vezes alguns muito escassos mesmo - é que se pode dar ao luxo de dizer que "tudo é importante".
Mas não pode ser: hoje, a prioridade na educação em Portugal é elevar a qualidade no ensino básico, a começar no 1ºciclo, porque é aqui que se começam a construir os alicerces das aprendizagens futuras. Melhor: este alicerces devem começar mais cedo, entre os 0 e os 3 anos, e entre os 3 e os 6 anos. Aqui, ainda há muito por fazer em Portugal.

2. Outro argumento que emergiu a dada altura tocou a questão do TGV, problematizando o dito "modelo de desenvolvimento" do país. Aparentemente, à esquerda este parece uma estratégia antiquada, destinada a manter-nos presos a uma trajectória económica nas baixas qualificações. Devo confessar que este é daquele tipo de críticas que à esquerda me causa profunda confusão (já percebo que a direita se insurja conta o despesismo estatal e esse tipo de coisas); todos critica a (suposta) morte do keynesianismo e da intervenção redistributiva do Estado na economia. Bom, mas o TGV, a Ota e tudo o mais que quiserem meter no saco das obras públicas é o ABC do keynesianismo. O efeito multiplicador de uma obra desta envergadura vai permitir não apenas construir novas vias de ligação intra- e internacionais, mas vai permitir dar emprego a muitas pessoas que dependem deste tipo de actividade pelo país fora, e isto não se cinge, naturalmente, ao trabalho não-qualificado. Quando me dizem "ah, mas isso vai só alimentar o trabalho não-qualificado?", o que me apetece perguntar é: "pronto, então preferem que essas pessoas fiquem todas no desemprego?!". Claro que do ponto de vista do "quanto melhor, pior", isto seria óptimo: o desemprego dispararia ainda mais, e o descontentamento popular também. Os extremos populistas agradeceriam.
Para além do mais, dizer que uma obra desta envergadura colide com o upgrade tecnológico e empresarial da nossa economia não tem razão de ser. Todos os países de Europa muito mais bem armados em infra-estruturas do que Portugal investem recorrentemente em obras deste tipo; podemos discordar de uma opção ou outra, mas isto mostra que nenhum país, mesmo se a sua economia é alimentada pela inovação tecnológica, dispensa constantes investimentos infra-estruturais. E, já agora, convém não esquecer que no orçamento 2007, o único ministério que viu a sua fatia aumentar foi o da Ciência e Tecnologia e do Ensino Superior, e na ordem dos 60%. Se isto não é uma afirmação de uma prioridade política, então não sei o que é.
O fundamental, no futuro, é reduzir a percentagem nacional de trabalhadores que só pode ser empregue em actividades intensivas em mão-de-obra. Isto é absolutamente essencial, para que essas pessoas possam encontrar emprego em actividades menos violentas do ponto de vista físico e mais enriquecedoras do ponto de vista profissional e humano. Para isso, é preciso formar e qualificar, mas isto não chega.

3. A pergunta mais importante que me foi colocada versou sobre o papel da educação na política económica: será que a educação vai resolver todos os problemas futuros, de forma que podemos esquecer as outras alavancas de intervenção económica? Não. Pelo menos, eu não concordo nada com esta estratégia, expressa, por exemplo, no manifesto de 1997 do New Labour - que lhe permitiu ganhar ao fim de 18 anos de governo dos Conservadores -, onde se lê que “education as the best policy as we have”. À esquerda é legítima a dúvida de que isto pode ser uma armadilha. O meu próximo post andará à volta desta questão, mas deixo uma nota: quem ouviu na sexta-feira anterior a esta última, numa sessão aberta ao público, as intervenções de Anthony Giddens (um dos ideólogos da "terceira via" blairista que passou, como se recordarão, por Lisboa) e do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, sobre a globalização, o trabalho e a social-democracia, terá ficado a perceber a diferença entre diferentes estratégias social-democratas num mundo em globalização.

Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (I)

1. Comecei por dizer, de forma provocatória, o que já tinha escrito aqui: que, dado o défice de qualificações da grande maioria dos activos portugueses, a estratégia mais apetecível e fácil, do ponto de vista económico, é assumir que a nossa mão-de-obra deve, num contexto de competição crescentemente global, "vergar-se" aos seus défices de qualificação e produtividade (muito longe da média da UE...), e assumir que a única estratégia possível de desenvolvimento passa pela estagnação (ainda maior) dos salários e uma massiva desregulação do mercado de trabalho, o que abanaria a economia, e obrigando as empresas "incapazes" a abrir falência. O desemprego subiria, sim, mas o ajuste levaria a que as pessoas não tivessem outra alternativa senão ajustar-se às transformações futuras do mercado de trabalho desregulado, aceitando qualquer emprego - hiperflexível, mal remunerado, etc. - num sector de serviços em crescimento. A prazo, o desemprego desceria, sim, mas com um custo brutal de aumento das desigualdades e dualização da sociedade. Esta é a conhecida por estratégia anglo-saxónica, assente em que tudo o que é low: low skills-low wage-low regulation.
Esta não é, obviamente, a única estratégia possível, e não é a estratégia a ser seguida pelo actual Governo. A outra grande alternativa é qualificar a população, recuperando o tempo perdido, e atrair investimento, promovendo a mudança da estrutura ocupacional (que é, em Portugal, ainda muito diferente dos países mais prósperos da UE), e fazendo pequenos ajustes na legislação laboral (quem acha que a discussão actual sobre a "liberalização dos despedimentos", etc., é a expressao do neo-liberalismo, nao faz a mínima ideia do que é um mercado laboral regido pelo dito "neo-liberalismo", e de quão longe estamos dele, e de como a nossa legislação produz situações perversas para os trabalhadores - precisamente aqueles que a lei devia proteger. Mas alguém está disposto a discutir isto seriamente?!). Ainda há muitos avanços a fazer na transformação da nossa estrutura económica em direcção a um modelo cujo motor passe a ser o trabalho qualificado no sectores mais dinâmicos da economia de serviços e do conhecimento. Esta estratégia é, também, mais morosa do que a anterior, e isso é fundamental que as pessoas percebam: porque não implica nenhum "choque", mas um - mesmo que robusto - incrementalismo, ela tem que ser avaliada pelos frutos que permitirá a longo prazo, e pela capacidade que tem de colocar o país numa trajectória de crescimento sustentado. De nada vale a pena crescer um ou dois anos se a estrutura económica do país ficar na mesma e voltarmos aos mesmos problemas logo a seguir. Por isso é preciso esperar. E para esperar é preciso paciência. E para ter paciência é preciso ter confiança: confiança individual, por um lado, e confiança institucional por outro, em particular por parte dos parceiros institucionais que devem levar a sério uma estratégia de desenvolvimento cujo sucesso passa também pelo seu envolvimento activo nela. O clima de constante guerrilha institucional não traz benefícios para ninguém, tirando, claro, os populistas de esquerda ou direita, que verão no aumento do descontentamento generalizado uma oportunidade para aumentarem a sua quota eleitoral, subindo mais uns pontitos percentuais. Nesse sentido, a "estratégia do quanto pior, melhor", que faz parte da tradição política de uma certa esquerda, continua a ter uma actualidade perene.

2. Suponho que as pessoas não tenham gostado da minha redução das estratégias de desenvolvimento a duas opções. É legítimo, mas a incapacidade de propor estratégias alternativas é confrangedora. No campo da esquerda populista, sem qualquer vocação de Governo e que nunca o terá que exercer - o que é um convite à mais pueril irresponsabilidade política -, continua-se a eleger a "iniciativa privada" e a falar da "economia" e das "empresas" como se não vivêssemos numa economia de mercado, como se a maior parte da população não estivesse nela empregada, e como se os serviços que a maior parte dos aderentes da esquerda populista dispôs ao longo da sua vida - escolaridade gratuita ou saúde tendencialmente gratuita, já para não falar das transferências sociais que completam a estrutura do Estado social - não fossem pagos pelo mesmo "mercado". Há alturas em que eu percebo - sem, naturalmente, concordar - a força que o pensamento de direita ganhou em certos círculos, tornando-se verdadeirmante dogmática e anti-esquerda: é com tanta má fé, tanta denegação, tanta incapacidade para olhar certos factos elementares de frente (o que, vindo por vezes de cientistas sociais, me deixa francamente perplexo) tanta incapacidade para perceber como o Estado só tem dinheiro para pagar o que achamos que deve pagar (e que é, tem de ser, finito, e por isso inteligentemente limitado e definido) se conseguir colectar os impostos que derivam dos lucros produzidos pela tal infâme "iniciativa privada", etc. etc., é natural que à direita se ache que a esquerda que não faz mais nada que dizer mal do "mercado", etc., deve ser denunciada de "parasita".

3. Esta forma de não pensar o mundo actual leva a que a esquerda populista, que adora dizer que tudo o resto é de "direita", esteja completamente ausente do debate político concreto, da discussão de ideias para o futuro, da proposta de soluções, etc.. Porque recusa tudo ou quase tudo que se faz (tudo é de "direita") ou porque tudo é um "compromisso" e um "desvio" ("social-democrata" ou outro), esta esquerda entrega, num acto verdadeiramente suicida, o espaço do debate em torno das opções estratégias de policy à direita e à esquerda social-democrata. A sua posição define-se por ser do "contra" o "neo-liberalismo" e o "capitalismo" e etc., sendo que estas categorias, repetidas até à exaustão, funcionam como etiquetas e "marcadores tribais" e nunca como conceitos que devem ser definidos e sujeitos a um "reality check" (o que, repito, quando falamos de cientistas sociais, me parece grave). As eventuais propostas realizadas estão tão longe da realidade e são, na maior parte, e enquanto eventual modelo de desenvolvimento alternativo, tão impossíveis de colocar em prática, que não merecem na maior parte das vezes levadas a sério. E porque não são levadas a sério, não são discutidas por ninguém no espaço público, nem nunca farão parte de nenhum programa político capaz de convencer o eleitorado - o que, em democracia, é, no mínimo, se me é permitida a ironia, um pequenino handicap.

Depois volto a outras questões levantadas no debate e a outras reflexões laterais.

P.S. - Já o disse em resposta ao Carlos Leone na caixa de comentários deste post, mas para que fique claro - e o Renato Carmo chamou-me a atenção para isto, penso que é perfeitamente justo -, a minha saída do Peão nada tem a ver com o que se passou no debate - que, reafirmo, foi cordial e interessante, mesmo que previsível q.b. -, até porque quando falo de "esquerda populista" neste post não me estou a referir a nenhum dos membros activos do Peão. Para quem não restem confusões, era importante esclarecer este ponto.

Monday, June 11, 2007

Fórum Sociológico


Saiu mais um número duplo da revista Fórum Sociológico, o nº15/16 (do Institut de Estudos e Divulgação Sociológica da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), com um dossiê dedicado às "Realidades e Contextos Profissionais", organizado por José Resende e Luís Rodrigues. O índice pode ser encontrado aqui (e os números anteriores aqui).

Deste número dupla consta uma recensão minha, onde apresento e discuto o livro do sociólogo François Dubet, L'école des chances: Qu'est-ce qu'une école juste? (2004, Seuil, La république des idées).

Tuesday, May 22, 2007

Quando se perde a oportunidade de ficar calado

«O Ministério de Lurdes Rodrigues parece pretender que as referidas provas sejam mais um mecanismo de avaliação e responsabilização das escolas e dos professores, caso as classificações dos alunos venham a ser baixas. Esta intenção, que a FENPROF rejeita e repudia, fica muito clara pelo facto de o ME remeter para as escolas, e só para estas, a incumbência de montar estratégias de superação das dificuldades dos alunos, pretensamente diagnosticadas através das classificações por eles obtidas»

Os professores (e, por extensão, os seus alunos, já agora) mereciam um sindicato decente - esclarecido, cooperante, genuinamente interessado em perceber os problemas do ensino e em ultrapassá-los, de forma melhorar a qualidade da aprendizagem e os seus resultados. Mas não. A única coisa que parece mover a Fenprof é a construção de conspirações e o exercício quotidiano da mais elementar má fé.