Saturday, May 12, 2007

Mais desenvolvimento, maior intolerância às desigualdades na saúde

Na China começam a ser regulares os protestos e a violência nos hospitais por parte dos doentes que vêem negados tratamentos por falta de capacidade financeira. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a China ocupa a 188ª posição em 191 países no que toca à igualdade financeira de acesso aos cuidados de sáude. O sistema, claro, é quase totalmente privado.

Este é um caso interessante de como o desenvolvimento faz subir as expectativas das pessoas e coloca mais alto limiar do inaceitável - sobretudo no caso da saúde, que não é, apesar do que o relativismo de mercado pretende, um bem como os outros.

"For hundreds of millions of poor farmers, all but the most rudimentary care by "barefoot doctors" is unaffordable. A peasant saying has it that a pig must be taken to market every time an ambulance siren wails, a year's work is ruined as soon as you sleep in a hospital bed, and if you are struck with a serious disease, 10 years of savings go up in smoke. In 2004 a report said 75% of rural patients who declined recommended hospital treatment did so because of financial reasons."

O resto da notícia aqui.

Thursday, May 10, 2007

Dados interessantes sobre as eleições francesas

Aqui, retirado do site do Le Monde.

*Agradeço à Mariana ter-me chamado a atenção para este documento.

Sunday, May 6, 2007

Robert Castel sobre a segurança social profissional

As eleições francesas já passaram, mas as propostas e as ideias para o futuro ficam. Aqui podemos encontrar uma série de propostas feitas de investigadores, académicos e intelectuais de esquerda.

Aqui, Robert Castel fala da necessidade de se criar uma segurança social profissional.

As suas reflexões mais recentes podem ser encontradas no seu pequeno livro, Insecurité sociale : Qu'est-ce qu'être protégé, publicado pela excelente colecção République des Idées.

E agora?

Sarkozy foi eleito. Ainda restam as legislativas de Junho, mas não é expectável que saia grande coisa para a esquerda.
Resta o futuro. E resta esperar que a esquerda francesa - o PSF e a gauche de la gauche (seja lá o que isto quer dizer) - compreenda porque é que, quando chegarmos a 2012, no fim do (primeiro?) mandato Sarkozy, e tiverem passado 54 anos da fundação da V República, a esquerda só tenha tido um presidente durante 14 deles (1981-1995, com Mitterrand): apenas um pouco mais de um quarto do tempo.
Sarkozy ganhou porque tinha um programa ajustado a diferentes sectores do eleitorado: liberalismo para os ricos e empresários, autoridade e moral para as classes populares conservadoras (e algumas delas ex-PCF e que entretanto se tinham passado para Le Pen), promessa de firmeza, junto das classes médias à deriva, que acabaria a "vida fácil" para os "assistidos" e os usurpadores da lei pela violência. Para os que pensam que basta gritar “precaridade!” para que a consciência das pessoas vire à esquerda, convém lembrar que, perante esse mesmo grito de guerra, as classes médias podem muito simplesmente virar à direita, por sentirem precisamente que o seu estatuto fragilizado se defende fazendo uma aliança para cima, com os ricos, e não para baixo, com os pobres – os mesmos que, se o Estado social for demasiado generoso, pensam eles, poderão potencialmente morder os seus calcanhares - e dos seus filhos. Perante o grito da precariedade, as classes médias podem simplesmente colocar os seus filhos nas escolas privadas em vez das públicas; fazer seguros privados de saúde; aceitar o fim do welfare as we know it e a sua substituição pelo workfare; concordar com o reforçar das medidas de tolerância zero para os que Sarkozy chamou racaille. Convém pensar nestas consequências não-pretendidas de slogans e causas que à esquerda, podem fazer sentido e são legítimos, mas são que interpretadas de outra forma por quem não está particularmente preocupado com os mais desfavorecidos – pelo contrário. É por isso que é tão importante, ao mesmo tempo que se lançam os slogans e as causas, se façam propostas construtivas exequíveis – em caso contrário, essas causas podem simplesmente ser apropriadas by the wrong people, with the wrong ideas, voting for the wrong guy.
Será isto populismo por parte de Sarkozy? Talvez seja, sim. Mas é a prova que resulta eleitoralmente - ao contrário do populismo de esquerda. É preciso perceber porquê, e por que motivo, à esquerda, não vale a pena continuar com mesma retórica de sempre.
A esquerda francesa gosta de olhar com superioridade moral e ideológica para o New Labour de Blair. Pois bem, comparemos as situações: Blair vai sair agora, pelo próprio pé, depois de ter estado 10 anos no poder. A sua "terceira via" tem muitos buracos, sim, mas pelo menos foi uma plataforma ideológica minimamente coerente que lhe permitiu acabar com 18 anos de poder conservador e trazer novas ideias para a esquerda europeia. Não precisamos de concordar com todas elas para reconhecer isto. Convenhamos que, em democracia, estar no poder conta um bocadinho. Mesmo que, para tal, seja necessário convencer os eleitores - mesmo que à custa das tão heréticas "cedências". É que não é a história política, os livros-fetiche ou a ideias românticas que votam. São os eleitores.

Um Maquiavel precisa-se para a esquerda francesa.

P.S. - "C'est un très grave défaite pour la gauche, affirme Dominique Strauss-Kahn, sur TF1, citant une "troisième défaite" à la présidentielle. Il dit qu'il partage "l'inquiétude" de certains Français après l'élection de M. Sarkozy. Il salue le "combat courageux" de Ségolène Royal. "Jamais la gauche n'a été aussi aussi faible au premier tour, répète-t-il. Pourquoi ? Parce que la gauche française n'a toujours pas fait sa rénovation."

Vindo de quem vem, é preciso ter descaramento!

Thursday, May 3, 2007

Posição original

O "Véu de Ignorância" está de regresso. Em Fevereiro do ano passado iniciei-me nestas coisas da blogosfera com a parceria desse amigo único que é o Pedro Alcântara da Silva. Foi uma experiência intensa de cerca de 7 meses, que me permitiu conhecer muitas pessoas. Em Janeiro último regressei ao activo em conjunto com algumas delas - a quem agradeço por me terem recuperado para estas andanças blogosféricas - nesse projecto colectivo que é "A Vez do Peão". Continuarei a colaborar com eles regularmente - mas quem me quiser seguir num registo mais pessoal - and who says personal says political - deve passar por este espaço, ainda em construção: o Véu da Ignorância II.

O senhor retratado aí à direita é John Ralws, cujas ideias servirão de inspiração, broadly speaking, para o que terei para dizer daqui para a frente - em particular o seu princípio da diferença, segundo o qual «social and economic inequalities are to be arranged so that they are (...) to the greatest benefit of the least advantaged». A igualdade possível e desejável é a igualdade que serve os vencidos.

Como inspiração inicial, ficam os belíssimos acordes do tema 'Chicago', de Sufjan Stevens.