"Orçamento do Estado deve deixar de financiar ADSE", defende Jorge Simões, numa entrevista importante publicada no "Público" de ontem. E isto por uma questão de justiça - ou, se quiserem, de equidade -, na linha da argumentação que já havia defendido aqui.
Jorge Simões é o presidente de uma comissão de peritos que produziu recentemente um relatório sobre a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, disponível aqui.
Depois volto a este assunto.
Wednesday, July 4, 2007
Monday, July 2, 2007
Parênteses sobre o abandono escolar
Antes de ir ao post sobre o papel da educação numa estratégia de esquerda social-democrata num mundo globalizado, faço um parênteses sobre a questão do abandono escolar, que era afinal de contas o tema do meu artigo no dossiê do "Le Monde Diplomatique" do mês de Junho. Uma das razões pelas quais o abandono escolar me parece ser negligenciado não se deve apenas ao middle class bias que apontei no artigo. No caso de muitos, desconfio que vá mesmo mais fundo: é que convém não esquecer - e a boa memória é importante em política - que, por alturas dos anos 70 (ou seja, há não muito tempo), o abandono escolar era elogiado, mesmo que implicitamente, à esquerda. Abandonar a escola era, afinal de contas, resistir à "educação burguesa", era renunciar à "competição individual", era recusar a "institucionalização na ordem capitalista"; os lads filhos da working class, ao deixarem a escola, ofereciam à esquerda uma espécie de potencial vanguarda revolucionária, retomando a luta que os seus pais haviam renunciado.
A desgraça, claro, é que os lads não só não constituíram força revolucionária nenhuma contra nada (tirando, claro, as mais mediáticas formas de mobilização social destes indivíduos nos anos 80: o hooliganismo nos estádios e nas ruas das cidades inglesas), como foram os que mais fragilizados estavam perante o choque Thatcheriano do início dos anos 80. Sem qualificações e não sindicalizados, foram carne para canhão para as estratégias de desregulação do mercado laboral britânico e para os cortes nas transferências sociais. Pergunto se, entre os que incentivavam o abandono escolar dos would-be revolutionaries, alguém fez um sério mea culpa.
Não me espantaria nada que hoje ainda existisse por aí um resquício deste pensamento. É que se a escola é "capitalista", então é porque não vale muito a pena continuar nela. Daí a encolhermos os ombros perante o fenómeno do abandono escolar, vai um passo. Como diz uma canção popular inglesa: «The music has gone but the melody lingers on».
A desgraça, claro, é que os lads não só não constituíram força revolucionária nenhuma contra nada (tirando, claro, as mais mediáticas formas de mobilização social destes indivíduos nos anos 80: o hooliganismo nos estádios e nas ruas das cidades inglesas), como foram os que mais fragilizados estavam perante o choque Thatcheriano do início dos anos 80. Sem qualificações e não sindicalizados, foram carne para canhão para as estratégias de desregulação do mercado laboral britânico e para os cortes nas transferências sociais. Pergunto se, entre os que incentivavam o abandono escolar dos would-be revolutionaries, alguém fez um sério mea culpa.
Não me espantaria nada que hoje ainda existisse por aí um resquício deste pensamento. É que se a escola é "capitalista", então é porque não vale muito a pena continuar nela. Daí a encolhermos os ombros perante o fenómeno do abandono escolar, vai um passo. Como diz uma canção popular inglesa: «The music has gone but the melody lingers on».
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Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (II)
1. Um dos elementos que veio a debate a certo ponto foi a questão das prioridades: o que interessa estudar e sobre o que interessa intervir. Algumas vozes na audiência alinharam pela posição de que, por exemplo no sector da educação, todas as questões são importantes: as desigualdades no ensino básico, secundário, superior; a questão da transição do ensino superior para o mercado de trabalho, etc. Num certo sentido, não posso discordar; sobretudo quando falamos de um programa académico em torno, por exemplo, das questões da sociologia e da economia da educação, vários objectos merecem atenção simétrica.
No entanto, quando se passa à intervenção política a questão não é assim tão simples (e ela não é assim tão simples na dimensão da investigação, mas deixo isso por agora de lado). Aintervenção política é obrigada a definir prioridades, sob pena de gastar mal os seus recursos, que são por definição finitos: recursos financeiros, humanos, temporais, de credibilidade política, etc. Mesmo que se identifiquem n problemas, não podemos "ir" a todos ao mesmo tempo, com a mesma energia, sob pena de não resolvermos nenhum. Por isso é absolutamente indispensável definir prioridades, dizer "X é importante, sim, mas não tão importante como Y, que precisamos de resolver agora, sob pena de qualquer acção presente ou futura sob X ser infrutífera". Ora, isto, à esquerda, parece ser difícil, porque implica estabelecer uma hierarquia de preocupações. Mas, desculpem este tipo de argumento, só quem está de fora e não tem de gerir os múltiplos recursos acima mencionados - escassos, repito, e por vezes alguns muito escassos mesmo - é que se pode dar ao luxo de dizer que "tudo é importante".
Mas não pode ser: hoje, a prioridade na educação em Portugal é elevar a qualidade no ensino básico, a começar no 1ºciclo, porque é aqui que se começam a construir os alicerces das aprendizagens futuras. Melhor: este alicerces devem começar mais cedo, entre os 0 e os 3 anos, e entre os 3 e os 6 anos. Aqui, ainda há muito por fazer em Portugal.
2. Outro argumento que emergiu a dada altura tocou a questão do TGV, problematizando o dito "modelo de desenvolvimento" do país. Aparentemente, à esquerda este parece uma estratégia antiquada, destinada a manter-nos presos a uma trajectória económica nas baixas qualificações. Devo confessar que este é daquele tipo de críticas que à esquerda me causa profunda confusão (já percebo que a direita se insurja conta o despesismo estatal e esse tipo de coisas); todos critica a (suposta) morte do keynesianismo e da intervenção redistributiva do Estado na economia. Bom, mas o TGV, a Ota e tudo o mais que quiserem meter no saco das obras públicas é o ABC do keynesianismo. O efeito multiplicador de uma obra desta envergadura vai permitir não apenas construir novas vias de ligação intra- e internacionais, mas vai permitir dar emprego a muitas pessoas que dependem deste tipo de actividade pelo país fora, e isto não se cinge, naturalmente, ao trabalho não-qualificado. Quando me dizem "ah, mas isso vai só alimentar o trabalho não-qualificado?", o que me apetece perguntar é: "pronto, então preferem que essas pessoas fiquem todas no desemprego?!". Claro que do ponto de vista do "quanto melhor, pior", isto seria óptimo: o desemprego dispararia ainda mais, e o descontentamento popular também. Os extremos populistas agradeceriam.
Para além do mais, dizer que uma obra desta envergadura colide com o upgrade tecnológico e empresarial da nossa economia não tem razão de ser. Todos os países de Europa muito mais bem armados em infra-estruturas do que Portugal investem recorrentemente em obras deste tipo; podemos discordar de uma opção ou outra, mas isto mostra que nenhum país, mesmo se a sua economia é alimentada pela inovação tecnológica, dispensa constantes investimentos infra-estruturais. E, já agora, convém não esquecer que no orçamento 2007, o único ministério que viu a sua fatia aumentar foi o da Ciência e Tecnologia e do Ensino Superior, e na ordem dos 60%. Se isto não é uma afirmação de uma prioridade política, então não sei o que é.
O fundamental, no futuro, é reduzir a percentagem nacional de trabalhadores que só pode ser empregue em actividades intensivas em mão-de-obra. Isto é absolutamente essencial, para que essas pessoas possam encontrar emprego em actividades menos violentas do ponto de vista físico e mais enriquecedoras do ponto de vista profissional e humano. Para isso, é preciso formar e qualificar, mas isto não chega.
3. A pergunta mais importante que me foi colocada versou sobre o papel da educação na política económica: será que a educação vai resolver todos os problemas futuros, de forma que podemos esquecer as outras alavancas de intervenção económica? Não. Pelo menos, eu não concordo nada com esta estratégia, expressa, por exemplo, no manifesto de 1997 do New Labour - que lhe permitiu ganhar ao fim de 18 anos de governo dos Conservadores -, onde se lê que “education as the best policy as we have”. À esquerda é legítima a dúvida de que isto pode ser uma armadilha. O meu próximo post andará à volta desta questão, mas deixo uma nota: quem ouviu na sexta-feira anterior a esta última, numa sessão aberta ao público, as intervenções de Anthony Giddens (um dos ideólogos da "terceira via" blairista que passou, como se recordarão, por Lisboa) e do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, sobre a globalização, o trabalho e a social-democracia, terá ficado a perceber a diferença entre diferentes estratégias social-democratas num mundo em globalização.
No entanto, quando se passa à intervenção política a questão não é assim tão simples (e ela não é assim tão simples na dimensão da investigação, mas deixo isso por agora de lado). Aintervenção política é obrigada a definir prioridades, sob pena de gastar mal os seus recursos, que são por definição finitos: recursos financeiros, humanos, temporais, de credibilidade política, etc. Mesmo que se identifiquem n problemas, não podemos "ir" a todos ao mesmo tempo, com a mesma energia, sob pena de não resolvermos nenhum. Por isso é absolutamente indispensável definir prioridades, dizer "X é importante, sim, mas não tão importante como Y, que precisamos de resolver agora, sob pena de qualquer acção presente ou futura sob X ser infrutífera". Ora, isto, à esquerda, parece ser difícil, porque implica estabelecer uma hierarquia de preocupações. Mas, desculpem este tipo de argumento, só quem está de fora e não tem de gerir os múltiplos recursos acima mencionados - escassos, repito, e por vezes alguns muito escassos mesmo - é que se pode dar ao luxo de dizer que "tudo é importante".
Mas não pode ser: hoje, a prioridade na educação em Portugal é elevar a qualidade no ensino básico, a começar no 1ºciclo, porque é aqui que se começam a construir os alicerces das aprendizagens futuras. Melhor: este alicerces devem começar mais cedo, entre os 0 e os 3 anos, e entre os 3 e os 6 anos. Aqui, ainda há muito por fazer em Portugal.
2. Outro argumento que emergiu a dada altura tocou a questão do TGV, problematizando o dito "modelo de desenvolvimento" do país. Aparentemente, à esquerda este parece uma estratégia antiquada, destinada a manter-nos presos a uma trajectória económica nas baixas qualificações. Devo confessar que este é daquele tipo de críticas que à esquerda me causa profunda confusão (já percebo que a direita se insurja conta o despesismo estatal e esse tipo de coisas); todos critica a (suposta) morte do keynesianismo e da intervenção redistributiva do Estado na economia. Bom, mas o TGV, a Ota e tudo o mais que quiserem meter no saco das obras públicas é o ABC do keynesianismo. O efeito multiplicador de uma obra desta envergadura vai permitir não apenas construir novas vias de ligação intra- e internacionais, mas vai permitir dar emprego a muitas pessoas que dependem deste tipo de actividade pelo país fora, e isto não se cinge, naturalmente, ao trabalho não-qualificado. Quando me dizem "ah, mas isso vai só alimentar o trabalho não-qualificado?", o que me apetece perguntar é: "pronto, então preferem que essas pessoas fiquem todas no desemprego?!". Claro que do ponto de vista do "quanto melhor, pior", isto seria óptimo: o desemprego dispararia ainda mais, e o descontentamento popular também. Os extremos populistas agradeceriam.
Para além do mais, dizer que uma obra desta envergadura colide com o upgrade tecnológico e empresarial da nossa economia não tem razão de ser. Todos os países de Europa muito mais bem armados em infra-estruturas do que Portugal investem recorrentemente em obras deste tipo; podemos discordar de uma opção ou outra, mas isto mostra que nenhum país, mesmo se a sua economia é alimentada pela inovação tecnológica, dispensa constantes investimentos infra-estruturais. E, já agora, convém não esquecer que no orçamento 2007, o único ministério que viu a sua fatia aumentar foi o da Ciência e Tecnologia e do Ensino Superior, e na ordem dos 60%. Se isto não é uma afirmação de uma prioridade política, então não sei o que é.
O fundamental, no futuro, é reduzir a percentagem nacional de trabalhadores que só pode ser empregue em actividades intensivas em mão-de-obra. Isto é absolutamente essencial, para que essas pessoas possam encontrar emprego em actividades menos violentas do ponto de vista físico e mais enriquecedoras do ponto de vista profissional e humano. Para isso, é preciso formar e qualificar, mas isto não chega.
3. A pergunta mais importante que me foi colocada versou sobre o papel da educação na política económica: será que a educação vai resolver todos os problemas futuros, de forma que podemos esquecer as outras alavancas de intervenção económica? Não. Pelo menos, eu não concordo nada com esta estratégia, expressa, por exemplo, no manifesto de 1997 do New Labour - que lhe permitiu ganhar ao fim de 18 anos de governo dos Conservadores -, onde se lê que “education as the best policy as we have”. À esquerda é legítima a dúvida de que isto pode ser uma armadilha. O meu próximo post andará à volta desta questão, mas deixo uma nota: quem ouviu na sexta-feira anterior a esta última, numa sessão aberta ao público, as intervenções de Anthony Giddens (um dos ideólogos da "terceira via" blairista que passou, como se recordarão, por Lisboa) e do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, sobre a globalização, o trabalho e a social-democracia, terá ficado a perceber a diferença entre diferentes estratégias social-democratas num mundo em globalização.
Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (I)
1. Comecei por dizer, de forma provocatória, o que já tinha escrito aqui: que, dado o défice de qualificações da grande maioria dos activos portugueses, a estratégia mais apetecível e fácil, do ponto de vista económico, é assumir que a nossa mão-de-obra deve, num contexto de competição crescentemente global, "vergar-se" aos seus défices de qualificação e produtividade (muito longe da média da UE...), e assumir que a única estratégia possível de desenvolvimento passa pela estagnação (ainda maior) dos salários e uma massiva desregulação do mercado de trabalho, o que abanaria a economia, e obrigando as empresas "incapazes" a abrir falência. O desemprego subiria, sim, mas o ajuste levaria a que as pessoas não tivessem outra alternativa senão ajustar-se às transformações futuras do mercado de trabalho desregulado, aceitando qualquer emprego - hiperflexível, mal remunerado, etc. - num sector de serviços em crescimento. A prazo, o desemprego desceria, sim, mas com um custo brutal de aumento das desigualdades e dualização da sociedade. Esta é a conhecida por estratégia anglo-saxónica, assente em que tudo o que é low: low skills-low wage-low regulation.
Esta não é, obviamente, a única estratégia possível, e não é a estratégia a ser seguida pelo actual Governo. A outra grande alternativa é qualificar a população, recuperando o tempo perdido, e atrair investimento, promovendo a mudança da estrutura ocupacional (que é, em Portugal, ainda muito diferente dos países mais prósperos da UE), e fazendo pequenos ajustes na legislação laboral (quem acha que a discussão actual sobre a "liberalização dos despedimentos", etc., é a expressao do neo-liberalismo, nao faz a mínima ideia do que é um mercado laboral regido pelo dito "neo-liberalismo", e de quão longe estamos dele, e de como a nossa legislação produz situações perversas para os trabalhadores - precisamente aqueles que a lei devia proteger. Mas alguém está disposto a discutir isto seriamente?!). Ainda há muitos avanços a fazer na transformação da nossa estrutura económica em direcção a um modelo cujo motor passe a ser o trabalho qualificado no sectores mais dinâmicos da economia de serviços e do conhecimento. Esta estratégia é, também, mais morosa do que a anterior, e isso é fundamental que as pessoas percebam: porque não implica nenhum "choque", mas um - mesmo que robusto - incrementalismo, ela tem que ser avaliada pelos frutos que permitirá a longo prazo, e pela capacidade que tem de colocar o país numa trajectória de crescimento sustentado. De nada vale a pena crescer um ou dois anos se a estrutura económica do país ficar na mesma e voltarmos aos mesmos problemas logo a seguir. Por isso é preciso esperar. E para esperar é preciso paciência. E para ter paciência é preciso ter confiança: confiança individual, por um lado, e confiança institucional por outro, em particular por parte dos parceiros institucionais que devem levar a sério uma estratégia de desenvolvimento cujo sucesso passa também pelo seu envolvimento activo nela. O clima de constante guerrilha institucional não traz benefícios para ninguém, tirando, claro, os populistas de esquerda ou direita, que verão no aumento do descontentamento generalizado uma oportunidade para aumentarem a sua quota eleitoral, subindo mais uns pontitos percentuais. Nesse sentido, a "estratégia do quanto pior, melhor", que faz parte da tradição política de uma certa esquerda, continua a ter uma actualidade perene.
2. Suponho que as pessoas não tenham gostado da minha redução das estratégias de desenvolvimento a duas opções. É legítimo, mas a incapacidade de propor estratégias alternativas é confrangedora. No campo da esquerda populista, sem qualquer vocação de Governo e que nunca o terá que exercer - o que é um convite à mais pueril irresponsabilidade política -, continua-se a eleger a "iniciativa privada" e a falar da "economia" e das "empresas" como se não vivêssemos numa economia de mercado, como se a maior parte da população não estivesse nela empregada, e como se os serviços que a maior parte dos aderentes da esquerda populista dispôs ao longo da sua vida - escolaridade gratuita ou saúde tendencialmente gratuita, já para não falar das transferências sociais que completam a estrutura do Estado social - não fossem pagos pelo mesmo "mercado". Há alturas em que eu percebo - sem, naturalmente, concordar - a força que o pensamento de direita ganhou em certos círculos, tornando-se verdadeirmante dogmática e anti-esquerda: é com tanta má fé, tanta denegação, tanta incapacidade para olhar certos factos elementares de frente (o que, vindo por vezes de cientistas sociais, me deixa francamente perplexo) tanta incapacidade para perceber como o Estado só tem dinheiro para pagar o que achamos que deve pagar (e que é, tem de ser, finito, e por isso inteligentemente limitado e definido) se conseguir colectar os impostos que derivam dos lucros produzidos pela tal infâme "iniciativa privada", etc. etc., é natural que à direita se ache que a esquerda que não faz mais nada que dizer mal do "mercado", etc., deve ser denunciada de "parasita".
3. Esta forma de não pensar o mundo actual leva a que a esquerda populista, que adora dizer que tudo o resto é de "direita", esteja completamente ausente do debate político concreto, da discussão de ideias para o futuro, da proposta de soluções, etc.. Porque recusa tudo ou quase tudo que se faz (tudo é de "direita") ou porque tudo é um "compromisso" e um "desvio" ("social-democrata" ou outro), esta esquerda entrega, num acto verdadeiramente suicida, o espaço do debate em torno das opções estratégias de policy à direita e à esquerda social-democrata. A sua posição define-se por ser do "contra" o "neo-liberalismo" e o "capitalismo" e etc., sendo que estas categorias, repetidas até à exaustão, funcionam como etiquetas e "marcadores tribais" e nunca como conceitos que devem ser definidos e sujeitos a um "reality check" (o que, repito, quando falamos de cientistas sociais, me parece grave). As eventuais propostas realizadas estão tão longe da realidade e são, na maior parte, e enquanto eventual modelo de desenvolvimento alternativo, tão impossíveis de colocar em prática, que não merecem na maior parte das vezes levadas a sério. E porque não são levadas a sério, não são discutidas por ninguém no espaço público, nem nunca farão parte de nenhum programa político capaz de convencer o eleitorado - o que, em democracia, é, no mínimo, se me é permitida a ironia, um pequenino handicap.
Depois volto a outras questões levantadas no debate e a outras reflexões laterais.
P.S. - Já o disse em resposta ao Carlos Leone na caixa de comentários deste post, mas para que fique claro - e o Renato Carmo chamou-me a atenção para isto, penso que é perfeitamente justo -, a minha saída do Peão nada tem a ver com o que se passou no debate - que, reafirmo, foi cordial e interessante, mesmo que previsível q.b. -, até porque quando falo de "esquerda populista" neste post não me estou a referir a nenhum dos membros activos do Peão. Para quem não restem confusões, era importante esclarecer este ponto.
Esta não é, obviamente, a única estratégia possível, e não é a estratégia a ser seguida pelo actual Governo. A outra grande alternativa é qualificar a população, recuperando o tempo perdido, e atrair investimento, promovendo a mudança da estrutura ocupacional (que é, em Portugal, ainda muito diferente dos países mais prósperos da UE), e fazendo pequenos ajustes na legislação laboral (quem acha que a discussão actual sobre a "liberalização dos despedimentos", etc., é a expressao do neo-liberalismo, nao faz a mínima ideia do que é um mercado laboral regido pelo dito "neo-liberalismo", e de quão longe estamos dele, e de como a nossa legislação produz situações perversas para os trabalhadores - precisamente aqueles que a lei devia proteger. Mas alguém está disposto a discutir isto seriamente?!). Ainda há muitos avanços a fazer na transformação da nossa estrutura económica em direcção a um modelo cujo motor passe a ser o trabalho qualificado no sectores mais dinâmicos da economia de serviços e do conhecimento. Esta estratégia é, também, mais morosa do que a anterior, e isso é fundamental que as pessoas percebam: porque não implica nenhum "choque", mas um - mesmo que robusto - incrementalismo, ela tem que ser avaliada pelos frutos que permitirá a longo prazo, e pela capacidade que tem de colocar o país numa trajectória de crescimento sustentado. De nada vale a pena crescer um ou dois anos se a estrutura económica do país ficar na mesma e voltarmos aos mesmos problemas logo a seguir. Por isso é preciso esperar. E para esperar é preciso paciência. E para ter paciência é preciso ter confiança: confiança individual, por um lado, e confiança institucional por outro, em particular por parte dos parceiros institucionais que devem levar a sério uma estratégia de desenvolvimento cujo sucesso passa também pelo seu envolvimento activo nela. O clima de constante guerrilha institucional não traz benefícios para ninguém, tirando, claro, os populistas de esquerda ou direita, que verão no aumento do descontentamento generalizado uma oportunidade para aumentarem a sua quota eleitoral, subindo mais uns pontitos percentuais. Nesse sentido, a "estratégia do quanto pior, melhor", que faz parte da tradição política de uma certa esquerda, continua a ter uma actualidade perene.
2. Suponho que as pessoas não tenham gostado da minha redução das estratégias de desenvolvimento a duas opções. É legítimo, mas a incapacidade de propor estratégias alternativas é confrangedora. No campo da esquerda populista, sem qualquer vocação de Governo e que nunca o terá que exercer - o que é um convite à mais pueril irresponsabilidade política -, continua-se a eleger a "iniciativa privada" e a falar da "economia" e das "empresas" como se não vivêssemos numa economia de mercado, como se a maior parte da população não estivesse nela empregada, e como se os serviços que a maior parte dos aderentes da esquerda populista dispôs ao longo da sua vida - escolaridade gratuita ou saúde tendencialmente gratuita, já para não falar das transferências sociais que completam a estrutura do Estado social - não fossem pagos pelo mesmo "mercado". Há alturas em que eu percebo - sem, naturalmente, concordar - a força que o pensamento de direita ganhou em certos círculos, tornando-se verdadeirmante dogmática e anti-esquerda: é com tanta má fé, tanta denegação, tanta incapacidade para olhar certos factos elementares de frente (o que, vindo por vezes de cientistas sociais, me deixa francamente perplexo) tanta incapacidade para perceber como o Estado só tem dinheiro para pagar o que achamos que deve pagar (e que é, tem de ser, finito, e por isso inteligentemente limitado e definido) se conseguir colectar os impostos que derivam dos lucros produzidos pela tal infâme "iniciativa privada", etc. etc., é natural que à direita se ache que a esquerda que não faz mais nada que dizer mal do "mercado", etc., deve ser denunciada de "parasita".
3. Esta forma de não pensar o mundo actual leva a que a esquerda populista, que adora dizer que tudo o resto é de "direita", esteja completamente ausente do debate político concreto, da discussão de ideias para o futuro, da proposta de soluções, etc.. Porque recusa tudo ou quase tudo que se faz (tudo é de "direita") ou porque tudo é um "compromisso" e um "desvio" ("social-democrata" ou outro), esta esquerda entrega, num acto verdadeiramente suicida, o espaço do debate em torno das opções estratégias de policy à direita e à esquerda social-democrata. A sua posição define-se por ser do "contra" o "neo-liberalismo" e o "capitalismo" e etc., sendo que estas categorias, repetidas até à exaustão, funcionam como etiquetas e "marcadores tribais" e nunca como conceitos que devem ser definidos e sujeitos a um "reality check" (o que, repito, quando falamos de cientistas sociais, me parece grave). As eventuais propostas realizadas estão tão longe da realidade e são, na maior parte, e enquanto eventual modelo de desenvolvimento alternativo, tão impossíveis de colocar em prática, que não merecem na maior parte das vezes levadas a sério. E porque não são levadas a sério, não são discutidas por ninguém no espaço público, nem nunca farão parte de nenhum programa político capaz de convencer o eleitorado - o que, em democracia, é, no mínimo, se me é permitida a ironia, um pequenino handicap.
Depois volto a outras questões levantadas no debate e a outras reflexões laterais.
P.S. - Já o disse em resposta ao Carlos Leone na caixa de comentários deste post, mas para que fique claro - e o Renato Carmo chamou-me a atenção para isto, penso que é perfeitamente justo -, a minha saída do Peão nada tem a ver com o que se passou no debate - que, reafirmo, foi cordial e interessante, mesmo que previsível q.b. -, até porque quando falo de "esquerda populista" neste post não me estou a referir a nenhum dos membros activos do Peão. Para quem não restem confusões, era importante esclarecer este ponto.
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Wednesday, June 20, 2007
Jay-Jay Johanson
Amanhã, quinta-feira, toca no grande auditório do CCB o Jay-Jay Johanson, que regressa a Portugal para apresentar o seu novo álbum "Long Term Psysical Effects Are
Not Yet Known" (2007), que podem ouvir na íntegra na playlist aqui em cima.
Tuesday, June 19, 2007
Estado "social-democrata" vs. "corporativo"
Substituam "França" por "Portugal" na maioria dos locais e tirem algumas conclusões. Traduzido do livro de que falei aqui (p.56-7).
«Em França, a esquerda recusa a ideia que há desigualdade entre os empregos públicos e os empregos privados. A ideia de que a sobreprotecção de uns produz desigualdades em detrimento dos segundos é refutada em nome da recusa do nivelamento por baixo. Na Dinamarca, tal dicotomia é considerada como inaceitável porque profundamente injusta. Uma das características do modelo dinamarquês é de assentar sobre o princípio da continuidade das condições de emprego e de trabalho entre o sector público e o sector privado. Não apenas a função pública é mais limitada (4% dos assalariados contra 30% em França), mas tudo é feito para aproximar o funcionamento da função pública do do sector privado (...) Para além disso, a correspondência entre a função e o estatuto (...) não existe no sistema dinamarquês, onde apenas uma reduzida minoria de funcionários beneficia de um emprego protegido. A ideia de que o Estado deve dispor de um grupo de funcionários amplo e protegidos para assegurar as suas funções centrais é totalmente estranho à cultura política de um país onde a grandeza do Estado não faz qualquer sentido. Porque não queremos renunciar aos estatutos, mas dado que não estamos em condições de os generalizar, em França, os trabalhadores que beneficiam de um estatuto e outros que a ele não têm acesso são capazes de exercer a mesma função. Este tipo de situação seria simplesmente inaceitável num país escandinavo, dado que isso simbolisaria a desigualdade construída não pelo mercado mas pelo Estado. A regra é por isso aquela do contrato único para todos os empregos, incluindo os públicos. (...) O modelo dinamarquês (...) é ao mesmo tempo muito liberal e muito protector, sendo que o conteúdo desta protecção é muito diferente daquele que atribuimos em França. [Na Dinamarca] protege-se para facilitar e mudança e não para a conter.»
Nota: na Dinamarca, as desigualdades sócio-económicas e escolares são mais baixas, o desemprego mais reduzido, o imposto sobre o rendimento muito mais elevado, os níveis de protecção social mais altos, os indicadores de desenvolvimento social e de capital social superiores, e o PIB per capita mais elevado do que em França.
«Em França, a esquerda recusa a ideia que há desigualdade entre os empregos públicos e os empregos privados. A ideia de que a sobreprotecção de uns produz desigualdades em detrimento dos segundos é refutada em nome da recusa do nivelamento por baixo. Na Dinamarca, tal dicotomia é considerada como inaceitável porque profundamente injusta. Uma das características do modelo dinamarquês é de assentar sobre o princípio da continuidade das condições de emprego e de trabalho entre o sector público e o sector privado. Não apenas a função pública é mais limitada (4% dos assalariados contra 30% em França), mas tudo é feito para aproximar o funcionamento da função pública do do sector privado (...) Para além disso, a correspondência entre a função e o estatuto (...) não existe no sistema dinamarquês, onde apenas uma reduzida minoria de funcionários beneficia de um emprego protegido. A ideia de que o Estado deve dispor de um grupo de funcionários amplo e protegidos para assegurar as suas funções centrais é totalmente estranho à cultura política de um país onde a grandeza do Estado não faz qualquer sentido. Porque não queremos renunciar aos estatutos, mas dado que não estamos em condições de os generalizar, em França, os trabalhadores que beneficiam de um estatuto e outros que a ele não têm acesso são capazes de exercer a mesma função. Este tipo de situação seria simplesmente inaceitável num país escandinavo, dado que isso simbolisaria a desigualdade construída não pelo mercado mas pelo Estado. A regra é por isso aquela do contrato único para todos os empregos, incluindo os públicos. (...) O modelo dinamarquês (...) é ao mesmo tempo muito liberal e muito protector, sendo que o conteúdo desta protecção é muito diferente daquele que atribuimos em França. [Na Dinamarca] protege-se para facilitar e mudança e não para a conter.»
Nota: na Dinamarca, as desigualdades sócio-económicas e escolares são mais baixas, o desemprego mais reduzido, o imposto sobre o rendimento muito mais elevado, os níveis de protecção social mais altos, os indicadores de desenvolvimento social e de capital social superiores, e o PIB per capita mais elevado do que em França.
Monday, June 18, 2007
Le Capitalisme d'Héritiers
E eis que pelo correio nos chega um daqueles (pequenos) livros que valem dezenas de outros. Escrito sobre a sociedade francesa, Le Capitalisme d'Héritiers tem inúmeras reflexões que se aplicariam também à portuguesa e ao seu capitalismo, às suas relações laborais, ao seu sindicalismo e patronato, e aos bloqueios aos processos de modernização e inovação. A introdução deste pequeno livro está disponível aqui, no sítio da République des Idées, claro, a cuja excelente colecção o livro pertence. A obra do economista Thomas Philippon é uma resposta directa a um, senão o grande tema e slogan de Sarkozy na campanha das eleições presidenciais francesas de Maio: "a crise do valor trabalho". Philippon mostra que Ségolène estava globalmente correcta na análise do problema - mas também por aqui se vê como a candidata socialista não soube defender as suas ideias de forma verdadeiramente eficaz, coerente e poderosa.
Nos próximos dias talvez ande aqui um pouco à volta das reflexões de Philippon. De qualquer forma, com mais este livro, a République des Idées mostra de onde virá a verdadeira oposição intelectual a Sarkozy nos próximos anos. Oposição séria, realista, não-sectária, capaz de apoiar um projecto de esquerda de governo, que faça realmente a diferença em França. E para fazer a diferença é preciso ganhar eleições - e para ganhar eleições é preciso saber auscultar de forma muito competente o que se passa na sociedade. Se a esquerda francesa tem acumulado derrotas atrás de derrotas é porque não percebeu que muitas coisas mudaram no último quarto de século e não soube redefinir objectivos.
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Saturday, June 16, 2007
Friday, June 15, 2007
«So, at 12, I knew that the point of being human was to spend one's life fighting social injustice»
O Ivan encontrou na net um dos textos mais giros do Richard Rorty reunidos no Philosophy and Social Hope que aqui mencionei há dias, intitulado "Trotsky and the Wild Orchids", e escrito em 1992. Merece bem ser lido.
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Thursday, June 14, 2007
Wednesday, June 13, 2007
Nota sobre Rorty
Infelizmente estou com pouco tempo, porque gostava de escrever algo mais longo e sustentado sobre Richard Rorty. Há poucos livros dele traduzidos para português - com destaque para o Contingência, Ironia e Solidariedade, da Presença, que é uma bela obra -, mas, do ponto de vista político, falta traduzir as duas que melhor porventura retratam a mensagem política da sua filosofia: Philosophy and Social Hope (1999, Penguin Books), que é uma colectânea de excelentes ensaios, e Achieving Our Country (1999, Harvard University Press), que é um livro cheio de energia sobre o estado actual e o que devia ser/fazer a esquerda americana, em particular a de inclinações académicas, e sobretudo aquela mais seduzidas pelas coisas do pós-modernismo. Apesar da sua admiração filosófica por autores como Wittgenstein, Heidegger, Foucault ou Derrida - politicamente conservadores ou radicais, mas com poucos political brains -, e apesar de algumas das suas teses se prestarem a uma apropriação idealista e pós-moderna (convenhamos que uma filosofia que se constrói em torno da apologia da contínua "redescrição" do nosso "vocabulário" corre esse risco), Rorty era um homem da esquerda, mais preocupado com o que acontecia aos trabalhadores norte-americanos no último quartel do século XX do que com grandes delírios "heideggero-derrideanos". Se há algo a fazer no futuro, é sublinhar a política - democrática, social-democrata, preocupada com o que há de prioritário na vida humana - que decorre da sua filosofia e separá-la daquela que foi praticada (ou imaginada) por alguns dos autores com que Rorty gostava de se associar.
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Richard Rorty
Tuesday, June 12, 2007
Monday, June 11, 2007
Fórum Sociológico

Saiu mais um número duplo da revista Fórum Sociológico, o nº15/16 (do Institut de Estudos e Divulgação Sociológica da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), com um dossiê dedicado às "Realidades e Contextos Profissionais", organizado por José Resende e Luís Rodrigues. O índice pode ser encontrado aqui (e os números anteriores aqui).
Deste número dupla consta uma recensão minha, onde apresento e discuto o livro do sociólogo François Dubet, L'école des chances: Qu'est-ce qu'une école juste? (2004, Seuil, La république des idées).
Sunday, June 10, 2007
"La gauche doit sortir du pessimisme social"
Enquanto a UMP de Sarkozy se preparar hoje para obter mais uma verdadeira landslide eleitorial, a esquerda devia ler as reflexões do politólogo Zaki Laïdi numa entrevista de hoje no Le Monde. E, já agora, o livro que assina com outro politólogo, Gérard Grunberg, intitulado Sortir du pessimisme social : Essai sur l'identité de la gauche (Paris, Hachette, 2007).
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