Tuesday, October 2, 2007

Aquisição de livros

«Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar também o tempo para lê-los, mas na maioria das vezes troca-se a compra dos livros pela aquisição do seu conteúdo»

Arthur Schopenhauer

Friday, September 28, 2007

Presente envenenado?

Ontem:
«(...) Enfin, le socialisme de l’émancipation est le « projet » de DSK, son socialisme du XXIème siècle. N’ayons pas peur des mots. Il s’agit dorénavant d’agir a priori, d’attaquer les inégalités à la racine, avant même qu’elles ne se créent. Cette lutte est fondée sur un principe simple : il faut donner plus à ceux qui ont moins. Donner plus de capital public à ceux qui ont moins de capital social. C’est un grand retour aux services publics que nous proposons : le socialisme de l’émancipation passe par des réformes novatrices en matière d’éducation, de logement, d’urbanisme, de santé. Socialisme de la redistribution, socialisme de la production, socialisme de l’émancipation : voilà les trois piliers sur lesquels DSK veut bâtir la social-démocratie française. Le réformisme de gauche n’est pas condamné à l’accompagnement social du libéralisme. Il peut et doit être un « réformisme radical ». Ses adversaires de la gauche n’ont qu’à bien se tenir !»

Hoje:

Vamos ver como é que DSK, esse "socialista da emancipação", se porta à frente do FMI...Descontando a ironia, já fico contente por DSK não estar em Paris para boicotar a estretégia futura de Ségolène à frente do Partido Socialista Francês.

Beirut de volta



Os Beirut preparam-se para lançar oficialmente o seu novo álbum, "The Flying Club Cup", que será apresentado dia 9 de Outubro. É o regresso do folk cigano de uma banda que constituiu, com "Gulag Orkestar", uma das grandes supresas de 2006. Em cima, a faixa "The Penalty".

Entretanto, ficam na lista de músicas aqui em baixo as faixas do "Gulag Orkestar".

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(clickar para aumentar)

Thursday, September 27, 2007

Résumé

«Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.»


Dorothy Parker (1893 - 1967)

Wednesday, September 26, 2007

A não esquecer


A importância do ensino profissional explicado aos "Velhos do Restelo"

Tenho andado com muito pouco tempo e disponibilidade para escrever, mas às vezes a energia suplementar que engana a escassez do tempo vem das pequenas irritações quotidianas. Se tropeçarmos nos cronistas do costume, é difícil evitá-las. O texto que comecei a escrever acabou por ficar longo, mas as coisas importantes têm de ser bem explicadas.

Ontem Santana Castilho continuou no "Público" a sua saga contra o Ministério da Educação em fascículos (mas será que ele já escreveu sobre mais alguma coisa?). Sobre o programa "Prós e Contras" realizado no passado dia 17 de Setembro na RTP1, o cronista escreve:

«Os cursos técnico-profissionais ocuparam boa parte da discussão. Joaquim Azevedo pôs o dedo na ferida quando os considerou pouco profissionalizantes e menos técnicos e quando alertou para o perigo de não passarem de mero expediente para mascar o insucesso escolar. Que belo trabalho jornalístico poderia ter sido feito, como abertura documental do debate: uma reportagem sobre as instalações e os recursos técnicos das escolas onde são ministrados, os equipamentos e os meios e materiais de ensino postos ao serviço dessa mistificação monumental da propaganda do Governo. Daqui a uns anos, veremos quantos meninos destes cursos arranjaram emprego. Provavelmente tantos quantos os adultos que mudaram de função ou saíram do desemprego depois de terem sido formados no âmbito das Novas Oportunidades.»

A aposta no ensino profissional tem sido uma das bandeiras deste Governo, que tem procurado não apenas alargar a oferta dos cursos no final do ensino básico e no ensino secundário – respondendo a uma procura por parte dos alunos e incentivando-os a ficar na escola, ou, o que vai dar ao mesmo, procurando evitar que eles abandonem a escola sem uma qualificação -, mas sobretudo trazer os cursos profissionais para o interior das escolas secundárias públicas, quando eles, desde a sua criação em 1988-1989, tinham ficado acantonados nas escolas privadas, mas financiados pelo Estado. Na mesa dos participantes do programa estava Joaquim Azevedo, doutorado em Ciências da Educação, actualmente Presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica, ex-Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário em 1992, e Coordenador do recente Debate Nacional de Educação, entre outras coisas (consultar http://www.joaquimazevedo.com/). Joaquim Azevedo é provavelmente a pessoa que mais pensou e escreveu sobre ensino profissional em Portugal, e tem sido um defensor do mesmo, apesar de crítico da forma como o Estado tem tutelado o raio de acção deste tipo de ensino nas escolas profissionais, limitando a sua oferta. Joaquim Azevedo é um defensor do aumento da oferta, mas sempre no sector privado. A título de exemplo, consulte-se o texto que assinou com Joaquim Goes para o famigerado "Compromisso Portugal" na área de educação (que pode ser encontrado aqui em powerpoint), onde a dada altura se lê que devia ser feita a «[p]romoção de forma sistemática e proactiva do reforço da oferta do ensino profissional de cariz não estatal, de maneira a que o número de vagas se aproxime rapidamente da procura latente não satisfeita».

As dúvidas de Joaquim Azevedo são legítimas (explico à frente porquê), mas Santana Castilho, com seu estilo “caceteiro”, mostra que não percebe o objectivo da aposta no ensino profissional.
Em primeiro lugar, é muito importante perceber que o objectivo primeiro de um sistema de ensino profissional não é garantir um emprego imediato, mas sim contribuir para que os jovens cumpram a escolaridade obrigatória - ou seja, o 9º ano - e, se possível, o 12º.
Em segundo lugar, pretende-se melhorar a qualificação da população jovem, na linha de uma política nacional de qualificação e de upgrade do stock colectivo de competências. É que se objectivo fosse combater o desemprego a curto prazo, a melhor alternativa seria deixar os "putos" fora da escola - eles lá acabariam por conseguir os biscates do costume. Ou então, numa linha mais intervencionista (e mais cara), subsidiar esta mão-de-obra barata e desqualificada, pagando às empresas destes ramos (sob a forma de subsídios, benefícios fiscais, etc.) para quem mantenham estes jovens "ocupados". Mas qualquer destas soluções é facilitista, e não leva a lado nenhum, senão à reprodução do problema. Seria uma política de consumo de fundos que são destinados a algo que é um investimento: investimento em capital humano. É, para usar as categorias de Hirschman, a hipótese de exit, não a da voice. É que, nesta linha de (in)acção, estes jovens vão durante toda a vida saber apenas trabalhar na construção civil, ou como bouncers de discotecas, etc. E é precisamente isto que se pretende evitar, seja a nível individual, seja a nível colectivo.
Quando falo política nacional de qualificação e de upgrade massivo do stock colectivo de competências, falo de uma política que não tem nada a ver com soluções mágicas de curto-prazo. Essas, infelizmente, não existem; mais: a curto prazo, o que existe é, aliás, algo bastante mais negro: a tendência para a nossa economia se manter numa situação de equilíbrio de baixas competências, em que empregadores com negócios que exigem mão-de-obra desqualificada atraírem para fora da escola os jovens que assim ficarão sem qualquer qualificação; esta situação é de equilíbrio porque os dois lados alimentam-se mutuamente e dependem um do outro. Nenhum tem um incentivo para sair dele: os empregadores não vêem qualquer ganho em correr o risco para mudar de ramo e exigir mão-de-obra mais qualificada, quiçá mesmo assegurando alguma formação profissional daquela; nem os jovens têm qualquer incentivo, do lado das dinâmicas do funcionamento do mercado de trabalho, para ficar na escola, prosseguir os estudos, e conseguir qualificações. Estamos perante um problema de acção colectiva, uma armadilha sócio-económica, que exige a intervenção do Estado: o que o Estado tem que saber fazer é dar os incentivos correctos para que, de forma coordenada, empregadores e empregados alterem os seus hábitos e transformem aquele que é um círculo vicioso num círculo virtuoso.
O Estado corre dois riscos simétricos quando intervém nestas dinâmicas. Um é ficar demasiado longe e ser incapaz de influenciar as práticas dos empregadores, formando pessoas sem ter em conta as necessidades das empresas, que depois terão dificuldades na inserção concreta no mercado de trabalho. Esta será diagnóstico, em sentido lato, de Joaquim Azevedo, que duvidará da capacidade da escolas secundárias públicas ensinarem aquilo que os jovens precisam de aprender para trabalhar nas empresas. O outro risco é o inverso: o de o Estado ser capturado pelos interesses a curto prazo das empresas, que estão mais interessadas em servir-se dos financiamento e da mão-de-obra barata subsdiada pelo Estado do que numa estratégia de longo prazo de enriquecimento do stock nacional de competências; o Estado só será capaz de conduzir uma estratégia de investinmento/produção de competências enquanto bens públicos (mesmo que impuros) se não se subjugar ao short-termism das empresas, sobretudo quando são pequenas, vivem com a corda na garganta, e não têm capacidade para, elas próprias, garantir formação profissional aos seus trabalhadores de forma contínua e, sobretudo, equitativa (dado que normalmente são sempre os mais qualificados que acabam por ter a oportunidade de aprender coisas novas). A melhor resposta às dúvidas legítimas de Joaquim Azevedo é que se as escolas públicas não sabem fazer tão bem como as escolas profissionais privadas - com a sua experiência acumulada e proximidade em relação às empresas -, então elas podem aprender. A aprendizagem institucional-organizacional é uma capacidade que muitas vezes desprezamos, mas que é perfeitamente exequível, nas condições correctas e com os recursos humanos adequados. Mais: o facto de envolver o sector público tem mais duas vantagens potenciais: uma real, outra simbólica. A real: permite ensinar os jovens conteúdos mais generalistas e mais importantes para a sua formação a média prazo, não inteira e directamente subjugados às necessidades das empresas. Assim, o sistema sueco de vocational training funciona desta forma - isto é, é estatal - e capacita os jovens de conhecimento generalistas o suficiente para nao os circunscrever a um universo de competências excessivamente fechado e de difícil evolução/actualização. A simbólica: o facto de o ensino privado ter o monopólio do ensino profissional criava uma fronteira perversa, como se a escola pública estivesse deliberadamente desinteressada e alienada do mundo real do emprego, e como se só o ensino privado fosse capaz de compreender as dinâmicas e necessidades das empresas. Na medida em que isto se passa na realidade, isto necessita de ser mudado. Simbolicamente, esta divisão é perversa, e é preciso neutralizá-la.

Mas há uma terceira linha de acção em toda esta estratégia política, para além do objectivo de cumprimento da escolaridade obrigatória e de construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem. É o de fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais, e este é o mais difícil, porque se trata de construir instituições duráveis e não apenas lançar medidas de política. Aqui se percebe como a expectativa fácil de que o ensino profissional vai aumentar/facilitar, automaticamente, o emprego dos mais jovens é infundada, e a crítica nela baseada demagógica. O ensino profissional tem esse potencial, sim, se o policy mix for o correcto. Se isto fosse assim tão fácil, os países com tradição de ensino profissional - regra geral, o da Europa Continental e do Norte - teriam níveis de desemprego sistematicamente mais baixos que os que não apostam no desenvolvimento destes sistemas - regra geral, os de tradição anglo-saxónica. Mas isto não é verdade, porque as variáveis em jogo são imensas: uns têm desemprego relativamente baixo (os nórdicos), outro relativamente alto (os continentais, com o pormenor de a Alemanha ter um desemprego nas idades mais baixas inferior ao dos mais trabalhadores velhos, o que mostra a eficácia do seu sistema de estágios nas escolas e empresas, o conhecido por dual-system gerido pelas empresas e pelos sindicatos, quase sem intervenção directa do Estado). O que o ensino profissional pode fazer é tornar funcional um espaço institucional de mediação entre os interesses públicos e privados, e entre estes, entre o capital e o trabalho, alimentando relações de confiança e cooperação entre todos os actores colectivos, e que permitam pensar em estratégia de longo prazo de formação/actualização de competências, modernização tecnológica, e construção/maturação de instituições do mercado de trabalho que fujam às regras que governam as transacções mercantis. Para isso acontecer, os actores colectivos têm de capacidade de organização, de representação e de intervenção sistemática. É isso que faz o força dos sistemas onde as relações corporatistas se mantiveram fortes, mesmo nos anos 90 de "revolta" do capital contra as regras de negociação colectiva em vários países (e, simetricamente, é isso que faz a fraqueza de Portugal); e é isso que pode criar mecanismos de absorção eficiente dos jovens moderada qualificados no mercado de trabalho, assegurando baixas de taxas de desemprego. Mas este desemprego jovem baixo é efeito do sistema de negociação laboral, não directamente do ensino profissional - embora este seja uma peça importante do puzzle.

Portanto, repita-se as vezes que forem necessárias que o objectivo não é arranjar emprego a todo o custo; na nossa flexível economia informal, os jovens arranjá-lo-iam, muito provavelmente, do pé para a mão. O objectivo triplo, a ritmos diferentes, passa, antes, por garantir o cumprimento da escolaridade obrigatória + construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem + fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais. Isto demora tempo, exige competência e persistência dos agentes estatais, bem como a cooperação patronal e sindical na construção de laços de negociação conjunta dos problemas. Não se pede a empregadores ou a sindicalistas que sejam altruístas; apela-se apenas a essa atitude que dá pelo nome feliz de enlightened self-interest.

No fim disto tudo, conclui-se que, pelo menos, se percebe perfeitamente o fundamento do cepticismo de Joaquim Azevedo: este é legítimo, porque tem um justificação técnica e ideológica, e, gostemos delas ou não, tem medidas de politica alternativas. Podemos discordar, mas é uma opção séria - é a opção de quem não quer "Estado a mais" na ligação entre a educação e o sector empresarial; é a opção do PSD. Do outro lado, o que é que tem Santana Castilho senão aquela razão cínica que sempre acompanha os "Velhos do Restelo"?

Tuesday, September 25, 2007

«Nous aimerions chacun ne pas survivre à la mort de l'autre»

Le philosophe André Gorz s'est suicidé avec sa femme
Não há nada como acordar com uma notícia destas...André Gorz, em tempos muito próximo de Sartre (que conheceu em 1946 e que o levou para a equipa da Temps Modernes), era dos mais interessantes filósofos franceses da actualidade, e os seus livros sobre a relação entre a ecologia e o socialismo depois do fim da ligação umbilical deste à figura do proletariado, e o trabalho, tema a que se dedicou a partir de meados dos anos 80, merecem ainda hoje atenção - mesmo discordando de muitas das suas reflexões e propostas, que acabaram por alimentar o debate, há cerca de uma década, em torno do "fim do trabalho". Aliás, é justo que Gorz seja conhecido como "filósofo do trabalho", uma categoria rara mas central nos dias de hoje. L'Immateriel. Connaissance, valeur et capital, que penso ser o seu último trabalho sobre estas questões, é um excelente ensaio sobre o valor do conhecimento nestes tempos de "capitalismo cognitivo" - cuja tese sustenta, contra-intuitivamente, e pour aller vite, que não é o capitalismo que acaba com a ciência, mas a ciência que acaba com o capitalismo.
A única forma interessante hoje de ser anti-capitalista é sê-lo com sofisticação, humildade e sentido da realidade - e o trabalho de Gorz, crítico incansável do mundo actual, exalava estas qualidades.

Como muitos grandes filósofos franceses, preferiu morrer a esperar pela morte - e fê-lo com Dorine, a quem dedicou o seu último livro, em 2006, Lettre à D. Histoire d'un amour. Numa recensão do livro no LIbération, Jean-Baptiste Marongiu e Frédérique Roussel escreviam que as primeiras frases da obra «contiennent le mystère de la rencontre pérenne entre un homme et une femme», e uma «promesse d'infini».
Voilà: promessa de infinito, pois então. «Nous naissons plusieurs mais on meurt seul, a écrit quelqu'un», recorda Gorz nessa obra premonitória. Decidiu não morrer só, mas com a mulher com quem partilhou cerca de meio século de existência. Afinal de contas, o suicídio é também expressão de "autonomia" - um dos seus ideais preferidos de Gorz, e que sustentava toda a sua crítica não apenas do capitalismo, mas da existência tout court.

Tuesday, September 11, 2007

A reinvenção da roda

Não gosto de perder muito tempo a falar da incapacidade política - da policy, não da politics - do PSD, mas às vezes não há mesmo como resistir, tal o ridículo da situação.
Assim, Marques Mendes acha que, na área da educação, o Governo faz «propaganda» a mais e toma «medidas» a menos. Não vale a pena perguntar o que fizeram os últimos Governos do PSD nesta área que tenham alterado efectivamente as tendência de longo curso do sistema, em particular no abandono escolar - esse grande e milagroso «conjunto de medidas» que o Governo actual não toma por «falta de coragem».
Resta saber se Marques Mendes sabe que medidas estão em curso. É muito provável que não. Se assim fosse, não procuraria reinventar a roda, afirmando que o que era mesmo necesário para combater o abandono escolar «era introduzir o ensino profissional a sério nas escolas». Ena. A sério????? Isto sim, é que é fazer oposição.

Mesmo com a espalhafatosa propaganda socialista em acção, o dr. Marques Mendes parece não saber o que está a ser feito. A eficácia da propaganda já não é o que era.

Sunday, September 9, 2007

A pobreza do - de um certo - criticismo

Porque é que tantas pessoas têm uma tão grande dificuldade em fugir à falácia genética?

Thursday, September 6, 2007

Não é moeda ao ar, é saber ler os indicadores

Caro Filipe, as coisas estão explicadas aqui. E o DN já assumiu o erro.

Tuesday, September 4, 2007

Chamar-lhe-ão "meritocracia"?

"A remuneração média de cada membro de conselho de administração das empresas cotadas na bolsa [portuguesa] representa 31,5 mil euros/mês e uma grande parte (..) foram aumentados sessenta vezes mais que um trabalhador comum..."

António Vilarigues, PÚBLICO, 03-09-2007

À atenção da esquerda: sobre o futuro dos serviços públicos

Editado por Patrick Diamond e pelo Public Service Reform Group, Londres, Politico's Publishing, 2007

Salários


Números para fazer pensar...

Smart season


Ainda dizem que o Verão é a silly season. Depois de Luís Filipe Vieira ter tido a coragem de ter mandado Fernando Santos para o sítio de onde nunca devia ter saído - isto é, da Grécia - e ter mandado Camacho regressar, já posso de bom grado sentar-me novamente no terceiro anel do Estádio da Luz.

Rentrée



Este blogue esteve de férias, está na hora de regressar, aqui com Patrick Wolf, o tema é "Overture", ao vivo no Bowery Ballroom, em Nova Iorque, em Maio passado.

Wednesday, July 25, 2007

Policy vs. politics

A imprensa e a oposição à direita - em particular o PSD - vivem cada vez mais da exploração dos casos - uns delicados, outros apenas exagero desmesurado - do que os anglo-saxónicos, sabiamente, afirmam pertencer ao domínio da politics, o da luta política quotidiana, onde vale mais ou menos tudo. A policy, essa, o espaço das orientações e objectivos estratégicos da política, fica sempre para segundo plano. Isto não é necessariamente estranho nem totalmente negativo: o que se faz - e como se faz - no dia-a-dia conta, e a pressão mediática tem destas coisas. Chama-se, afinal de contas, democracia. Mas convém não perder de vista o domínio da policy, sob pena de toda a discussão ficarmos reféns do que, sem termos presente um sentido do objectivo e do significado real da política, pode acabar na mais decadente intriga.

Wednesday, July 18, 2007

Os loucos anos 90 III



Os Pulp - also known as the most sociologically-minded-band-of-the-1990's-post-Thatcherist-Britain - com 'Common People', do álbum "Different Class" (1995).

Tuesday, July 17, 2007

Férias à vista













Um dos pontos de passagem previstos: Auschwitz

Monday, July 16, 2007

Michael Moore e a CNN

O João Caetano chamou-me a atenção - e bem - por e-mail para o "debate" em curso entre a CNN e o Michael Moore no seguimento da reportagem e da entrevista a que aludi aqui. A CNN corrige algumas estatísticas usadas por Moore, e ainda bem.
Simplesmente, a questão central do debate não é essa. A dimensão e o significado político - e se quiserem, ideológico e moral - da discussão não se resolve com hiper-preciosismos estatísticos. Este só é necessário quando as disputas são too close to call. Mas, no caso em questão, saber se os EUA estão uns lugares acima ou abaixo nas tabelas internacionais ou se, em comparação com os outros países, gasta, per capita, umas centenas de dólares a mais ou menos em saúde não é de todo o que está em causa. O excesso de zelo estatístico não resolve o problema gravíssimo de um sistema que, como já havia escrito aqui, é incapaz de proteger uma parte muito significativa da população (46,6 milhões segundo dados de 2005, ou seja, 16% da população - sem dúvida aquela que mais precisaria de cuidados de saúde), já para não falar da cobertura incipiente de muitos. Para além dos 46 milhões acima referidos, estima-se que 37 milhões estão sem seguro largos durante períodos de tempo (dado que os seguros estão tipicamente attached aos empregos, quando se perde o emprego perde-se também o seguro de saúde), já para não falar daqueles que estão underinsured, uma vez que seguro de que dispõem é altamente limitado nos serviços e medicamentos que cobre.
Podíamos estar a discutir se são, de facto, 37 milhões ou 36 milhões, ou se o número mais correcto é 16% ou 15% ou se....O problema está lá e, sobretudo, está a agudizar-se. A CNN pode ter pontual razão estatística; Moore (de quem não sou grande fã) tem razão política - e, se quiserem, moral.

Independência já!

O presidente do Governo Regional da Madeira, que suspendeu a aplicação na região da lei que despenaliza o aborto, considerou hoje que é Portugal «quem está na ilegalidade», por aplicar uma lei que não respeita o direito à vida.«Na minha formação política, primeiro estão os grandes princípios da defesa da pessoa humana e só depois está o positivismo da lei escrita», declarou.

Alguém pode explicar ao dr.Alberto João Jardim a diferença entre um Estado de Direito e um Estado "Moral"?
Cada vez que oiço/leio este criatura dizer estas cretinices, eu pergunto onde está o PSD. Aceitar calado - como se João Jardim fosse uma espécie de político freelancer, sem responsabilidades institucionais e partidárias - estas coisas é mais grave do que ter ficado em 3º nas eleições intercalares de Lisboa (coisa que origina logo a marcação de um congresso); é um continuado péssimo serviço que um partido como o PSD presta à qualidade da democracia e das instituições política portuguesas.
Se um dia oferecerem a independência ao dr.Jardim - coisa que pessaolmente não me importava nada - eu queria ver contra quem iria disparar o seu irresponsável discurso "anti-colonial". Politicamente falando, a Madeira continua mais perto da América Latina do que do "Contenente".

Worth every penny

IVG vai custar ao Estado pelo menos 5,8 milhões de euros por ano.

Literatura de Verão

Para ler até a adormecer ao sol.

Lisboa

A esquerda, no grande arco que vai do PCTP/MRPP ao PS, obteve cerca de 57% dos votos nas eleições intercalares de ontem em Lisboa. Continua, portanto, a ser uma cidade que vota predominantemente à esquerda. E, porém, se o PSD não estivesse partido ao meio, dividido entre as candidaturas de Carmona Rodrigues e Fernando Negrão, talvez tivesse ganho (os seus votos somam quase 32,5% dos votos, mais 3% do que a candidatura de António Costa). O que à direita é uma excepção é à esquerda a regra. Podíamos ter pago caro - se é que não o vamos pagar na governação de uma câmara dificilmente governável, em função dos mandatos atribuídos. Vamos ver se alguns conseguem ir para além da política do "bate pé".

Os loucos anos 90 II



Peter Murphy, com "A Strange Kind of Love" (1990).

Love is a fire

«Love is a fire
It burns everyone
It desfigures everyone
It is the world's excuse
for being ugly».

Leonard Cohen,
in "Poemas e Canções". Vol.I (original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)

Thursday, July 12, 2007

"Sicko", Michael Moore, a CNN e o papão da "socialized medicine"

Vale mesmo a pena perder aí um quarto de hora a ver estas peças televisivas que o Daniel Oliveira colocou aqui, bem como o seu comentário. Aquela peça da CNN sobre o novo filme de Michael Moore, "Sicko", é má demais. Independentemente da qualidade do filme de Moore (mas a realidade que retrata, relativa ao sistema de saúde norte-americano, é razoavelmente consensual), nada justifica semelhante jornalismo rasteiro. Se estes são os "padrões de jornalismo de qualidade mundial" da CNN, então estamos conversados.

Wednesday, July 11, 2007

Monday, July 9, 2007

Futebol, ano 0

Há muitos anos, as coisas do mercado de transferência futebolístico levaram Ronaldo, que jogava então no PSV Endhoven, a assinar pelo FCBarcelona. Muito por culpa disso, 1995/1996 é o ano futebolístico de que tenho mais saudades. Ronaldo parecia um jogador do outro mundo, sistematicamente mais forte, mais rápido e mais habilidoso do que os 3 ou 4 jogadores que o circundavam e o abordavam no limite da violência. Depois daquilo, não tenho grande pena de não ter visto Pelé, Eusébio e companhia a jogar ao vivo.

Depois Ronaldo foi na cantiga das liras e trocou o Barcelona pelo futebol italiano. Foi uma pena. O catenaccio foi acabando com as suas pernas e o Barcelona sentiu a sua perda. Pior, mesmo, só o impacto sobre os adeptos que ainda guardam na memória as emoções que aquele ano - e em particular aquele mágico 5-4 contra o Atlético de Madrid na Taça do Rei - proporcionou.

Bom, mas 2007/2008 promete muito. É que Thierry Henry, que é provavelmente o melhor jogador mundo, deixou finalmente o Arsenal para se transferir para, claro, o FCBarcelona. Digo finalmente porque, apesar de o Arsenal ser o clube inglês de que mais gosto, Henry merecia um clube melhor. Como melhor jogador do mundo, já merecia estar naquele que é provavelmente o melhor clube do mundo.

Restam-lhe provavelmente ainda mais 2 anos com a mesma capacidade atlética. É tempo suficiente para fazer muitas das coisas que podem encontrar no video seguinte.

Friday, July 6, 2007

Não matem o bebé...

Carvalho da Silva acusa debate sobre flexigurança de estar enviesado.

Resta saber quem o enviesou ou tem mais interesse em enviesá-lo. Sob pena de se fazerem comparações directas e frágeis com a Dinamarca, está-se a retirar a virtualidade à flexisegurança, que deve ser concebido como um modelo de relações laborais de geometria relativamente variável, e não como uma solução mágica e de tamanho único.

A discussão em torno deste modelo deve continuar, de forma serena, e sem a intenção deliberada de assustar as pessoas, que por vezes parece ser o primeiro objectivo sindical.

Convém não esquecer uma coisa para os próximos anos: se o mercado de trabalho português não sofrer algum tipo de flexibilização, não vejo como a economia terá capacidade para (e os agentes económicos interesse em) gerar emprego, de forma a absorver as pessoas cujo emprego nenhum código laboral, nem o mais seguro do mundo, vão muito provavelmente ser perdido, devido à competição internacional. Costumo dizer que aqui não vale mesmo nada a pena ser "fetichista da lei", e pensar que ela resolve tudo; não só não resolve (há tantas formas de a evitar: não criar emprego; comprar uma máquina em vez de contratar um trabalhador; sub-contratar o trabalhador com esquemas hiperflexíveis; alimentar o mercado negro, onde nenhuma lei conta, tirando, claro, a "lei do mais forte", etc.) como por vezes pode jogar contra as pessoas - a começar pelos desempregados. No sindicalismo costuma-se dizer que é uma estupidez "colocar trabalhadores contra trabalhadores", mesmo que um destes grupo reúna trabalhadores no desemprego (que querem o que só os primeiros têm e que é limitado: emprego); no plano teórico eu até concordo, mas sou sensível à miopia ideológica a que isto pode levar: é que não se trata de, no discurso, supostamente maquivélico, colocar trabalhadores contra trabalhadores; trata-se de reconhecer que, na realidade do mercado laboral, os trade-offs existentes e a que ninguém pode fugir, esta competição existe, e que para a tornarmos mais equitativa e redistribuirmos os riscos, temos que partir da realidade do problema em vez de nos fecharmos em slogans ideológicos. O problema existe, e é o seu reconhecimento que nos deve obrigar a olhar de frente e a procurar a solução mais adqueada a todos, a começar pelos interesses dos mais fracos. Ou seja, a unidade dos trabalhadores deve ser o resultado almejado pela reflexão e pela acção política inteligente e correcta, e não um a priori ideológico que pode, no limite, apenas reproduzir os problemas - os problemas dos mesmos trabalhadores que os sindicatos representam.

Enquanto modelo, a flexisegurança é, implica, obriga também a uma mudança de mentalidades. O essencial no futuro não é proteger os empregos a todo o custo (isso, convém repetir, nenhuma lei conseguirá, e isso nem sequer é desejável em todos os contextos); o essencial é proteger as pessoas, estejam elas empregadas num dado momento ou não. Se não gostarem da palavra "flexisegurança", arranjem outra; mas este princípio é muito importante, demasiado importante para ser denegrido ou esquecido pelos interesses imediatos do sindicalismo, que deve reconhecer a amplitude do problema do desemprego (em particular o de longa duração) e da dificuldade da criação de emprego (ainda por cima num contexto de acelerado desenvolvimento tecnológico, onde compensa muito mais, para algumas tarefas, "contratar" uma máquina) em algumas economias da Europa. E sem capacidade de criação de emprego, muito dificilmente teremos um mecanismo sustentado para evitar o cavar do fosso das desigualdades.

Adenda 1: ler, sobre o mesmo assunto, isto.

Adenda 2: o debate prossegue aqui.

O que faço aqui

«Não sei se o mundo mentiu
eu menti
não sei se o mundo conspirou contra o amor
eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é confortável
eu torturei
Mesmo sem a nuvem do cogumelo
teria odiado
Escutem
teria feito o mesmo
mesmo que a morte nao existisse
não me colocarão como a um bêbedo
sob a fria torneira dos factos
recuso o alibi universal

Como uma cabine telefónica vazia junto à qual passas a noite
e depois recordas
como espelhos de um vestíbulo de cinema
consultados só à saída
como uma ninfomaníaca que une um milhar
numa estranha irmandade
eu espero
que cada um de vós confesse»


Leonard Cohen, in "Poemas e Canções". Vol.I
(original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)

Thursday, July 5, 2007

Os loucos anos 90



Hoje é dia de Jesus and Mary Chains no "Super Bock Super Rock", mas a nostalgia por aqui tem o nome de Suede, com New Generation, do álbum Dog Man Star (1995), grande, grande faixa.

I wake up every day to see her back again
Screaming my name through the astral plane
And in this catalogue town she takes me down
Down through the platinum spires
Down through the telephone wires
And we shake it around in the underground
And like a new generation rise

And like all the boys in all the cities
I take the poison, take the pity
But she and I, we soon discovered
we'd take the pills to find each other

Oh but when she is calling here in my head
Can you hear her calling
And what she has said?
Oh but when she is calling here in my head
It's like a new generation calling
Can you hear it call?
And I'm losing myself, losing myself to you

I wake up every day, to find her back again
Breeding disease on her hands and knees
While the styles turn and the books still burn
Yes it's there in the platinum spires
It's there in the telephone wires
And we spread it around to a techno sound
But like a new generation rise

Cos like all the boys in all the cities
I take the poison, take the pity
But she and I we soon discover
We take the pills to find each other

Oh but when she is calling here in my head
Can you hear her calling?
And what she has said?
Oh but when she is calling here in my head
It's like a new generation calling

Can you hear her call?

And I'm losing myself, losing myself to you

Wednesday, July 4, 2007

Porque a esquerda francesa vai demorar muito tempo a regressar ao poder?

Porque o governo de François Fillon vai ocupar todo o espaço político eleitoralmente relevante, dado que se prepara para tomar uma série de medidas bastante ao centro, tocando mesmo o centro-esquerda (ver excerto da notícia do "Público on-line"). E vai deixar o Partido Socialista Francês sem espaço para respirar, vendo o centro-direita tomar medidas que devia ser ele a adoptar, se estivesse no poder. Pela enésima vez desde 1958.

No mesmo espírito de reforma, Fillon anunciou um aumento das dotações para as universidades – que classificou como a sua "prioridade absoluta" –, elevando para cinco mil milhões de euros o investimento no ensino superior até 2012. "Queremos reformar a universidade francesa e fazer das nossas escolas pólos de excelência, dispondo de real autonomia, financeiramente responsáveis e pedagogicamente melhoradas", afirmou, dizendo esperar que nos próximos anos seja possível que 50 por cento dos jovens franceses obtenham um diploma do superior. O Governo pretende também aumentar o investimento na investigação para três por cento do PIB – nível considerado desejável pela UE. "Não serei dos que sacrificam a investigação essencial sob pretexto de que ela é improdutiva a curto prazo", justificou, lembrando que França tem vindo a perder terreno nesta área para outros países europeus. A construção de 120 mil habitações sociais por ano, a aposta na formação profissional e um plano para os bairros considerados difíceis foram outras das promessas feitas pelo novo primeiro-ministro na intervenção no Parlamento, durante o qual confirmou que o Governo irá aplicar o princípio da admissão de um único funcionário por cada dois que se reformem.

Uma prática verdadeiramente anti-capitalista...

...ou como levar as cadeias de hóteis à falência.

Uns dos muitos que não foram convidados para o 'Super Bock Super Rock'

Naturalmente

"Orçamento do Estado deve deixar de financiar ADSE", defende Jorge Simões, numa entrevista importante publicada no "Público" de ontem. E isto por uma questão de justiça - ou, se quiserem, de equidade -, na linha da argumentação que já havia defendido aqui.

Jorge Simões é o presidente de uma comissão de peritos que produziu recentemente um relatório sobre a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, disponível aqui.

Depois volto a este assunto.

Monday, July 2, 2007

É já amanhã! (II)

Parênteses sobre o abandono escolar

Antes de ir ao post sobre o papel da educação numa estratégia de esquerda social-democrata num mundo globalizado, faço um parênteses sobre a questão do abandono escolar, que era afinal de contas o tema do meu artigo no dossiê do "Le Monde Diplomatique" do mês de Junho. Uma das razões pelas quais o abandono escolar me parece ser negligenciado não se deve apenas ao middle class bias que apontei no artigo. No caso de muitos, desconfio que vá mesmo mais fundo: é que convém não esquecer - e a boa memória é importante em política - que, por alturas dos anos 70 (ou seja, há não muito tempo), o abandono escolar era elogiado, mesmo que implicitamente, à esquerda. Abandonar a escola era, afinal de contas, resistir à "educação burguesa", era renunciar à "competição individual", era recusar a "institucionalização na ordem capitalista"; os lads filhos da working class, ao deixarem a escola, ofereciam à esquerda uma espécie de potencial vanguarda revolucionária, retomando a luta que os seus pais haviam renunciado.
A desgraça, claro, é que os lads não só não constituíram força revolucionária nenhuma contra nada (tirando, claro, as mais mediáticas formas de mobilização social destes indivíduos nos anos 80: o hooliganismo nos estádios e nas ruas das cidades inglesas), como foram os que mais fragilizados estavam perante o choque Thatcheriano do início dos anos 80. Sem qualificações e não sindicalizados, foram carne para canhão para as estratégias de desregulação do mercado laboral britânico e para os cortes nas transferências sociais. Pergunto se, entre os que incentivavam o abandono escolar dos would-be revolutionaries, alguém fez um sério mea culpa.
Não me espantaria nada que hoje ainda existisse por aí um resquício deste pensamento. É que se a escola é "capitalista", então é porque não vale muito a pena continuar nela. Daí a encolhermos os ombros perante o fenómeno do abandono escolar, vai um passo. Como diz uma canção popular inglesa: «The music has gone but the melody lingers on».

É já amanhã!

Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (II)

1. Um dos elementos que veio a debate a certo ponto foi a questão das prioridades: o que interessa estudar e sobre o que interessa intervir. Algumas vozes na audiência alinharam pela posição de que, por exemplo no sector da educação, todas as questões são importantes: as desigualdades no ensino básico, secundário, superior; a questão da transição do ensino superior para o mercado de trabalho, etc. Num certo sentido, não posso discordar; sobretudo quando falamos de um programa académico em torno, por exemplo, das questões da sociologia e da economia da educação, vários objectos merecem atenção simétrica.
No entanto, quando se passa à intervenção política a questão não é assim tão simples (e ela não é assim tão simples na dimensão da investigação, mas deixo isso por agora de lado). Aintervenção política é obrigada a definir prioridades, sob pena de gastar mal os seus recursos, que são por definição finitos: recursos financeiros, humanos, temporais, de credibilidade política, etc. Mesmo que se identifiquem n problemas, não podemos "ir" a todos ao mesmo tempo, com a mesma energia, sob pena de não resolvermos nenhum. Por isso é absolutamente indispensável definir prioridades, dizer "X é importante, sim, mas não tão importante como Y, que precisamos de resolver agora, sob pena de qualquer acção presente ou futura sob X ser infrutífera". Ora, isto, à esquerda, parece ser difícil, porque implica estabelecer uma hierarquia de preocupações. Mas, desculpem este tipo de argumento, só quem está de fora e não tem de gerir os múltiplos recursos acima mencionados - escassos, repito, e por vezes alguns muito escassos mesmo - é que se pode dar ao luxo de dizer que "tudo é importante".
Mas não pode ser: hoje, a prioridade na educação em Portugal é elevar a qualidade no ensino básico, a começar no 1ºciclo, porque é aqui que se começam a construir os alicerces das aprendizagens futuras. Melhor: este alicerces devem começar mais cedo, entre os 0 e os 3 anos, e entre os 3 e os 6 anos. Aqui, ainda há muito por fazer em Portugal.

2. Outro argumento que emergiu a dada altura tocou a questão do TGV, problematizando o dito "modelo de desenvolvimento" do país. Aparentemente, à esquerda este parece uma estratégia antiquada, destinada a manter-nos presos a uma trajectória económica nas baixas qualificações. Devo confessar que este é daquele tipo de críticas que à esquerda me causa profunda confusão (já percebo que a direita se insurja conta o despesismo estatal e esse tipo de coisas); todos critica a (suposta) morte do keynesianismo e da intervenção redistributiva do Estado na economia. Bom, mas o TGV, a Ota e tudo o mais que quiserem meter no saco das obras públicas é o ABC do keynesianismo. O efeito multiplicador de uma obra desta envergadura vai permitir não apenas construir novas vias de ligação intra- e internacionais, mas vai permitir dar emprego a muitas pessoas que dependem deste tipo de actividade pelo país fora, e isto não se cinge, naturalmente, ao trabalho não-qualificado. Quando me dizem "ah, mas isso vai só alimentar o trabalho não-qualificado?", o que me apetece perguntar é: "pronto, então preferem que essas pessoas fiquem todas no desemprego?!". Claro que do ponto de vista do "quanto melhor, pior", isto seria óptimo: o desemprego dispararia ainda mais, e o descontentamento popular também. Os extremos populistas agradeceriam.
Para além do mais, dizer que uma obra desta envergadura colide com o upgrade tecnológico e empresarial da nossa economia não tem razão de ser. Todos os países de Europa muito mais bem armados em infra-estruturas do que Portugal investem recorrentemente em obras deste tipo; podemos discordar de uma opção ou outra, mas isto mostra que nenhum país, mesmo se a sua economia é alimentada pela inovação tecnológica, dispensa constantes investimentos infra-estruturais. E, já agora, convém não esquecer que no orçamento 2007, o único ministério que viu a sua fatia aumentar foi o da Ciência e Tecnologia e do Ensino Superior, e na ordem dos 60%. Se isto não é uma afirmação de uma prioridade política, então não sei o que é.
O fundamental, no futuro, é reduzir a percentagem nacional de trabalhadores que só pode ser empregue em actividades intensivas em mão-de-obra. Isto é absolutamente essencial, para que essas pessoas possam encontrar emprego em actividades menos violentas do ponto de vista físico e mais enriquecedoras do ponto de vista profissional e humano. Para isso, é preciso formar e qualificar, mas isto não chega.

3. A pergunta mais importante que me foi colocada versou sobre o papel da educação na política económica: será que a educação vai resolver todos os problemas futuros, de forma que podemos esquecer as outras alavancas de intervenção económica? Não. Pelo menos, eu não concordo nada com esta estratégia, expressa, por exemplo, no manifesto de 1997 do New Labour - que lhe permitiu ganhar ao fim de 18 anos de governo dos Conservadores -, onde se lê que “education as the best policy as we have”. À esquerda é legítima a dúvida de que isto pode ser uma armadilha. O meu próximo post andará à volta desta questão, mas deixo uma nota: quem ouviu na sexta-feira anterior a esta última, numa sessão aberta ao público, as intervenções de Anthony Giddens (um dos ideólogos da "terceira via" blairista que passou, como se recordarão, por Lisboa) e do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, sobre a globalização, o trabalho e a social-democracia, terá ficado a perceber a diferença entre diferentes estratégias social-democratas num mundo em globalização.

Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (I)

1. Comecei por dizer, de forma provocatória, o que já tinha escrito aqui: que, dado o défice de qualificações da grande maioria dos activos portugueses, a estratégia mais apetecível e fácil, do ponto de vista económico, é assumir que a nossa mão-de-obra deve, num contexto de competição crescentemente global, "vergar-se" aos seus défices de qualificação e produtividade (muito longe da média da UE...), e assumir que a única estratégia possível de desenvolvimento passa pela estagnação (ainda maior) dos salários e uma massiva desregulação do mercado de trabalho, o que abanaria a economia, e obrigando as empresas "incapazes" a abrir falência. O desemprego subiria, sim, mas o ajuste levaria a que as pessoas não tivessem outra alternativa senão ajustar-se às transformações futuras do mercado de trabalho desregulado, aceitando qualquer emprego - hiperflexível, mal remunerado, etc. - num sector de serviços em crescimento. A prazo, o desemprego desceria, sim, mas com um custo brutal de aumento das desigualdades e dualização da sociedade. Esta é a conhecida por estratégia anglo-saxónica, assente em que tudo o que é low: low skills-low wage-low regulation.
Esta não é, obviamente, a única estratégia possível, e não é a estratégia a ser seguida pelo actual Governo. A outra grande alternativa é qualificar a população, recuperando o tempo perdido, e atrair investimento, promovendo a mudança da estrutura ocupacional (que é, em Portugal, ainda muito diferente dos países mais prósperos da UE), e fazendo pequenos ajustes na legislação laboral (quem acha que a discussão actual sobre a "liberalização dos despedimentos", etc., é a expressao do neo-liberalismo, nao faz a mínima ideia do que é um mercado laboral regido pelo dito "neo-liberalismo", e de quão longe estamos dele, e de como a nossa legislação produz situações perversas para os trabalhadores - precisamente aqueles que a lei devia proteger. Mas alguém está disposto a discutir isto seriamente?!). Ainda há muitos avanços a fazer na transformação da nossa estrutura económica em direcção a um modelo cujo motor passe a ser o trabalho qualificado no sectores mais dinâmicos da economia de serviços e do conhecimento. Esta estratégia é, também, mais morosa do que a anterior, e isso é fundamental que as pessoas percebam: porque não implica nenhum "choque", mas um - mesmo que robusto - incrementalismo, ela tem que ser avaliada pelos frutos que permitirá a longo prazo, e pela capacidade que tem de colocar o país numa trajectória de crescimento sustentado. De nada vale a pena crescer um ou dois anos se a estrutura económica do país ficar na mesma e voltarmos aos mesmos problemas logo a seguir. Por isso é preciso esperar. E para esperar é preciso paciência. E para ter paciência é preciso ter confiança: confiança individual, por um lado, e confiança institucional por outro, em particular por parte dos parceiros institucionais que devem levar a sério uma estratégia de desenvolvimento cujo sucesso passa também pelo seu envolvimento activo nela. O clima de constante guerrilha institucional não traz benefícios para ninguém, tirando, claro, os populistas de esquerda ou direita, que verão no aumento do descontentamento generalizado uma oportunidade para aumentarem a sua quota eleitoral, subindo mais uns pontitos percentuais. Nesse sentido, a "estratégia do quanto pior, melhor", que faz parte da tradição política de uma certa esquerda, continua a ter uma actualidade perene.

2. Suponho que as pessoas não tenham gostado da minha redução das estratégias de desenvolvimento a duas opções. É legítimo, mas a incapacidade de propor estratégias alternativas é confrangedora. No campo da esquerda populista, sem qualquer vocação de Governo e que nunca o terá que exercer - o que é um convite à mais pueril irresponsabilidade política -, continua-se a eleger a "iniciativa privada" e a falar da "economia" e das "empresas" como se não vivêssemos numa economia de mercado, como se a maior parte da população não estivesse nela empregada, e como se os serviços que a maior parte dos aderentes da esquerda populista dispôs ao longo da sua vida - escolaridade gratuita ou saúde tendencialmente gratuita, já para não falar das transferências sociais que completam a estrutura do Estado social - não fossem pagos pelo mesmo "mercado". Há alturas em que eu percebo - sem, naturalmente, concordar - a força que o pensamento de direita ganhou em certos círculos, tornando-se verdadeirmante dogmática e anti-esquerda: é com tanta má fé, tanta denegação, tanta incapacidade para olhar certos factos elementares de frente (o que, vindo por vezes de cientistas sociais, me deixa francamente perplexo) tanta incapacidade para perceber como o Estado só tem dinheiro para pagar o que achamos que deve pagar (e que é, tem de ser, finito, e por isso inteligentemente limitado e definido) se conseguir colectar os impostos que derivam dos lucros produzidos pela tal infâme "iniciativa privada", etc. etc., é natural que à direita se ache que a esquerda que não faz mais nada que dizer mal do "mercado", etc., deve ser denunciada de "parasita".

3. Esta forma de não pensar o mundo actual leva a que a esquerda populista, que adora dizer que tudo o resto é de "direita", esteja completamente ausente do debate político concreto, da discussão de ideias para o futuro, da proposta de soluções, etc.. Porque recusa tudo ou quase tudo que se faz (tudo é de "direita") ou porque tudo é um "compromisso" e um "desvio" ("social-democrata" ou outro), esta esquerda entrega, num acto verdadeiramente suicida, o espaço do debate em torno das opções estratégias de policy à direita e à esquerda social-democrata. A sua posição define-se por ser do "contra" o "neo-liberalismo" e o "capitalismo" e etc., sendo que estas categorias, repetidas até à exaustão, funcionam como etiquetas e "marcadores tribais" e nunca como conceitos que devem ser definidos e sujeitos a um "reality check" (o que, repito, quando falamos de cientistas sociais, me parece grave). As eventuais propostas realizadas estão tão longe da realidade e são, na maior parte, e enquanto eventual modelo de desenvolvimento alternativo, tão impossíveis de colocar em prática, que não merecem na maior parte das vezes levadas a sério. E porque não são levadas a sério, não são discutidas por ninguém no espaço público, nem nunca farão parte de nenhum programa político capaz de convencer o eleitorado - o que, em democracia, é, no mínimo, se me é permitida a ironia, um pequenino handicap.

Depois volto a outras questões levantadas no debate e a outras reflexões laterais.

P.S. - Já o disse em resposta ao Carlos Leone na caixa de comentários deste post, mas para que fique claro - e o Renato Carmo chamou-me a atenção para isto, penso que é perfeitamente justo -, a minha saída do Peão nada tem a ver com o que se passou no debate - que, reafirmo, foi cordial e interessante, mesmo que previsível q.b. -, até porque quando falo de "esquerda populista" neste post não me estou a referir a nenhum dos membros activos do Peão. Para quem não restem confusões, era importante esclarecer este ponto.

Wednesday, June 20, 2007

Jay-Jay Johanson



Amanhã, quinta-feira, toca no grande auditório do CCB o Jay-Jay Johanson, que regressa a Portugal para apresentar o seu novo álbum "Long Term Psysical Effects Are
Not Yet Known" (2007), que podem ouvir na íntegra na playlist aqui em cima.

Debate


A propósito...

...do post anterior, há uma discussão interessante a decorrer no Peão.

Tuesday, June 19, 2007

Estado "social-democrata" vs. "corporativo"

Substituam "França" por "Portugal" na maioria dos locais e tirem algumas conclusões. Traduzido do livro de que falei aqui (p.56-7).

«Em França, a esquerda recusa a ideia que há desigualdade entre os empregos públicos e os empregos privados. A ideia de que a sobreprotecção de uns produz desigualdades em detrimento dos segundos é refutada em nome da recusa do nivelamento por baixo. Na Dinamarca, tal dicotomia é considerada como inaceitável porque profundamente injusta. Uma das características do modelo dinamarquês é de assentar sobre o princípio da continuidade das condições de emprego e de trabalho entre o sector público e o sector privado. Não apenas a função pública é mais limitada (4% dos assalariados contra 30% em França), mas tudo é feito para aproximar o funcionamento da função pública do do sector privado (...) Para além disso, a correspondência entre a função e o estatuto (...) não existe no sistema dinamarquês, onde apenas uma reduzida minoria de funcionários beneficia de um emprego protegido. A ideia de que o Estado deve dispor de um grupo de funcionários amplo e protegidos para assegurar as suas funções centrais é totalmente estranho à cultura política de um país onde a grandeza do Estado não faz qualquer sentido. Porque não queremos renunciar aos estatutos, mas dado que não estamos em condições de os generalizar, em França, os trabalhadores que beneficiam de um estatuto e outros que a ele não têm acesso são capazes de exercer a mesma função. Este tipo de situação seria simplesmente inaceitável num país escandinavo, dado que isso simbolisaria a desigualdade construída não pelo mercado mas pelo Estado. A regra é por isso aquela do contrato único para todos os empregos, incluindo os públicos. (...) O modelo dinamarquês (...) é ao mesmo tempo muito liberal e muito protector, sendo que o conteúdo desta protecção é muito diferente daquele que atribuimos em França. [Na Dinamarca] protege-se para facilitar e mudança e não para a conter.»

Nota: na Dinamarca, as desigualdades sócio-económicas e escolares são mais baixas, o desemprego mais reduzido, o imposto sobre o rendimento muito mais elevado, os níveis de protecção social mais altos, os indicadores de desenvolvimento social e de capital social superiores, e o PIB per capita mais elevado do que em França.

Monday, June 18, 2007

Le Capitalisme d'Héritiers


E eis que pelo correio nos chega um daqueles (pequenos) livros que valem dezenas de outros. Escrito sobre a sociedade francesa, Le Capitalisme d'Héritiers tem inúmeras reflexões que se aplicariam também à portuguesa e ao seu capitalismo, às suas relações laborais, ao seu sindicalismo e patronato, e aos bloqueios aos processos de modernização e inovação. A introdução deste pequeno livro está disponível aqui, no sítio da République des Idées, claro, a cuja excelente colecção o livro pertence. A obra do economista Thomas Philippon é uma resposta directa a um, senão o grande tema e slogan de Sarkozy na campanha das eleições presidenciais francesas de Maio: "a crise do valor trabalho". Philippon mostra que Ségolène estava globalmente correcta na análise do problema - mas também por aqui se vê como a candidata socialista não soube defender as suas ideias de forma verdadeiramente eficaz, coerente e poderosa.
Nos próximos dias talvez ande aqui um pouco à volta das reflexões de Philippon. De qualquer forma, com mais este livro, a République des Idées mostra de onde virá a verdadeira oposição intelectual a Sarkozy nos próximos anos. Oposição séria, realista, não-sectária, capaz de apoiar um projecto de esquerda de governo, que faça realmente a diferença em França. E para fazer a diferença é preciso ganhar eleições - e para ganhar eleições é preciso saber auscultar de forma muito competente o que se passa na sociedade. Se a esquerda francesa tem acumulado derrotas atrás de derrotas é porque não percebeu que muitas coisas mudaram no último quarto de século e não soube redefinir objectivos.

Friday, June 15, 2007

«So, at 12, I knew that the point of being human was to spend one's life fighting social injustice»

O Ivan encontrou na net um dos textos mais giros do Richard Rorty reunidos no Philosophy and Social Hope que aqui mencionei há dias, intitulado "Trotsky and the Wild Orchids", e escrito em 1992. Merece bem ser lido.

Wednesday, June 13, 2007

Nota sobre Rorty

Infelizmente estou com pouco tempo, porque gostava de escrever algo mais longo e sustentado sobre Richard Rorty. Há poucos livros dele traduzidos para português - com destaque para o Contingência, Ironia e Solidariedade, da Presença, que é uma bela obra -, mas, do ponto de vista político, falta traduzir as duas que melhor porventura retratam a mensagem política da sua filosofia: Philosophy and Social Hope (1999, Penguin Books), que é uma colectânea de excelentes ensaios, e Achieving Our Country (1999, Harvard University Press), que é um livro cheio de energia sobre o estado actual e o que devia ser/fazer a esquerda americana, em particular a de inclinações académicas, e sobretudo aquela mais seduzidas pelas coisas do pós-modernismo. Apesar da sua admiração filosófica por autores como Wittgenstein, Heidegger, Foucault ou Derrida - politicamente conservadores ou radicais, mas com poucos political brains -, e apesar de algumas das suas teses se prestarem a uma apropriação idealista e pós-moderna (convenhamos que uma filosofia que se constrói em torno da apologia da contínua "redescrição" do nosso "vocabulário" corre esse risco), Rorty era um homem da esquerda, mais preocupado com o que acontecia aos trabalhadores norte-americanos no último quartel do século XX do que com grandes delírios "heideggero-derrideanos". Se há algo a fazer no futuro, é sublinhar a política - democrática, social-democrata, preocupada com o que há de prioritário na vida humana - que decorre da sua filosofia e separá-la daquela que foi praticada (ou imaginada) por alguns dos autores com que Rorty gostava de se associar.

Monday, June 11, 2007

Fórum Sociológico


Saiu mais um número duplo da revista Fórum Sociológico, o nº15/16 (do Institut de Estudos e Divulgação Sociológica da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), com um dossiê dedicado às "Realidades e Contextos Profissionais", organizado por José Resende e Luís Rodrigues. O índice pode ser encontrado aqui (e os números anteriores aqui).

Deste número dupla consta uma recensão minha, onde apresento e discuto o livro do sociólogo François Dubet, L'école des chances: Qu'est-ce qu'une école juste? (2004, Seuil, La république des idées).

Sunday, June 10, 2007

"La gauche doit sortir du pessimisme social"

Enquanto a UMP de Sarkozy se preparar hoje para obter mais uma verdadeira landslide eleitorial, a esquerda devia ler as reflexões do politólogo Zaki Laïdi numa entrevista de hoje no Le Monde. E, já agora, o livro que assina com outro politólogo, Gérard Grunberg, intitulado Sortir du pessimisme social : Essai sur l'identité de la gauche (Paris, Hachette, 2007).

10 de Junho


Discussão importante à esquerda

Aqui, na caixa de comentários deste post do Elísio Estanque.

Saturday, June 9, 2007

Seattle antes de Seattle


Seattle'91, para alguns, é mais marcante que Seattle'99, o simbólico ano dos protestos contra a Organização Mundial do Comércio. O motivo é simples e escreve-se com duas palavras: Pearl Jam, banda que dá um fantástico impulso ao movimento grunge - género cujas letras e música são feitas dessa explosiva mistura de revolta, dor e solidão - em 1991 com esse genial álbum que é "Ten". Houve um tempo, há cerca de 15 anos, que 'Alive', 'Jeremy' e 'Black' faziam parte do meu stapple musical quotidiano. Depois, aos poucos, fui perdendo o rasto à banda, não sem um amargo sabor a self-betrayal.
Hoje à noite os Pearl Jam actuaram em Lisboa no "Alive Festival", que decorre até domingo no Passeio Marítimo de Algés, naquela que foi, se não estou em erro, a sua 4ª presença em Portugal. Como nunca os tinha visto ao vivo, resolvi cometer uma pequena loucura: pagar 45 euros, atirar o trabalho que tinha que fazer para a longa madrugada, esperar várias horas em pé, aturar as macacadas dos inenarráveis Blasted Mechanism e dos barulhentos e insuportáveis Linkin Park antes de poder ouvir Eddie Vedder e companhia, pouco antes da meia-noite. O ataque de nostalgia não compensou o ataque de amnésia, nem o consequente ataque de inveja quando reparei que a maioria dos miúdos, ao contrário de mim, sabia todas as letras de cor.
Não faz mal. Paguei uma dívida que tinha para com a minha adolescência. E, felizmente, a letra de 'Black', essa música capaz lançar qualquer um na mais miserável espiral de demência, não havia esquecido:
Hey...oooh...
Sheets of empty canvas
Untouched sheets of clay
Were laid spread out before me
As her body once did
All five horizons
Revolved around her soul
As the earth to the sun
Now the air
I tasted and breathed
Has taken a turn
Ooh and all I taught her was everything
Ooh I know she gave me all that she wore
And now my bitter hands
Chafe beneath the clouds
Of what was everything
Oh the pictures have
All been washed in black
Tattooed everything
I take a walk outside
I'm surrounded by
Some kids at play
I can feel their laughter
So why do I sear
Oh, and twisted thoughts that spin
Round my head I'm spinning
Oh, I'm spinning
How quick the sun can, drop away...
And now my bitter hands
Cradle broken glass
Of what was everything
All the pictures had
All been washed in black
Tattooed everything
All the love gone bad
Turned my world to black
Tattooed all I see
All that I am
All I'll be
... Yeah Uh huh...uh huh...ooh...
I know someday you'll have a beautiful life
I know you'll be a star
In somebody else's sky
But why
Why
Why can't it be
Why can't it be mine
yeah yeah
we- we belong
we belong together together oooh ooh
we- we belong we belong together oh yeah

Friday, June 8, 2007

Coisas a não esquecer (III)

«[W]ages - I'm talking about real wages - can, in the long run, only be increased if improved methods of production and economic organization create the necessary conditions...To think that the influence of the unions exclusively can decide the wages is as wrong as when the rooster believes that the sun rises because his crowing. If the unions can arrange so that at every point in time, workers will receive what they are entitled to from prodution, then they have fulfilled every reasonble claim».

Palavras de Edvard Johnson, secretário-geral da LO (Landsorganisationen), a poderosa confederação sindical sueca, num congresso da mesma em 1926

Thursday, June 7, 2007

(Don't) Hang the DJ

Wednesday, June 6, 2007

Publicidade


Acabou de sair o número de Junho do Le Monde Diplomatique. A simpático convite do Miguel Chaves, que organiza o dossier "Educação, Emprego e Desigualdades Sociais", escrevi um pequeno texto sobre o problema gravíssimo do abandono escolar precoce nos níveis de ensino básico (em particular no terceiro ciclo) e secundário, intitulado "A insustentável invisibilidade do abandono escolar".
Creio que vai haver um debate lá mais para o fim do mês, espero que seja uma oportunidade para discutir estas coisas em público, o que é sempre mais interessante.


Tuesday, June 5, 2007

O todo e a parte da "facilidade em despedir"

Título da SIC Notícias on-line sobre a intenção do Governo querer "facilitar" os despedimentos por justa causa: Mais facilidade em despedir

Também podiam ter posto: Mais facilidade em contratar. Ou: Mais protecção fora do emprego. Ou: Mais aposta na formação. Isto é importante porque o está em causa - uma relativa aproximação ao dá pelo nome de "flexisegurança" - são mudanças múltiplas no desenho das instituições do mercado de trabalho. Ver as coisas apenas pelo prisma da maior facilidade dos despedimentos é bastante redutor e tendencioso - quanto mais não seja porque, convém não esquecer, Portugal é dos países da Europa com o mercado de trabalho mais regulado e onde os despedimentos são, por lei, mais complicados, em particular nos trabalhadores com contrato sem termo. Já o tinha referido aqui. Depois posso voltar ao assunto, que é sempre mais complicado do que parece, em particular a diferença entre a rigidez da lei e a relativa arbitrariedade na sua aplicação - o que mostra a fragilidade e ilusão de termos leis que contemplam uma forte protecção.

Recupero parte de um post que escrevi em Junho do ano passado no Véu da Ignorância, e que apresentava um gráfico que ajuda a perceber alguns dos dilemas inscritos no desenho de uma política de mercado laboral, em particular o trade off existente entre os a protecção social fora do emprego e a protecção laboral em alguns países na Europa: a maior protecção de um lado tende a variar inversamente com a protecção do outro. Nos países nórdicos opta-se por reforçar o apoio às pessoas no desemprego em detrimento de criação de dificuldades excessivas aos despedimento; nos países do Sul adopta-se a solução inversa. Convém lembrar que é nos países do Norte da Europa que taxas de desemprego são mais baixas e onde as fronteiras entre insiders (empregados) e outsiders (desempregados) são mais ténues.

*Gráfico retirado de um working paper da Columbia University, intitulado "Civic Attitudes and the Design of Labor Market Institutions: Which Countries can Implement the Danish Flexicurity Model?", da autoria dos economistas franceses Yann Algan e Pierre Cahuc.

Como cometer suicídio perante a opinião pública

Professores ameaçam entupir tribunais com contestação a concurso de titular.

Monday, June 4, 2007

Lançamento


À hora a que escrevo, está quase a começar o lançamento, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, do novo livro do Renato Carmo, De Aldeia a Subúrbio. Trinta anos de uma Comunidade Alentejana, publicado pela Imprensa de Ciências Sociais.

Não vou poder estar lá, mas queria deixar ao Renato - com quem tenho o hábito de discutir a sério, por vezes para além das regras da cordialidade, no Peão - um abraço de parabéns pela publicação do que é, pelo que ele me explicou, parte do seu trabalho de doutoramento.
Adenda: faltei ao lançamento, mas não ao jantar, claro! - com escolha a propósito, a Casa do Alentejo.

One laugh a day keeps the doctor away

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou ontem o Bloco de Esquerda de ter "uma deriva social-democrata", ao tomar uma posição idêntica à da UGT em relação à greve geral.

Sunday, June 3, 2007

É boa ideia, é verdade

António Costa quer estimular uso de bicicletas em Lisboa.

Lisboa não é uma cidade tão plana como Barcelona ou Paris ou Amsterdão ou Edimburgo - cidades onde já tive a oportunidade e sorte de andar de bicicleta -, mas não é preciso muito boa vontade para reconhecer, que em certas áreas da cidade, seria perfeitamente possível procurar implementar - ou aumentar - o uso das bicicletas. Não causaria nenhuma estrondosa revolução no volume do tráfego automóvel nem na qualidade no ar, mas ajudaria um pouco a melhorar a qualidade de vida. Já discuti, com os meus amigos do Peão, esta questão há uns meses, e foram feitas algumas propostas interessantes.

Mas mais importante do que isto é pensar o que fazer para resolver o complicado problema do trânsito. A ideia de uma portagem à entrada de Lisboa, um pouco à semelhança do que foi feito em Londres, seria uma hipótese, mas talvez seja uma penalização excessiva para quem vive fora do seu perímetro. Seja qual for a solução (ou soluções) adoptada(s), a melhoria na qualidade e quantidade nos transportes públicos é absolutamente obrigatória.

É importante perceber o que se passou em Londres (indepentemente do mérito da solução adoptada, conhecida como congestion charge), onde pessoas que estavam mais do que habituadas a usar o carro começaram a mudar, lentamente, os seus hábitos e chegaram, ao fim de algum tempo, à conclusão que não era assim tão difícil abandonar o transporte individual para passar a usar de forma regular os transportes públicos.

E seria também interessante explorar as oportunidades que o que Jeremy Rifkin chama Age of Access pode trazer para a melhoria da qualidade de vida individual e colectiva. Rifkin especula que estamos a entrar numa era em que a posse dos bens está a dar lugar ao seu aluguer: ou seja, não é tanto a propriedade que conta, mas a capacidade de acesso a bens e serviços que orienta(rá) o comportamento do consumidor e estimula(rá) o fornecimento de serviços pelas empresas. Num exemplo adequado ao problema em discussão, seria, assim, cada vez mais fácil, barato e atractivo alugar um carro num esquema flexível, eventualmente partilhando-o com outros, do que comprá-lo para uso individual (e/ou familiar); para isto, em inúmeros países e cidades já existem club-sharing cars.

Serviços deste tipo, feitos à medida dos interesses personalizados de cada um - e que estão absolutamente banalizados no aluguer de filmes, por exemplo, mas que se começam a ver no uso das bicicletas, em algumas cidades, pelo menos (como vi, por exemplo, em Lyon) -, podem servir não apenas para melhorar a qualidade de vida individual e colectiva em inúmeras áreas, mas também, quem sabe, para mudar as mentalidades, talvez no sentido de um "novo colectivismo" ou, pelo menos, de novas práticas cooperantes, talvez em detrimento do tal individualismo possessivo que, sendo em inúneras coisas individualmente racional, pode gerar tantas irracionalidades colectivas.

Saturday, June 2, 2007

Marcel Proust

«In reading, friendship is suddenly brought back to its original purity. There is no false amiability with books. If we spend the evening with these friends, it is because we genuinely want to».




Thursday, May 31, 2007

Coisas a não esquecer (II)

«It is possible for a dictator to govern in a liberal way. And it is possbile that a democracy governs with a total lack of liberalism. My personal preference is for a liberal dictator and not for a democratic government lacking in liberalism».

Friederich Von Hayek, em entrevista ao jornal chileno "El Mercurio", a 12 de Abril de 1981 (citado por Bowles e Gintis no livro referido no post anterior, p.11-12)

Coisas a não esquecer

«Though the architects of the welfare state had not stressed the point, economic stagnation and instability may occur not only because the capitalist class is 'too strong' but also because it is 'too weak'. When the capitalist class is 'too strong' it shifts the income in its favor, reducing the ratio of working-class consumption to national income and rendering the economy prone to a failure of total demand. By contrast, when the capitalist class is 'too weak' the working class or ther claimants on income squeeze the rate of profit and reduce the level of investment (perhaps by inducing to seek greener pastures elsewhere)».

Dos insuspeitos por 'simpatias capitalistas' Samuel Bowles and Herbert Gintis, em Democracy & Capitalism. Property, Community, and the Contradictions of Modern Social Thought, NY, Basic Books, 1986 (p.6).

Wednesday, May 30, 2007

Já não era sem tempo

Medicina dentária nos centros de saúde.

Dawn



Mais ali do que aqui

Nos últimos dias tenho estado mais no Peão, a partir dos desenvolvimentos que ligados a este post que escrevi sobre em resposta à intervenção inicial do Nuno Teles.

Hoje é dia de greve geral e depois devo escrever qualquer coisa sobre isto.

Entretanto quinta-feira é dia de Andrew Bird no São Jorge, espero que seja um grande concerto.
Fica um aperitivo, 'Measuring Cups', do álbum de 2005, "The Mysterious Production of Eggs".






Entretanto, passem pelo blogue do Ivan Nunes, chamado...Ex-Ivan Nunes. Just don't ask. Read.

Sunday, May 27, 2007

Yann Tiersen - La Terrasse



Do álbum Tout Est Calme (1999)






La Terrasse
Un après-midi là, dans la rue du Jourdain,
on peut dire qu'on était bien,
assis à la terrasse du café d'en face
on voyait notre appartement.

Je ne sais plus si nous nous étions tus ou
si nous parlions tout bas là au café d'en bas,
mais je revois très bien la table et tes mains,
le thé, le café et le sucre à côté.

Puis d'un coup c'est parti, tout s'est effondré,
on n'a pas bien compris, tout a continué,
tandis qu'entre nous s'en allait l'équilibre,
plus jamais tranquilles, nous tombions du fil.

Cet après-midi là, dans la rue du Jourdain,
en fait tout n'allait pas si bien,
assis à la terrasse du café d'en face
on voyait notre appartement,
si triste finalement avec nous dedans.