Control, filme sobre a curta e conturbada existência de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division, está longe de ser uma obra-prima. Há qualquer coisa de trivialmente anti-aurático neste tipo de filmes que contam a história banal daquele que, por detrás da pop star amada por milhões, não deixa de ser um homem banal (ainda por cima, baseados na narrativa de alguém que é tudo menos um personagem neutral - o argumento é construído a partir do livro da sua viúva, Deborah Curtis (representada por Samantha Norton)).
Ian Curtis era um rapaz nascido e educado num pequena cidade perto da Manchester, Macclesfield, terra «grey and miserable», nas suas palavras, que escrevia poemas enquanto adolescente, expressava a sua rebeldia fumando no quarto a ouvir David Bowie e, filho de classe média-baxia - provavelmente filho de um honroso mas pouco qualificado civil servant, a avaliar pela casa, roupas e ethos corporal do pai -, tinha que roubar comprimidos contra a esquizofrenia da casa de banho da casa das velhas do bairro para explorar o mundo das drogas, em vez do LSD e da erva a que os seus mais privilegiados colegas da grammar school teriam acesso. Saiu da escola, casou-se por volta dos 20 anos, e foi trabalhar para um centro de emprego - não deixa de ser cómico o vocalista do Joy Division, qual dedicado street bureaucrat , ajudar os clientes do Estado social a encontrar emprego (o filme é generoso nesse aspecto, porque entre 1976 e 19780 o desemprego explodiu no Reino Unido, e Ian age sempre como se tivesse milhões de empregos para ajudar quem lhe aparecesse pela frente). Um dia, em troca das 400 libras que pede à mulher para alugar um estúdio para gravar o primeiro disco da banda, pergunta se não ela queria ter um filho.
A troca, mesmo que Maussiana, saiu cara a Ian. A sua vida doméstica nunca deixou se ser cinzenta e miserável como Macclesfield, e o nascimento da sua filha tornou tudo pior. E a sua epilepsia, que nunca fez por controlar (sempre ignorou os conselhos médicos), ia-lhe progressivamente retirando o controlo sobre a sua vida - que perdeu por completo quando se envolveu com uma funcionária da embaixada belga em Londres, Annik Honorek (representada pela actriz Maria Alexandra Lara). A partir daqui, é o evoluir trivial de um triângulo amoroso e da correspondente espiral de culpa, isolamento, e self-commiseration.
Uma vez que não conseguiu acabar com o dito triângulo, este acabou por levá-lo a por fim à vida. A 18 de Maio de 1980, na véspera de partir com a banda para a primeira grande digressão pelos EUA, Ian enforca-se, em plena cozinha, com a corda do estendal, onde secava a sua roupa interior. Sem honra nem glamour, Ian Curtis matou-se aos 23 anos.
Ficam as músicas, cujo significado começamos a perceber quando vemos as imagens cinzenta e miserável Macclesfield amarrado a uma cinzenta e miserável vida conjugal. Esta combinação, pelo menos, ajuda bastante a compreender a letra de "Love Will Tear Us Apart".
When routine bites hard, and ambitions are low
And resentment rides high, but emotions won't grow
And we're changing our ways, taking different roads
Then love, love will tear us apart again
Why is the bedroom so cold? You've turned away on your side
Is my timing that flawed - our respect run so dry?
Yet there's still this appeal that we've kept through our lives
Love, love will tear us apart again
You cry out in your sleep - all my failings expose
There's a taste in my mouth, as desperation takes hold
Just that something so good just can't function no more
When love, love will tear us apart again.
Monday, November 19, 2007
Saturday, November 17, 2007
A improbabilidade da comunicação
"Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no facto de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente?"
Michel Foucault
A resposta é óbvia: a comunicação gera entropia. Quanto mais "comunicamos", maior a probabilidade de não nos entendermos, de sermos mal intepretados, de entrarmos no infinito círculo "não era bem isso que eu queria dizer".
Mas é esse o prazer da comunicação: jogar no espaço cinzento da indefinição ontológica do sentido, não apenas para o receptor, mas, e quiçá principalmente - algo tantas vezes esquecido ou subvalorizado -, para o emissor. «Às vezes compreendemos algo / entre a sombra e a sombra», escreve António Ramos Rosa. E muitas vezes a sombra é tanta que não compreendemos coisa nenhuma.
Os prazeres, claro, comportam riscos. Para quem escreve e para quem lê. Mas esse double bind faz parte das regras do jogo. Ou antes: é esse double bind que faz o jogo.
Por isso é que a blogosfera não devia ser tanto visto como um espaço de "comunicação" ou de "expressão". If anything, é um fantástico dispositivo de produção de entropia, uma máquina de fabricação de mal-entendidos. Mas só é enganado quem se deixa sê-lo.
Michel Foucault
A resposta é óbvia: a comunicação gera entropia. Quanto mais "comunicamos", maior a probabilidade de não nos entendermos, de sermos mal intepretados, de entrarmos no infinito círculo "não era bem isso que eu queria dizer".
Mas é esse o prazer da comunicação: jogar no espaço cinzento da indefinição ontológica do sentido, não apenas para o receptor, mas, e quiçá principalmente - algo tantas vezes esquecido ou subvalorizado -, para o emissor. «Às vezes compreendemos algo / entre a sombra e a sombra», escreve António Ramos Rosa. E muitas vezes a sombra é tanta que não compreendemos coisa nenhuma.
Os prazeres, claro, comportam riscos. Para quem escreve e para quem lê. Mas esse double bind faz parte das regras do jogo. Ou antes: é esse double bind que faz o jogo.
Por isso é que a blogosfera não devia ser tanto visto como um espaço de "comunicação" ou de "expressão". If anything, é um fantástico dispositivo de produção de entropia, uma máquina de fabricação de mal-entendidos. Mas só é enganado quem se deixa sê-lo.
Friday, November 16, 2007
Song
Don’t lie to me please
about anything big, about anything
else. I’d rather know what was destroyed
than have you lie
because that’s more destructive.
Don’t lie about love,
something you feel or something you’d
like to feel. I’d rather
be sad than have you lie
because that’s sadder.
Don’t lie about danger
because I know your fears
and if I don’t trust what I know
you’ll be a stranger
and that’s more dangerous.
Don’t lie to me about sickness,
I’d rather look into that pit
than lose myself in one
of your sweet placations
because I’d lose myself more.
Don’t lie to me about dying
because as long as we’re here
I find that blocked
unsharing of thoughts
worse and much more dead.
Judith Herzberg (1934-)
tradução de Shirley Kaufman e Judith Herzberg,
in But What: Selected Poems (Oberlin College Press, 1998)
about anything big, about anything
else. I’d rather know what was destroyed
than have you lie
because that’s more destructive.
Don’t lie about love,
something you feel or something you’d
like to feel. I’d rather
be sad than have you lie
because that’s sadder.
Don’t lie about danger
because I know your fears
and if I don’t trust what I know
you’ll be a stranger
and that’s more dangerous.
Don’t lie to me about sickness,
I’d rather look into that pit
than lose myself in one
of your sweet placations
because I’d lose myself more.
Don’t lie to me about dying
because as long as we’re here
I find that blocked
unsharing of thoughts
worse and much more dead.
Judith Herzberg (1934-)
tradução de Shirley Kaufman e Judith Herzberg,
in But What: Selected Poems (Oberlin College Press, 1998)
Wednesday, November 14, 2007
Tuesday, November 13, 2007
Diagnósticos para além das polémicas
«Southern European welfare states suffer from many of the same problems as the Continental family - especially in the labour market - but they also have their own specific traits. In Spain, Portugal and Greece and (to a lesser extent) Italy, the welfare state developed later than in northern Europe and has ad to cope with more difficult socio-economic enviroments. Social protection entered the age of permanent austerity on a state of institutional and financial underdevelopment and was beset by internal unbalances. The social transfer systems of these countries have peaks of generosity for certain occupational groups alongside large gaps of protection for certain others. Insiders and outsiders - both in the labour market and more general acess to benefits - are separated by a sharp divide in terms of guarantees and opportunities. The black economy is excessive, posing serious efficieny and equity problems. Public services are still unevenly distributed and, in some cases, insufficient and/or inefficient. These countries have thus been forced into shifting coverage, providing less generous benefits for insiders and - to the extent that budgetary constraints allow it - new benefits and services for the outsiders. The inherent difficulty of doing so is aggravated by a particularly adverse demography: southern European populations (especially those of Italy and Spain) are ageing at one of the fastest rates in the world». (e Portugal não fica muito atrás). (p.157)
Maurizio Ferrera, Anton Hemerijck e Martin Rhodes, "Recasting European welfare states", in Welfare Futures, editado por Stephen Liebfried (2001)
Uma proposta humilde
Já que se lembram de inventar mercados para tudo, até para a poluição, não há ninguém que pense em criar um mercado do sono? As pessoas que têm menos actividade (em sentido lato) e que não precisam de estar tanto tempo acordadas (e provavelmente até gostam bastante de dormir) podiam ceder - em troca de uma compensação monetária, claro está - alguma da energia aos que precisam dela e gostariam de dormir menos. Assim, eu vendia as horas que preciso de dormir - bom, pelo menos algumas - e comprava energia suficiente to carry on.
Podem rir-se. Quando daqui a muitas décadas a inovação tecnológica permitir semelhantes transferencias, vão ver que eu tinha razão. E o capitalismo terá transposto outra fronteira.
Podem rir-se. Quando daqui a muitas décadas a inovação tecnológica permitir semelhantes transferencias, vão ver que eu tinha razão. E o capitalismo terá transposto outra fronteira.
Monday, November 12, 2007
Blonde Redhead
Excelentes como cover band dos Interpol na quarta-feira passada, os nova-iorquinos Blonde Redhead, aqui com o single do último álbum com o mesmo nome: "23".
Jobless growth
Lido no "Público":
De acordo com as estimativas divulgadas pela Comissão Europeia na passada sexta-feira, a produtividade nacional - medida como o PIB por pessoa empregada - deverá crescer em 2007 a uma taxa de 1,5 por cento. Este resultado ultrapassa os 1,1 por cento esperados para a zona euro. É necessário recuar até 1999 para encontrar outro período em que a produtividade portuguesa tenha crescido mais rápido do que a dos seus parceiros da moeda única.A explicação para este brilharete não está, na sua maioria, na aceleração do produto em Portugal. O PIB português até volta este ano a crescer bastante menos que a média europeia. O que acontece é que Portugal está a conseguir produzir mais sem que os empregos cresçam ao mesmo ritmo. Isto significa, para além da manutenção de uma taxa de desemprego elevada, um ganho de produtividade de que beneficiam as empresas.
Isto quer dizer que algo de sério vai mal no mercado de trabalho, em particular no que diz respeito à protecção do emprego. Se determinados empregos são hiper-protegidos, quando vem a retoma, os empregadores preferem não contratar ninguém - e fazer os que ainda estão contratados trabalhar ainda mais, ou entao a "contratar" uma máquina. É por isso que o nosso mercado de trabalho nao pode continuar como está, porque assim não vai conseguir absorver desemprego em nenhuma escala decente - partindo do princípio que a retoma do crescimento está para ficar.
De acordo com as estimativas divulgadas pela Comissão Europeia na passada sexta-feira, a produtividade nacional - medida como o PIB por pessoa empregada - deverá crescer em 2007 a uma taxa de 1,5 por cento. Este resultado ultrapassa os 1,1 por cento esperados para a zona euro. É necessário recuar até 1999 para encontrar outro período em que a produtividade portuguesa tenha crescido mais rápido do que a dos seus parceiros da moeda única.A explicação para este brilharete não está, na sua maioria, na aceleração do produto em Portugal. O PIB português até volta este ano a crescer bastante menos que a média europeia. O que acontece é que Portugal está a conseguir produzir mais sem que os empregos cresçam ao mesmo ritmo. Isto significa, para além da manutenção de uma taxa de desemprego elevada, um ganho de produtividade de que beneficiam as empresas.
Isto quer dizer que algo de sério vai mal no mercado de trabalho, em particular no que diz respeito à protecção do emprego. Se determinados empregos são hiper-protegidos, quando vem a retoma, os empregadores preferem não contratar ninguém - e fazer os que ainda estão contratados trabalhar ainda mais, ou entao a "contratar" uma máquina. É por isso que o nosso mercado de trabalho nao pode continuar como está, porque assim não vai conseguir absorver desemprego em nenhuma escala decente - partindo do princípio que a retoma do crescimento está para ficar.
Thursday, November 8, 2007
Completely relaxed about people getting filthy rich
Tony Blair factura 341 000 € com algumas horas na China
O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebeu 500 mil dólares (341 mil euros) por uma curta deslocação de três horas a um condomínio de luxo na China, noticiou hoje a imprensa estatal chinesa.
Peter Mandelson disse uma vez, numa daquelas frases que traduzem bem o zeitgeist, que o New Labour estava «relaxed about people getting filthy rich». Ora pois.
O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebeu 500 mil dólares (341 mil euros) por uma curta deslocação de três horas a um condomínio de luxo na China, noticiou hoje a imprensa estatal chinesa.
Peter Mandelson disse uma vez, numa daquelas frases que traduzem bem o zeitgeist, que o New Labour estava «relaxed about people getting filthy rich». Ora pois.
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Depois da tragédia, a farsa
Venezuela
Chávez garante que "nada nem ninguém" travará o seu projecto de socialismo do século XXI
2007-11-08, 16h19
Caracas, 08 Nov (Lusa) - O presidente venezuelano, Hugo Chávez, garantiu hoje que "nada nem ninguém" o fará desviar do seu projecto de instaurar um regime de "socialismo do século XXI" no país, apesar da oposição à reforma constitucional
...que me faz lembrar uma história...
«Hegel remarks somewhere that all great world-historic facts and personages appear, so to speak, twice. He forgot to add: the first time as tragedy, the second time as farce.»
Karl Marx, The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte (1852)
Chávez garante que "nada nem ninguém" travará o seu projecto de socialismo do século XXI
2007-11-08, 16h19
Caracas, 08 Nov (Lusa) - O presidente venezuelano, Hugo Chávez, garantiu hoje que "nada nem ninguém" o fará desviar do seu projecto de instaurar um regime de "socialismo do século XXI" no país, apesar da oposição à reforma constitucional
...que me faz lembrar uma história...
«Hegel remarks somewhere that all great world-historic facts and personages appear, so to speak, twice. He forgot to add: the first time as tragedy, the second time as farce.»
Karl Marx, The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte (1852)
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Wednesday, November 7, 2007
Monday, November 5, 2007
Sunday, November 4, 2007
Friday, November 2, 2007
O aumento de Sarkozy
Parece que Sarkozy resolveu aumentar o seu salário em 140%: de 8400 euros/mês para 19330 euros/mês. O aumento é brutal, é verdade. De qualquer forma, 8400 era um valor ridículo, e 19330 coloca pelo menos a França na linha da norma europeia/internacional, pelo menos no que aos países mais ricos diz respeito (o primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern ganha 25830 euros/mês e é o mais bem pago; G.W.Bush ganha 23000, sensivelmente o mesmo que Angela Merkel; Gordon Brown recebe 22470; Romano Prodi aufere 16370, e Fredrik Reinfeldt , o primeiro-ministro sueco, 13700). Talvez o aumento de Sarkozy caia mal publicamente, ainda por cima em clima de elevada conflitualidade sindical, mas os cargos políticos devem ter salários condignos. Caso contrário, só se atraem os medíocres - e uma política feita por medíocres dificilmente deixa de ser uma política medíocre.
A mesmíssima mensagem vale para Portugal. Um ministro ganha pouco mais de 4000 euros. Um professor auxiliar numa universidade nao ganhará muito menos; e um quadro de topo numa empresa pode ganhar mais, muito mais. Quando assim é, para quê vir para a política e entregar-se a uma missão de serviço público, quando se ganha mal e isso traz imensas chatices, do jornalismo incompetente à oposição demagógica, entre outras irracionalidades inerentes à vida das organizções e instituições?
A mesmíssima mensagem vale para Portugal. Um ministro ganha pouco mais de 4000 euros. Um professor auxiliar numa universidade nao ganhará muito menos; e um quadro de topo numa empresa pode ganhar mais, muito mais. Quando assim é, para quê vir para a política e entregar-se a uma missão de serviço público, quando se ganha mal e isso traz imensas chatices, do jornalismo incompetente à oposição demagógica, entre outras irracionalidades inerentes à vida das organizções e instituições?
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A descoberta da pólvora
"Dias difíceis para escolas públicas que são factor de desigualdade", diz o editorial do José Manuel Fernandes.
Obrigado, "Público", porque o resto das pessoas - aquele que nunca entra nas escolas, como o dito director gosta de moralizar sempre que pode - ainda não sabia que as escolas são factor de desigualdade. Estamos gratos por semelhante notícia, porque ainda nunca ninguém da tinha chegado a essa conclusão.
Resta dizer que as regras do sector privado, que o "Público" secretamente elogia, aumentariam ainda mais essa desigualdade e levariam a selecção a níveis estratosféricos. Porque é que José Manuel Fernandes não escreve isso?
Já sei. Se calhar ainda o acusavam de também ter descoberto a pólvora. E só se descobrem coisas como a pólvora uma vez.
Obrigado, "Público", porque o resto das pessoas - aquele que nunca entra nas escolas, como o dito director gosta de moralizar sempre que pode - ainda não sabia que as escolas são factor de desigualdade. Estamos gratos por semelhante notícia, porque ainda nunca ninguém da tinha chegado a essa conclusão.
Resta dizer que as regras do sector privado, que o "Público" secretamente elogia, aumentariam ainda mais essa desigualdade e levariam a selecção a níveis estratosféricos. Porque é que José Manuel Fernandes não escreve isso?
Já sei. Se calhar ainda o acusavam de também ter descoberto a pólvora. E só se descobrem coisas como a pólvora uma vez.
Wednesday, October 31, 2007
The Organ - Steven Smith
Estes não actuam em Lisboa - não para já. O primeiro álbum dos "The Organ", intitulado 'Grab That Gun', está cheio de óptimas faixas, e eu irei colocar algumas aqui ao longo dos próximos dias. À espera que alguém os tragam para tocar em Portugal.
Tuesday, October 30, 2007
A exigência e a interpretação das estatísticas segundo o "Público"
O "Público" é um jornal muito exigente. Já sabíamos. Muito exigente para consigo e para com os outros. Assim, quando o Ministério da Educação anuncia que «a taxa de insucesso escolar caiu de 32 por cento para 25 por cento, em dois anos» no ensino secundário, o que corresponde ao número mais baixo alguma vez registado em Portugal, o "Público" escreve no título "Insucesso escolar em Portugal baixa sete pontos percentuais mas ainda é de 25 por cento". Ainda! Portanto o que é merece efectivo relevo na notícia nao é o ganho obtido, mas o facto de ainda estarmos atrás dos outros países europeus (que é, como sabemos, uma grande novidade, e é por isso que merece tamanho relevo). Caramba, devia baixado aí para 15% logo, ou valor semelhante. Isso sim, seria uma convergência imediata com as taxas europeias. É o que se chama exigência.
Esta salutar atitude de exigência já havia ficado demonstrada na semana passada, onde - infelizmente não consigo recuperar a notícia no site do "Público" -, em reacção aos resultados de um dos relatórios apresentados na conferência organiz
ada nos passados dias 22 e 23 de Outubro sobre o Plano Nacional de Leitura e que demonstravam que, por comparação com a mesma pergunta que constava num inquérito realizado em 1997, os não-leitores em Portugal (isto é, os que não lêem nenhum tipo de suporte - jornal, revista ou livro), tinham descido de 12% para 5%. O título da notícia (a tal que não consigo encontrar) era qualquer coisa do género: "em 10 anos, os não-leitores apenas desceram 7%".
Bom, se calhar convinha lembrar que ainda existem em Portugal pessoas que não sabem ler. Segundo os dados do INE de 2001, eram 9% os anafabetos no nosso país. Assumindo que algumas destas pessoas, seguramente de idade avançada, podem entretanto ter morrido, teremos de certeza, ainda hoje, mais de 5% da população portuguesa que não sabe ler. Assumamos, por agora, que são 5% - é um número que atiro ao ar, mas é uma estimativa conservadora: o valor bem pode ser superior. Ora, os esforços nos últimos 10 anos dos diferentes governos para levar as pessoas a ler não terão grande efeito sobre aqueles que não sabem ler de todo; se há hoje 5% de anafabetos ainda vivos, e se 5% - de acordo com o mencionado inquérito - são "não-leitores", parece-me simples concluir que é um pouco difícil baixar mais o número de não-leitores; é mesmo impossível que a queda entre 1997 e 2007 seja superior ao "míseros" 7% sublinhados pelo "Público". Provavelmente, foi atingido o tecto da população com capacidades de leitura em Portugal; "só" houve uma queda de 7% porque provavelmente não havia possibilidade de cair mais (fica, naturalmente, em aberto o número de analfabetos em Fevereiro de 2007, altura em que se realizou o inquérito, creio, mas, repito, 5% é um estimativa que muito favorece o "Público" neste caso)!
Mas isto deve ter escapado à exigência e ao rigor do jornal de José Manuel Fernandes. Para ressaltar os nossos endémicos atrasos - por muito que se esteja a trabalhar gradualmente, e com sucesso relativo, para os ultrapassar a médio prazo -, para isso, o jornal está sempre pronto. Se o dono do jornal, Belmiro de Azevedo, ainda tivesse interesses neste constante ataque à escola pública do género a que o "Público" nos habituou, bem como na extensão da rede de oferta privada em progressiva substituição da pública; isto é, se a SONAE tivesse a ambição de se substituir ao Ministério da Educação como maior entidade empregadora de professores, eu até desconfiava de que aqui havia gato. Mas, felizmente, e como acredito pouco em conspirações, devo estar enganado.
Esta salutar atitude de exigência já havia ficado demonstrada na semana passada, onde - infelizmente não consigo recuperar a notícia no site do "Público" -, em reacção aos resultados de um dos relatórios apresentados na conferência organiz
ada nos passados dias 22 e 23 de Outubro sobre o Plano Nacional de Leitura e que demonstravam que, por comparação com a mesma pergunta que constava num inquérito realizado em 1997, os não-leitores em Portugal (isto é, os que não lêem nenhum tipo de suporte - jornal, revista ou livro), tinham descido de 12% para 5%. O título da notícia (a tal que não consigo encontrar) era qualquer coisa do género: "em 10 anos, os não-leitores apenas desceram 7%".Bom, se calhar convinha lembrar que ainda existem em Portugal pessoas que não sabem ler. Segundo os dados do INE de 2001, eram 9% os anafabetos no nosso país. Assumindo que algumas destas pessoas, seguramente de idade avançada, podem entretanto ter morrido, teremos de certeza, ainda hoje, mais de 5% da população portuguesa que não sabe ler. Assumamos, por agora, que são 5% - é um número que atiro ao ar, mas é uma estimativa conservadora: o valor bem pode ser superior. Ora, os esforços nos últimos 10 anos dos diferentes governos para levar as pessoas a ler não terão grande efeito sobre aqueles que não sabem ler de todo; se há hoje 5% de anafabetos ainda vivos, e se 5% - de acordo com o mencionado inquérito - são "não-leitores", parece-me simples concluir que é um pouco difícil baixar mais o número de não-leitores; é mesmo impossível que a queda entre 1997 e 2007 seja superior ao "míseros" 7% sublinhados pelo "Público". Provavelmente, foi atingido o tecto da população com capacidades de leitura em Portugal; "só" houve uma queda de 7% porque provavelmente não havia possibilidade de cair mais (fica, naturalmente, em aberto o número de analfabetos em Fevereiro de 2007, altura em que se realizou o inquérito, creio, mas, repito, 5% é um estimativa que muito favorece o "Público" neste caso)!
Mas isto deve ter escapado à exigência e ao rigor do jornal de José Manuel Fernandes. Para ressaltar os nossos endémicos atrasos - por muito que se esteja a trabalhar gradualmente, e com sucesso relativo, para os ultrapassar a médio prazo -, para isso, o jornal está sempre pronto. Se o dono do jornal, Belmiro de Azevedo, ainda tivesse interesses neste constante ataque à escola pública do género a que o "Público" nos habituou, bem como na extensão da rede de oferta privada em progressiva substituição da pública; isto é, se a SONAE tivesse a ambição de se substituir ao Ministério da Educação como maior entidade empregadora de professores, eu até desconfiava de que aqui havia gato. Mas, felizmente, e como acredito pouco em conspirações, devo estar enganado.
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Uma certa ideia de justiça e de igualdade na educação
«Pour l'école de base, il nous semble devoir réclamer la justice corrective. Usant de dispositifs de discrimination positive et traquant tous les mécanismes par lesquels s'opère le renforcement des inégalités de départ - qu'elles soient d'origine naturelle, sociale ou scolaire - l'école de base, prolongée jusqu'à 15 ans, devrait se donner pour idéal l'égalité des acquis fondamentaux. Le redoublement d'une anné ne devrait être toleré que dans de cas très exceptionnels. Les compétences essentielles étant définies, les enseignants seraient tenus d'en faire acquérir la maîtrise par tous les élèves. Cela ne les dispenserait pas de susciter le développement d'autres compétences qui ne figuraient pas dans la liste des socles».
Marcel Grahay, Une École de Qualité Pour Tous!, Bruxelles, Editions Labor (p.22)
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Interpol - The Pace is the Trick
Non-stop: depois de Rufus, no dia 6, os Interpol tocam no Coliseu no dia 7 de Novembro, no regresso a Lisboa depois do 'Super Bock Super Rock' de Julho.
Algumas considerações politicamente incorrectas sobre o "facilitismo" em educação
É muito interessante ler e ouvir o que por aí se escreve e diz em torno da revisão do estatuto do aluno e dos resultados hoje anunciados do ensino secundário. Mas o verdadeiramente extraordinário é a ideologia que leva as pessoas a pensarem que retenção = sinal de rigor, e fazer tudo para manter os alunos integrados na instituição escolar (que implica de facto mais, e não menos trabalho por parte das escolas) = facilitismo.
Mas apetece perguntar: facilitismo para quem? Nas actuais condições, só se fosse facilitismo para o professor, que assim pode sancionar legalmente as dificuldades reveladas por um aluno em vez de o procurar "agarrar", ir "atrás" dele, dar tudo para que este as supere e, se este não aprende de uma forma à primeira, possa aprender de outra à segunda, e aí por diante. Isto, sim, é o contrário do facilitismo. Facilitismo é continuar a manter escancarada a porta do chumbo, a opção exit sem quaisquer problemas acrescidos para quem avalia (a opção exit é como a opção de despedimento fácil e imediato nas empresas sem qualquer problema para quem a decide, ou seja, o patronato; a esquerda acha isto péssimo – eu também -, mas acha que os professores devem poder punir os alunos com a guia de marcha da “retenção” sem qualquer problema, despedindo-os daquela turma/ano. Muito curioso, mas nada de empiricamente extraordinário: como François Dubet gosta de dizer, a classe de professores é tão socialmente progressista como profissionalmente conservadora). Hoje, as tão atacadas ciências da educação - e tantas vezes sem sentido, fruto de tanta ignorância -, mas também a sociologia ou psicologia - outras ciências 'obscuras' para algumas elites - estão fartas de mostrar que a repetição não beneficia o aluno em nada. Em nada. Não são raros os casos em que ele revela saber menos no ano seguinte a ter chumbado do que no ano anterior, mas regularmente não sabe mais. Perdeu um ano, e não ganhou absolutamente nada: a consequência negativa é que ficou para trás com o estigma pessoal e social de que a escola (professores e colegas, tantas vezes nestas fonte de profundo reconhecimento e afirmação identitária) o olha como caso de fracasso. De fracasso em fracasso, claro: sabemos que quanto mais cedo um aluno chumba, maiores são as probabilidades de ele voltar a chumbar, até, pura e simplesmente, se cansar. Até que um dia sai da escola. Ponto final. É isto o "rigor"? Então Portugal, por este critério, é um país extremamente rigoroso. Voilà. Estamos no topo da UE. A nossa escola é tão boa, tão boa, chumba tantos e a um ritmo tão veloz, que deve ser de uma qualidade acima da média.
Quem decide o chumbo não vê a sua vida muito alterada - quando muito, vê-a facilitada, porque passa a ter menos alunos com dificuldades na mesma sala. Que tentação será, não é? Em vez de "puxar" pelo aluno, de o tentar "agarrar", de fazer tudo o que está ao alcance da escola - repito, da escola como colectivo, como instituição socializadora, não como soma de elementos atomizados minding their own business - para o recuperar, para o fazer melhorar (os verdadeiros rankings, os do futuro, vão, espero, poder medir o que se chama "valor acrescentado" que a escola traz ao aluno, independentemente do seu nível de partida - aí veremos se as escolas públicas ficam atrás das privadas), porque não simplesmente deixá-lo estar? Porque não, no limite, deixá-lo reprovar por faltas?
Comparemos agora o que se passa no caso de um médico. Ao contrário do professor, não há aqui escapatória, não há estratégia de exit, não há “retenção” que lhe resolva o problema: ele simplesmente não pode dizer “não” a um doente (idealmente, eu sei - e sobretudo isto só é possível no sector público, porque no privado também se constróem belos rankings 'chutando' os casos complicados para o público). Um médico que revelasse não ter feito tudo o que está ao seu alcance para salvar a vida do doente teria cometido uma grave falha ética e profissional (claro, sabemos que o Sindicato, perdão, a Ordem dos Médicos bem os protege de qualquer ataque à sua "autonomia", pelo que o mundo estará seguramente cheio de erros médicos por sancionar...); porque é que aceitamos que um professor que não faça tudo o que está ao seu alcance para salvar um aluno? Podemos dizer, claro, que um médico salva vidas e um professor não intervém em nenhuma área tão crítica como a clínica. Fair enough. Mas apenas até um certo ponto, se virmos a vida apenas definida de uma perspectiva clínica; porque se adoptarmos uma perspectiva biográfico-profissional, o acto de um professor no sentido de determinar uma repetência pode condicionar ou determinar, em larga medida, o futuro escolar e social de um aluno. Por exemplo, um aluno que chumba no 2º ano do 1ºciclo dificilmente termina o 3º ciclo. Uma decisão nesse momento de o fazer repetir o ano em vez de o fazer passar e investir nele todos os cuidados no ano seguinte para o recuperar para o nível desejado pode ser determinante para a sua vida futura. Aqui pode residir a diferença entre um previsível trajectória de insucesso - e se era previsível ou esperada, então porque não agimos imediatamente sobre ela em vez de esperar que ela aconteça?! - e uma trajectória difícil de luta contra as probabilidades, feita de trabalho e de pequenos sucessos, em direcção um futuro profissional mais decente, construída pelo aluno e pelo(s) professores e escola(s). Não preciso romancear a segunda situação. A diferença de estratégias é claríssima. É entre deixar as disposições inscritas na história das pessoas e das instituições actuarem, ou significa intervirmos sobre essas disposições, e corrigir os seus efeitos perversos e as suas consequências que impendem, lamento recordar, sobre os alunos, e não sobre os professores. As trajectórias escolares, sociais, e biográficas, são path-dependent, ou seja, dependem do percurso tomado no passado, e sobretudo de decisões tomadas em momentos-chave - como bifurcações - que podem fazer a diferença num futuro mais ou menos distante. «Se eu tivesse feito isto ou aquilo...» não é matéria da telenovela nas 9 da noite, é o húmus de todas as frustrações individuais pós-adolescência (e por aí em diante). Não me digam que os professores, como formadores de seres humanos e com o poder institucional que têm ao seu dispor, não têm responsabilidades nesta matéria. Então que a saibam usar.
Aqueles que falam de facilitismo, respondam-me por favor: qual delas é mais fácil, a que literalmente dá menos trabalho? O reprovar por mil e um motivos (o aluno é "isto" ou "aquilo", os pais "não sei que mais", a "turma também não ajuda", etc.) ou fazer o possível, o que está ao alcance da escola para o salvar? A retenção raramente é sinónimo de rigor. A retenção é, essa sim, na maior parte das vezes, sinónimo de facilitismo, sem quaisquer consequências para quem a decide, e com consequências potencialmente negativíssimas para quem recebe a decisão. E esta assimetria pode ser incrivelmente perversa.
Se as pessoas percebessem que as políticas actuais pretendem acabar com este tipo de facilitismo perverso que serve todos menos os alunos, talvez dessem menos ouvidos às desonestidades intelectuais de Paulo Portas e co.. Agora, eu percebo porque é que os professores podem ficar zangados: isto obriga-os a trabalhar mais e ter mais responsabilidades. Porém, isto levanta duas questões. Primeiro, se os professores terão de trabalhar mais - e com eles os estudantes que serão assim "agarrados" e verão como menos óbvia/atractiva a estratégia do abandono -, por que motivo está tudo a falar de maior "facilitismo"? Segundo, e ao contrário do se diz por aí, o maior trabalho e a maior responsabilização são os meios para a credibilização presente e futura da profissão docente. É quando a sociedade olha para os professores como profissionais que dão tudo de si para salvar os alunos que sem a sua ajuda teriam percursos educativos de insucesso constante que ela começará a valorizá-los e atribuir-lhes um reconhecimento que não cai do céu (como não cai a nenhum profissional só por "ser" algo: é preciso justificá-lo; um médico não é respeitado por ser médico; é respeitado por ser bom médico; idem para um juiz, um arquitecto, um engenheiro, etc.), mas deve ser conquistado activamente e actualizado de forma constante (o tempo do professor e do médico venerado pela comunidade pertence ao imaginário do início rural do século XX - com a infelicidade, é verdade, dessa ter sido a nossa realidade até há bem pouco mais de um terço de século).
Deve ser para situações como esta em que as pessoas precisam de mudar completamente o seu olhar sobre um problema que a expressão "revolução copernicana" se aplica. O nosso país está cheio de pretensos "revolucionários", há por aí algum copernicano?
Mas apetece perguntar: facilitismo para quem? Nas actuais condições, só se fosse facilitismo para o professor, que assim pode sancionar legalmente as dificuldades reveladas por um aluno em vez de o procurar "agarrar", ir "atrás" dele, dar tudo para que este as supere e, se este não aprende de uma forma à primeira, possa aprender de outra à segunda, e aí por diante. Isto, sim, é o contrário do facilitismo. Facilitismo é continuar a manter escancarada a porta do chumbo, a opção exit sem quaisquer problemas acrescidos para quem avalia (a opção exit é como a opção de despedimento fácil e imediato nas empresas sem qualquer problema para quem a decide, ou seja, o patronato; a esquerda acha isto péssimo – eu também -, mas acha que os professores devem poder punir os alunos com a guia de marcha da “retenção” sem qualquer problema, despedindo-os daquela turma/ano. Muito curioso, mas nada de empiricamente extraordinário: como François Dubet gosta de dizer, a classe de professores é tão socialmente progressista como profissionalmente conservadora). Hoje, as tão atacadas ciências da educação - e tantas vezes sem sentido, fruto de tanta ignorância -, mas também a sociologia ou psicologia - outras ciências 'obscuras' para algumas elites - estão fartas de mostrar que a repetição não beneficia o aluno em nada. Em nada. Não são raros os casos em que ele revela saber menos no ano seguinte a ter chumbado do que no ano anterior, mas regularmente não sabe mais. Perdeu um ano, e não ganhou absolutamente nada: a consequência negativa é que ficou para trás com o estigma pessoal e social de que a escola (professores e colegas, tantas vezes nestas fonte de profundo reconhecimento e afirmação identitária) o olha como caso de fracasso. De fracasso em fracasso, claro: sabemos que quanto mais cedo um aluno chumba, maiores são as probabilidades de ele voltar a chumbar, até, pura e simplesmente, se cansar. Até que um dia sai da escola. Ponto final. É isto o "rigor"? Então Portugal, por este critério, é um país extremamente rigoroso. Voilà. Estamos no topo da UE. A nossa escola é tão boa, tão boa, chumba tantos e a um ritmo tão veloz, que deve ser de uma qualidade acima da média.
Quem decide o chumbo não vê a sua vida muito alterada - quando muito, vê-a facilitada, porque passa a ter menos alunos com dificuldades na mesma sala. Que tentação será, não é? Em vez de "puxar" pelo aluno, de o tentar "agarrar", de fazer tudo o que está ao alcance da escola - repito, da escola como colectivo, como instituição socializadora, não como soma de elementos atomizados minding their own business - para o recuperar, para o fazer melhorar (os verdadeiros rankings, os do futuro, vão, espero, poder medir o que se chama "valor acrescentado" que a escola traz ao aluno, independentemente do seu nível de partida - aí veremos se as escolas públicas ficam atrás das privadas), porque não simplesmente deixá-lo estar? Porque não, no limite, deixá-lo reprovar por faltas?
Comparemos agora o que se passa no caso de um médico. Ao contrário do professor, não há aqui escapatória, não há estratégia de exit, não há “retenção” que lhe resolva o problema: ele simplesmente não pode dizer “não” a um doente (idealmente, eu sei - e sobretudo isto só é possível no sector público, porque no privado também se constróem belos rankings 'chutando' os casos complicados para o público). Um médico que revelasse não ter feito tudo o que está ao seu alcance para salvar a vida do doente teria cometido uma grave falha ética e profissional (claro, sabemos que o Sindicato, perdão, a Ordem dos Médicos bem os protege de qualquer ataque à sua "autonomia", pelo que o mundo estará seguramente cheio de erros médicos por sancionar...); porque é que aceitamos que um professor que não faça tudo o que está ao seu alcance para salvar um aluno? Podemos dizer, claro, que um médico salva vidas e um professor não intervém em nenhuma área tão crítica como a clínica. Fair enough. Mas apenas até um certo ponto, se virmos a vida apenas definida de uma perspectiva clínica; porque se adoptarmos uma perspectiva biográfico-profissional, o acto de um professor no sentido de determinar uma repetência pode condicionar ou determinar, em larga medida, o futuro escolar e social de um aluno. Por exemplo, um aluno que chumba no 2º ano do 1ºciclo dificilmente termina o 3º ciclo. Uma decisão nesse momento de o fazer repetir o ano em vez de o fazer passar e investir nele todos os cuidados no ano seguinte para o recuperar para o nível desejado pode ser determinante para a sua vida futura. Aqui pode residir a diferença entre um previsível trajectória de insucesso - e se era previsível ou esperada, então porque não agimos imediatamente sobre ela em vez de esperar que ela aconteça?! - e uma trajectória difícil de luta contra as probabilidades, feita de trabalho e de pequenos sucessos, em direcção um futuro profissional mais decente, construída pelo aluno e pelo(s) professores e escola(s). Não preciso romancear a segunda situação. A diferença de estratégias é claríssima. É entre deixar as disposições inscritas na história das pessoas e das instituições actuarem, ou significa intervirmos sobre essas disposições, e corrigir os seus efeitos perversos e as suas consequências que impendem, lamento recordar, sobre os alunos, e não sobre os professores. As trajectórias escolares, sociais, e biográficas, são path-dependent, ou seja, dependem do percurso tomado no passado, e sobretudo de decisões tomadas em momentos-chave - como bifurcações - que podem fazer a diferença num futuro mais ou menos distante. «Se eu tivesse feito isto ou aquilo...» não é matéria da telenovela nas 9 da noite, é o húmus de todas as frustrações individuais pós-adolescência (e por aí em diante). Não me digam que os professores, como formadores de seres humanos e com o poder institucional que têm ao seu dispor, não têm responsabilidades nesta matéria. Então que a saibam usar.
Aqueles que falam de facilitismo, respondam-me por favor: qual delas é mais fácil, a que literalmente dá menos trabalho? O reprovar por mil e um motivos (o aluno é "isto" ou "aquilo", os pais "não sei que mais", a "turma também não ajuda", etc.) ou fazer o possível, o que está ao alcance da escola para o salvar? A retenção raramente é sinónimo de rigor. A retenção é, essa sim, na maior parte das vezes, sinónimo de facilitismo, sem quaisquer consequências para quem a decide, e com consequências potencialmente negativíssimas para quem recebe a decisão. E esta assimetria pode ser incrivelmente perversa.
Se as pessoas percebessem que as políticas actuais pretendem acabar com este tipo de facilitismo perverso que serve todos menos os alunos, talvez dessem menos ouvidos às desonestidades intelectuais de Paulo Portas e co.. Agora, eu percebo porque é que os professores podem ficar zangados: isto obriga-os a trabalhar mais e ter mais responsabilidades. Porém, isto levanta duas questões. Primeiro, se os professores terão de trabalhar mais - e com eles os estudantes que serão assim "agarrados" e verão como menos óbvia/atractiva a estratégia do abandono -, por que motivo está tudo a falar de maior "facilitismo"? Segundo, e ao contrário do se diz por aí, o maior trabalho e a maior responsabilização são os meios para a credibilização presente e futura da profissão docente. É quando a sociedade olha para os professores como profissionais que dão tudo de si para salvar os alunos que sem a sua ajuda teriam percursos educativos de insucesso constante que ela começará a valorizá-los e atribuir-lhes um reconhecimento que não cai do céu (como não cai a nenhum profissional só por "ser" algo: é preciso justificá-lo; um médico não é respeitado por ser médico; é respeitado por ser bom médico; idem para um juiz, um arquitecto, um engenheiro, etc.), mas deve ser conquistado activamente e actualizado de forma constante (o tempo do professor e do médico venerado pela comunidade pertence ao imaginário do início rural do século XX - com a infelicidade, é verdade, dessa ter sido a nossa realidade até há bem pouco mais de um terço de século).
Deve ser para situações como esta em que as pessoas precisam de mudar completamente o seu olhar sobre um problema que a expressão "revolução copernicana" se aplica. O nosso país está cheio de pretensos "revolucionários", há por aí algum copernicano?
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So what?
Anda toda a gente excitada com a questão do referendo ao Tratado. Há? Não há? Devia haver? Até parece que reside aqui uma grande questão política, de facto.
Não há ninguém que faça por aí uma sondagem? Aposto que o "Sim" ganhava de forma absolutamente esmagadora, do género 70% ou mais, até bastante mais. Entre as elites políticas, ficavam todos mais satisfeitos ou convencidos?
Não há ninguém que faça por aí uma sondagem? Aposto que o "Sim" ganhava de forma absolutamente esmagadora, do género 70% ou mais, até bastante mais. Entre as elites políticas, ficavam todos mais satisfeitos ou convencidos?
Monday, October 29, 2007
Rufus Wainwright - Going to a Town
Dia 6 de Novembro, no Coliseu dos Recreiros. Imperdível.
Going to a Town
I'm going to a town that has already been burnt down
I'm going to a place that has already been disgraced
I'm gonna see some folks who have already been let down
I'm so tired of America
I'm gonna make it up for all of The Sunday Times
I'm gonna make it up for all of the nursery rhymes
They never really seem to want to tell the truth
I'm so tired of you, America
Making my own way home, ain't gonna be alone
I've got a life to lead, America
I've got a life to lead
Tell me, do you really think you go to hell for having loved?
Tell me, enough of thinking everything that you've done is good
I really need to know, after soaking the body of Jesus Christ in blood
I'm so tired of America
I really need to know
I may just never see you again, or might as well
You took advantage of a world that loved you well
I'm going to a town that has already been burnt down
I'm so tired of you, America
Making my own way home, ain't gonna be alone
I've got a life to lead, America
I've got a life to lead
I got a soul to feed
I got a dream to heed
And that's all I need
Making my own way home, ain't gonna be alone
I'm going to a town
That has already been burnt down.
Novas oportunidades
Quem deixou escapar "O Escafandro e a Borboleta" no Ciclo de Cinema Francês (eu nao deixei), tem agora oportunidade de ver no circuito comercial.
Quem deixou escapar no DocLisboa o "Sicko" de Michael Moore (eu deixei), tem também agora a possibilidade de o ver numa sala perto de si.
Quem deixou escapar no DocLisboa o "Sicko" de Michael Moore (eu deixei), tem também agora a possibilidade de o ver numa sala perto de si.
Agent provocateur
«Education is the inculcation of the incomprehensible into the indifferent by the incompetent».
John Maynard Keynes
John Maynard Keynes
Sunday, October 28, 2007
O motivo pelo qual este blog está feito um vegetal:
Wednesday, October 3, 2007
Tuesday, October 2, 2007
Aquisição de livros
«Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar também o tempo para lê-los, mas na maioria das vezes troca-se a compra dos livros pela aquisição do seu conteúdo»
Arthur Schopenhauer
Arthur Schopenhauer
Monday, October 1, 2007
Friday, September 28, 2007
Presente envenenado?
Ontem: Hoje:
Vamos ver como é que DSK, esse "socialista da emancipação", se porta à frente do FMI...Descontando a ironia, já fico contente por DSK não estar em Paris para boicotar a estretégia futura de Ségolène à frente do Partido Socialista Francês.
Beirut de volta
Os Beirut preparam-se para lançar oficialmente o seu novo álbum, "The Flying Club Cup", que será apresentado dia 9 de Outubro. É o regresso do folk cigano de uma banda que constituiu, com "Gulag Orkestar", uma das grandes supresas de 2006. Em cima, a faixa "The Penalty".
Entretanto, ficam na lista de músicas aqui em baixo as faixas do "Gulag Orkestar".
Thursday, September 27, 2007
Résumé
«Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.»
Dorothy Parker (1893 - 1967)
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.»
Dorothy Parker (1893 - 1967)
Wednesday, September 26, 2007
A importância do ensino profissional explicado aos "Velhos do Restelo"
Tenho andado com muito pouco tempo e disponibilidade para escrever, mas às vezes a energia suplementar que engana a escassez do tempo vem das pequenas irritações quotidianas. Se tropeçarmos nos cronistas do costume, é difícil evitá-las. O texto que comecei a escrever acabou por ficar longo, mas as coisas importantes têm de ser bem explicadas.
Ontem Santana Castilho continuou no "Público" a sua saga contra o Ministério da Educação em fascículos (mas será que ele já escreveu sobre mais alguma coisa?). Sobre o programa "Prós e Contras" realizado no passado dia 17 de Setembro na RTP1, o cronista escreve:
«Os cursos técnico-profissionais ocuparam boa parte da discussão. Joaquim Azevedo pôs o dedo na ferida quando os considerou pouco profissionalizantes e menos técnicos e quando alertou para o perigo de não passarem de mero expediente para mascar o insucesso escolar. Que belo trabalho jornalístico poderia ter sido feito, como abertura documental do debate: uma reportagem sobre as instalações e os recursos técnicos das escolas onde são ministrados, os equipamentos e os meios e materiais de ensino postos ao serviço dessa mistificação monumental da propaganda do Governo. Daqui a uns anos, veremos quantos meninos destes cursos arranjaram emprego. Provavelmente tantos quantos os adultos que mudaram de função ou saíram do desemprego depois de terem sido formados no âmbito das Novas Oportunidades.»
A aposta no ensino profissional tem sido uma das bandeiras deste Governo, que tem procurado não apenas alargar a oferta dos cursos no final do ensino básico e no ensino secundário – respondendo a uma procura por parte dos alunos e incentivando-os a ficar na escola, ou, o que vai dar ao mesmo, procurando evitar que eles abandonem a escola sem uma qualificação -, mas sobretudo trazer os cursos profissionais para o interior das escolas secundárias públicas, quando eles, desde a sua criação em 1988-1989, tinham ficado acantonados nas escolas privadas, mas financiados pelo Estado. Na mesa dos participantes do programa estava Joaquim Azevedo, doutorado em Ciências da Educação, actualmente Presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica, ex-Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário em 1992, e Coordenador do recente Debate Nacional de Educação, entre outras coisas (consultar http://www.joaquimazevedo.com/). Joaquim Azevedo é provavelmente a pessoa que mais pensou e escreveu sobre ensino profissional em Portugal, e tem sido um defensor do mesmo, apesar de crítico da forma como o Estado tem tutelado o raio de acção deste tipo de ensino nas escolas profissionais, limitando a sua oferta. Joaquim Azevedo é um defensor do aumento da oferta, mas sempre no sector privado. A título de exemplo, consulte-se o texto que assinou com Joaquim Goes para o famigerado "Compromisso Portugal" na área de educação (que pode ser encontrado aqui em powerpoint), onde a dada altura se lê que devia ser feita a «[p]romoção de forma sistemática e proactiva do reforço da oferta do ensino profissional de cariz não estatal, de maneira a que o número de vagas se aproxime rapidamente da procura latente não satisfeita».
As dúvidas de Joaquim Azevedo são legítimas (explico à frente porquê), mas Santana Castilho, com seu estilo “caceteiro”, mostra que não percebe o objectivo da aposta no ensino profissional.
Em primeiro lugar, é muito importante perceber que o objectivo primeiro de um sistema de ensino profissional não é garantir um emprego imediato, mas sim contribuir para que os jovens cumpram a escolaridade obrigatória - ou seja, o 9º ano - e, se possível, o 12º.
Em segundo lugar, pretende-se melhorar a qualificação da população jovem, na linha de uma política nacional de qualificação e de upgrade do stock colectivo de competências. É que se objectivo fosse combater o desemprego a curto prazo, a melhor alternativa seria deixar os "putos" fora da escola - eles lá acabariam por conseguir os biscates do costume. Ou então, numa linha mais intervencionista (e mais cara), subsidiar esta mão-de-obra barata e desqualificada, pagando às empresas destes ramos (sob a forma de subsídios, benefícios fiscais, etc.) para quem mantenham estes jovens "ocupados". Mas qualquer destas soluções é facilitista, e não leva a lado nenhum, senão à reprodução do problema. Seria uma política de consumo de fundos que são destinados a algo que é um investimento: investimento em capital humano. É, para usar as categorias de Hirschman, a hipótese de exit, não a da voice. É que, nesta linha de (in)acção, estes jovens vão durante toda a vida saber apenas trabalhar na construção civil, ou como bouncers de discotecas, etc. E é precisamente isto que se pretende evitar, seja a nível individual, seja a nível colectivo.
Quando falo política nacional de qualificação e de upgrade massivo do stock colectivo de competências, falo de uma política que não tem nada a ver com soluções mágicas de curto-prazo. Essas, infelizmente, não existem; mais: a curto prazo, o que existe é, aliás, algo bastante mais negro: a tendência para a nossa economia se manter numa situação de equilíbrio de baixas competências, em que empregadores com negócios que exigem mão-de-obra desqualificada atraírem para fora da escola os jovens que assim ficarão sem qualquer qualificação; esta situação é de equilíbrio porque os dois lados alimentam-se mutuamente e dependem um do outro. Nenhum tem um incentivo para sair dele: os empregadores não vêem qualquer ganho em correr o risco para mudar de ramo e exigir mão-de-obra mais qualificada, quiçá mesmo assegurando alguma formação profissional daquela; nem os jovens têm qualquer incentivo, do lado das dinâmicas do funcionamento do mercado de trabalho, para ficar na escola, prosseguir os estudos, e conseguir qualificações. Estamos perante um problema de acção colectiva, uma armadilha sócio-económica, que exige a intervenção do Estado: o que o Estado tem que saber fazer é dar os incentivos correctos para que, de forma coordenada, empregadores e empregados alterem os seus hábitos e transformem aquele que é um círculo vicioso num círculo virtuoso.
O Estado corre dois riscos simétricos quando intervém nestas dinâmicas. Um é ficar demasiado longe e ser incapaz de influenciar as práticas dos empregadores, formando pessoas sem ter em conta as necessidades das empresas, que depois terão dificuldades na inserção concreta no mercado de trabalho. Esta será diagnóstico, em sentido lato, de Joaquim Azevedo, que duvidará da capacidade da escolas secundárias públicas ensinarem aquilo que os jovens precisam de aprender para trabalhar nas empresas. O outro risco é o inverso: o de o Estado ser capturado pelos interesses a curto prazo das empresas, que estão mais interessadas em servir-se dos financiamento e da mão-de-obra barata subsdiada pelo Estado do que numa estratégia de longo prazo de enriquecimento do stock nacional de competências; o Estado só será capaz de conduzir uma estratégia de investinmento/produção de competências enquanto bens públicos (mesmo que impuros) se não se subjugar ao short-termism das empresas, sobretudo quando são pequenas, vivem com a corda na garganta, e não têm capacidade para, elas próprias, garantir formação profissional aos seus trabalhadores de forma contínua e, sobretudo, equitativa (dado que normalmente são sempre os mais qualificados que acabam por ter a oportunidade de aprender coisas novas). A melhor resposta às dúvidas legítimas de Joaquim Azevedo é que se as escolas públicas não sabem fazer tão bem como as escolas profissionais privadas - com a sua experiência acumulada e proximidade em relação às empresas -, então elas podem aprender. A aprendizagem institucional-organizacional é uma capacidade que muitas vezes desprezamos, mas que é perfeitamente exequível, nas condições correctas e com os recursos humanos adequados. Mais: o facto de envolver o sector público tem mais duas vantagens potenciais: uma real, outra simbólica. A real: permite ensinar os jovens conteúdos mais generalistas e mais importantes para a sua formação a média prazo, não inteira e directamente subjugados às necessidades das empresas. Assim, o sistema sueco de vocational training funciona desta forma - isto é, é estatal - e capacita os jovens de conhecimento generalistas o suficiente para nao os circunscrever a um universo de competências excessivamente fechado e de difícil evolução/actualização. A simbólica: o facto de o ensino privado ter o monopólio do ensino profissional criava uma fronteira perversa, como se a escola pública estivesse deliberadamente desinteressada e alienada do mundo real do emprego, e como se só o ensino privado fosse capaz de compreender as dinâmicas e necessidades das empresas. Na medida em que isto se passa na realidade, isto necessita de ser mudado. Simbolicamente, esta divisão é perversa, e é preciso neutralizá-la.
Mas há uma terceira linha de acção em toda esta estratégia política, para além do objectivo de cumprimento da escolaridade obrigatória e de construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem. É o de fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais, e este é o mais difícil, porque se trata de construir instituições duráveis e não apenas lançar medidas de política. Aqui se percebe como a expectativa fácil de que o ensino profissional vai aumentar/facilitar, automaticamente, o emprego dos mais jovens é infundada, e a crítica nela baseada demagógica. O ensino profissional tem esse potencial, sim, se o policy mix for o correcto. Se isto fosse assim tão fácil, os países com tradição de ensino profissional - regra geral, o da Europa Continental e do Norte - teriam níveis de desemprego sistematicamente mais baixos que os que não apostam no desenvolvimento destes sistemas - regra geral, os de tradição anglo-saxónica. Mas isto não é verdade, porque as variáveis em jogo são imensas: uns têm desemprego relativamente baixo (os nórdicos), outro relativamente alto (os continentais, com o pormenor de a Alemanha ter um desemprego nas idades mais baixas inferior ao dos mais trabalhadores velhos, o que mostra a eficácia do seu sistema de estágios nas escolas e empresas, o conhecido por dual-system gerido pelas empresas e pelos sindicatos, quase sem intervenção directa do Estado). O que o ensino profissional pode fazer é tornar funcional um espaço institucional de mediação entre os interesses públicos e privados, e entre estes, entre o capital e o trabalho, alimentando relações de confiança e cooperação entre todos os actores colectivos, e que permitam pensar em estratégia de longo prazo de formação/actualização de competências, modernização tecnológica, e construção/maturação de instituições do mercado de trabalho que fujam às regras que governam as transacções mercantis. Para isso acontecer, os actores colectivos têm de capacidade de organização, de representação e de intervenção sistemática. É isso que faz o força dos sistemas onde as relações corporatistas se mantiveram fortes, mesmo nos anos 90 de "revolta" do capital contra as regras de negociação colectiva em vários países (e, simetricamente, é isso que faz a fraqueza de Portugal); e é isso que pode criar mecanismos de absorção eficiente dos jovens moderada qualificados no mercado de trabalho, assegurando baixas de taxas de desemprego. Mas este desemprego jovem baixo é efeito do sistema de negociação laboral, não directamente do ensino profissional - embora este seja uma peça importante do puzzle.
Portanto, repita-se as vezes que forem necessárias que o objectivo não é arranjar emprego a todo o custo; na nossa flexível economia informal, os jovens arranjá-lo-iam, muito provavelmente, do pé para a mão. O objectivo triplo, a ritmos diferentes, passa, antes, por garantir o cumprimento da escolaridade obrigatória + construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem + fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais. Isto demora tempo, exige competência e persistência dos agentes estatais, bem como a cooperação patronal e sindical na construção de laços de negociação conjunta dos problemas. Não se pede a empregadores ou a sindicalistas que sejam altruístas; apela-se apenas a essa atitude que dá pelo nome feliz de enlightened self-interest.
No fim disto tudo, conclui-se que, pelo menos, se percebe perfeitamente o fundamento do cepticismo de Joaquim Azevedo: este é legítimo, porque tem um justificação técnica e ideológica, e, gostemos delas ou não, tem medidas de politica alternativas. Podemos discordar, mas é uma opção séria - é a opção de quem não quer "Estado a mais" na ligação entre a educação e o sector empresarial; é a opção do PSD. Do outro lado, o que é que tem Santana Castilho senão aquela razão cínica que sempre acompanha os "Velhos do Restelo"?
Ontem Santana Castilho continuou no "Público" a sua saga contra o Ministério da Educação em fascículos (mas será que ele já escreveu sobre mais alguma coisa?). Sobre o programa "Prós e Contras" realizado no passado dia 17 de Setembro na RTP1, o cronista escreve:
«Os cursos técnico-profissionais ocuparam boa parte da discussão. Joaquim Azevedo pôs o dedo na ferida quando os considerou pouco profissionalizantes e menos técnicos e quando alertou para o perigo de não passarem de mero expediente para mascar o insucesso escolar. Que belo trabalho jornalístico poderia ter sido feito, como abertura documental do debate: uma reportagem sobre as instalações e os recursos técnicos das escolas onde são ministrados, os equipamentos e os meios e materiais de ensino postos ao serviço dessa mistificação monumental da propaganda do Governo. Daqui a uns anos, veremos quantos meninos destes cursos arranjaram emprego. Provavelmente tantos quantos os adultos que mudaram de função ou saíram do desemprego depois de terem sido formados no âmbito das Novas Oportunidades.»
A aposta no ensino profissional tem sido uma das bandeiras deste Governo, que tem procurado não apenas alargar a oferta dos cursos no final do ensino básico e no ensino secundário – respondendo a uma procura por parte dos alunos e incentivando-os a ficar na escola, ou, o que vai dar ao mesmo, procurando evitar que eles abandonem a escola sem uma qualificação -, mas sobretudo trazer os cursos profissionais para o interior das escolas secundárias públicas, quando eles, desde a sua criação em 1988-1989, tinham ficado acantonados nas escolas privadas, mas financiados pelo Estado. Na mesa dos participantes do programa estava Joaquim Azevedo, doutorado em Ciências da Educação, actualmente Presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica, ex-Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário em 1992, e Coordenador do recente Debate Nacional de Educação, entre outras coisas (consultar http://www.joaquimazevedo.com/). Joaquim Azevedo é provavelmente a pessoa que mais pensou e escreveu sobre ensino profissional em Portugal, e tem sido um defensor do mesmo, apesar de crítico da forma como o Estado tem tutelado o raio de acção deste tipo de ensino nas escolas profissionais, limitando a sua oferta. Joaquim Azevedo é um defensor do aumento da oferta, mas sempre no sector privado. A título de exemplo, consulte-se o texto que assinou com Joaquim Goes para o famigerado "Compromisso Portugal" na área de educação (que pode ser encontrado aqui em powerpoint), onde a dada altura se lê que devia ser feita a «[p]romoção de forma sistemática e proactiva do reforço da oferta do ensino profissional de cariz não estatal, de maneira a que o número de vagas se aproxime rapidamente da procura latente não satisfeita».
As dúvidas de Joaquim Azevedo são legítimas (explico à frente porquê), mas Santana Castilho, com seu estilo “caceteiro”, mostra que não percebe o objectivo da aposta no ensino profissional.
Em primeiro lugar, é muito importante perceber que o objectivo primeiro de um sistema de ensino profissional não é garantir um emprego imediato, mas sim contribuir para que os jovens cumpram a escolaridade obrigatória - ou seja, o 9º ano - e, se possível, o 12º.
Em segundo lugar, pretende-se melhorar a qualificação da população jovem, na linha de uma política nacional de qualificação e de upgrade do stock colectivo de competências. É que se objectivo fosse combater o desemprego a curto prazo, a melhor alternativa seria deixar os "putos" fora da escola - eles lá acabariam por conseguir os biscates do costume. Ou então, numa linha mais intervencionista (e mais cara), subsidiar esta mão-de-obra barata e desqualificada, pagando às empresas destes ramos (sob a forma de subsídios, benefícios fiscais, etc.) para quem mantenham estes jovens "ocupados". Mas qualquer destas soluções é facilitista, e não leva a lado nenhum, senão à reprodução do problema. Seria uma política de consumo de fundos que são destinados a algo que é um investimento: investimento em capital humano. É, para usar as categorias de Hirschman, a hipótese de exit, não a da voice. É que, nesta linha de (in)acção, estes jovens vão durante toda a vida saber apenas trabalhar na construção civil, ou como bouncers de discotecas, etc. E é precisamente isto que se pretende evitar, seja a nível individual, seja a nível colectivo.
Quando falo política nacional de qualificação e de upgrade massivo do stock colectivo de competências, falo de uma política que não tem nada a ver com soluções mágicas de curto-prazo. Essas, infelizmente, não existem; mais: a curto prazo, o que existe é, aliás, algo bastante mais negro: a tendência para a nossa economia se manter numa situação de equilíbrio de baixas competências, em que empregadores com negócios que exigem mão-de-obra desqualificada atraírem para fora da escola os jovens que assim ficarão sem qualquer qualificação; esta situação é de equilíbrio porque os dois lados alimentam-se mutuamente e dependem um do outro. Nenhum tem um incentivo para sair dele: os empregadores não vêem qualquer ganho em correr o risco para mudar de ramo e exigir mão-de-obra mais qualificada, quiçá mesmo assegurando alguma formação profissional daquela; nem os jovens têm qualquer incentivo, do lado das dinâmicas do funcionamento do mercado de trabalho, para ficar na escola, prosseguir os estudos, e conseguir qualificações. Estamos perante um problema de acção colectiva, uma armadilha sócio-económica, que exige a intervenção do Estado: o que o Estado tem que saber fazer é dar os incentivos correctos para que, de forma coordenada, empregadores e empregados alterem os seus hábitos e transformem aquele que é um círculo vicioso num círculo virtuoso.
O Estado corre dois riscos simétricos quando intervém nestas dinâmicas. Um é ficar demasiado longe e ser incapaz de influenciar as práticas dos empregadores, formando pessoas sem ter em conta as necessidades das empresas, que depois terão dificuldades na inserção concreta no mercado de trabalho. Esta será diagnóstico, em sentido lato, de Joaquim Azevedo, que duvidará da capacidade da escolas secundárias públicas ensinarem aquilo que os jovens precisam de aprender para trabalhar nas empresas. O outro risco é o inverso: o de o Estado ser capturado pelos interesses a curto prazo das empresas, que estão mais interessadas em servir-se dos financiamento e da mão-de-obra barata subsdiada pelo Estado do que numa estratégia de longo prazo de enriquecimento do stock nacional de competências; o Estado só será capaz de conduzir uma estratégia de investinmento/produção de competências enquanto bens públicos (mesmo que impuros) se não se subjugar ao short-termism das empresas, sobretudo quando são pequenas, vivem com a corda na garganta, e não têm capacidade para, elas próprias, garantir formação profissional aos seus trabalhadores de forma contínua e, sobretudo, equitativa (dado que normalmente são sempre os mais qualificados que acabam por ter a oportunidade de aprender coisas novas). A melhor resposta às dúvidas legítimas de Joaquim Azevedo é que se as escolas públicas não sabem fazer tão bem como as escolas profissionais privadas - com a sua experiência acumulada e proximidade em relação às empresas -, então elas podem aprender. A aprendizagem institucional-organizacional é uma capacidade que muitas vezes desprezamos, mas que é perfeitamente exequível, nas condições correctas e com os recursos humanos adequados. Mais: o facto de envolver o sector público tem mais duas vantagens potenciais: uma real, outra simbólica. A real: permite ensinar os jovens conteúdos mais generalistas e mais importantes para a sua formação a média prazo, não inteira e directamente subjugados às necessidades das empresas. Assim, o sistema sueco de vocational training funciona desta forma - isto é, é estatal - e capacita os jovens de conhecimento generalistas o suficiente para nao os circunscrever a um universo de competências excessivamente fechado e de difícil evolução/actualização. A simbólica: o facto de o ensino privado ter o monopólio do ensino profissional criava uma fronteira perversa, como se a escola pública estivesse deliberadamente desinteressada e alienada do mundo real do emprego, e como se só o ensino privado fosse capaz de compreender as dinâmicas e necessidades das empresas. Na medida em que isto se passa na realidade, isto necessita de ser mudado. Simbolicamente, esta divisão é perversa, e é preciso neutralizá-la.
Mas há uma terceira linha de acção em toda esta estratégia política, para além do objectivo de cumprimento da escolaridade obrigatória e de construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem. É o de fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais, e este é o mais difícil, porque se trata de construir instituições duráveis e não apenas lançar medidas de política. Aqui se percebe como a expectativa fácil de que o ensino profissional vai aumentar/facilitar, automaticamente, o emprego dos mais jovens é infundada, e a crítica nela baseada demagógica. O ensino profissional tem esse potencial, sim, se o policy mix for o correcto. Se isto fosse assim tão fácil, os países com tradição de ensino profissional - regra geral, o da Europa Continental e do Norte - teriam níveis de desemprego sistematicamente mais baixos que os que não apostam no desenvolvimento destes sistemas - regra geral, os de tradição anglo-saxónica. Mas isto não é verdade, porque as variáveis em jogo são imensas: uns têm desemprego relativamente baixo (os nórdicos), outro relativamente alto (os continentais, com o pormenor de a Alemanha ter um desemprego nas idades mais baixas inferior ao dos mais trabalhadores velhos, o que mostra a eficácia do seu sistema de estágios nas escolas e empresas, o conhecido por dual-system gerido pelas empresas e pelos sindicatos, quase sem intervenção directa do Estado). O que o ensino profissional pode fazer é tornar funcional um espaço institucional de mediação entre os interesses públicos e privados, e entre estes, entre o capital e o trabalho, alimentando relações de confiança e cooperação entre todos os actores colectivos, e que permitam pensar em estratégia de longo prazo de formação/actualização de competências, modernização tecnológica, e construção/maturação de instituições do mercado de trabalho que fujam às regras que governam as transacções mercantis. Para isso acontecer, os actores colectivos têm de capacidade de organização, de representação e de intervenção sistemática. É isso que faz o força dos sistemas onde as relações corporatistas se mantiveram fortes, mesmo nos anos 90 de "revolta" do capital contra as regras de negociação colectiva em vários países (e, simetricamente, é isso que faz a fraqueza de Portugal); e é isso que pode criar mecanismos de absorção eficiente dos jovens moderada qualificados no mercado de trabalho, assegurando baixas de taxas de desemprego. Mas este desemprego jovem baixo é efeito do sistema de negociação laboral, não directamente do ensino profissional - embora este seja uma peça importante do puzzle.
Portanto, repita-se as vezes que forem necessárias que o objectivo não é arranjar emprego a todo o custo; na nossa flexível economia informal, os jovens arranjá-lo-iam, muito provavelmente, do pé para a mão. O objectivo triplo, a ritmos diferentes, passa, antes, por garantir o cumprimento da escolaridade obrigatória + construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem + fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais. Isto demora tempo, exige competência e persistência dos agentes estatais, bem como a cooperação patronal e sindical na construção de laços de negociação conjunta dos problemas. Não se pede a empregadores ou a sindicalistas que sejam altruístas; apela-se apenas a essa atitude que dá pelo nome feliz de enlightened self-interest.
No fim disto tudo, conclui-se que, pelo menos, se percebe perfeitamente o fundamento do cepticismo de Joaquim Azevedo: este é legítimo, porque tem um justificação técnica e ideológica, e, gostemos delas ou não, tem medidas de politica alternativas. Podemos discordar, mas é uma opção séria - é a opção de quem não quer "Estado a mais" na ligação entre a educação e o sector empresarial; é a opção do PSD. Do outro lado, o que é que tem Santana Castilho senão aquela razão cínica que sempre acompanha os "Velhos do Restelo"?
Tuesday, September 25, 2007
«Nous aimerions chacun ne pas survivre à la mort de l'autre»
Le philosophe André Gorz s'est suicidé avec sa femmeNão há nada como acordar com uma notícia destas...André Gorz, em tempos muito próximo de Sartre (que conheceu em 1946 e que o levou para a equipa da Temps Modernes), era dos mais interessantes filósofos franceses da actualidade, e os seus livros sobre a relação entre a ecologia e o socialismo depois do fim da ligação umbilical deste à figura do proletariado, e o trabalho, tema a que se dedicou a partir de meados dos anos 80, merecem ainda hoje atenção - mesmo discordando de muitas das suas reflexões e propostas, que acabaram por alimentar o debate, há cerca de uma década, em torno do "fim do trabalho". Aliás, é justo que Gorz seja conhecido como "filósofo do trabalho", uma categoria rara mas central nos dias de hoje. L'Immateriel. Connaissance, valeur et capital, que penso ser o seu último trabalho sobre estas questões, é um excelente ensaio sobre o valor do conhecimento nestes tempos de "capitalismo cognitivo" - cuja tese sustenta, contra-intuitivamente, e pour aller vite, que não é o capitalismo que acaba com a ciência, mas a ciência que acaba com o capitalismo.
A única forma interessante hoje de ser anti-capitalista é sê-lo com sofisticação, humildade e sentido da realidade - e o trabalho de Gorz, crítico incansável do mundo actual, exalava estas qualidades.
Como muitos grandes filósofos franceses, preferiu morrer a esperar pela morte - e fê-lo com Dorine, a quem dedicou o seu último livro, em 2006, Lettre à D. Histoire d'un amour. Numa recensão do livro no LIbération, Jean-Baptiste Marongiu e Frédérique Roussel escreviam que as primeiras frases da obra «contiennent le mystère de la rencontre pérenne entre un homme et une femme», e uma «promesse d'infini».
Voilà: promessa de infinito, pois então. «Nous naissons plusieurs mais on meurt seul, a écrit quelqu'un», recorda Gorz nessa obra premonitória. Decidiu não morrer só, mas com a mulher com quem partilhou cerca de meio século de existência. Afinal de contas, o suicídio é também expressão de "autonomia" - um dos seus ideais preferidos de Gorz, e que sustentava toda a sua crítica não apenas do capitalismo, mas da existência tout court.
Tuesday, September 11, 2007
A reinvenção da roda
Não gosto de perder muito tempo a falar da incapacidade política - da policy, não da politics - do PSD, mas às vezes não há mesmo como resistir, tal o ridículo da situação.
Assim, Marques Mendes acha que, na área da educação, o Governo faz «propaganda» a mais e toma «medidas» a menos. Não vale a pena perguntar o que fizeram os últimos Governos do PSD nesta área que tenham alterado efectivamente as tendência de longo curso do sistema, em particular no abandono escolar - esse grande e milagroso «conjunto de medidas» que o Governo actual não toma por «falta de coragem».
Resta saber se Marques Mendes sabe que medidas estão em curso. É muito provável que não. Se assim fosse, não procuraria reinventar a roda, afirmando que o que era mesmo necesário para combater o abandono escolar «era introduzir o ensino profissional a sério nas escolas». Ena. A sério????? Isto sim, é que é fazer oposição.
Mesmo com a espalhafatosa propaganda socialista em acção, o dr. Marques Mendes parece não saber o que está a ser feito. A eficácia da propaganda já não é o que era.
Assim, Marques Mendes acha que, na área da educação, o Governo faz «propaganda» a mais e toma «medidas» a menos. Não vale a pena perguntar o que fizeram os últimos Governos do PSD nesta área que tenham alterado efectivamente as tendência de longo curso do sistema, em particular no abandono escolar - esse grande e milagroso «conjunto de medidas» que o Governo actual não toma por «falta de coragem».
Resta saber se Marques Mendes sabe que medidas estão em curso. É muito provável que não. Se assim fosse, não procuraria reinventar a roda, afirmando que o que era mesmo necesário para combater o abandono escolar «era introduzir o ensino profissional a sério nas escolas». Ena. A sério????? Isto sim, é que é fazer oposição.
Mesmo com a espalhafatosa propaganda socialista em acção, o dr. Marques Mendes parece não saber o que está a ser feito. A eficácia da propaganda já não é o que era.
Sunday, September 9, 2007
A pobreza do - de um certo - criticismo
Porque é que tantas pessoas têm uma tão grande dificuldade em fugir à falácia genética?
Thursday, September 6, 2007
Tuesday, September 4, 2007
Chamar-lhe-ão "meritocracia"?
"A remuneração média de cada membro de conselho de administração das empresas cotadas na bolsa [portuguesa] representa 31,5 mil euros/mês e uma grande parte (..) foram aumentados sessenta vezes mais que um trabalhador comum..."
António Vilarigues, PÚBLICO, 03-09-2007
António Vilarigues, PÚBLICO, 03-09-2007
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À atenção da esquerda: sobre o futuro dos serviços públicos
Smart season

Ainda dizem que o Verão é a silly season. Depois de Luís Filipe Vieira ter tido a coragem de ter mandado Fernando Santos para o sítio de onde nunca devia ter saído - isto é, da Grécia - e ter mandado Camacho regressar, já posso de bom grado sentar-me novamente no terceiro anel do Estádio da Luz.
Rentrée
Este blogue esteve de férias, está na hora de regressar, aqui com Patrick Wolf, o tema é "Overture", ao vivo no Bowery Ballroom, em Nova Iorque, em Maio passado.
Wednesday, July 25, 2007
Policy vs. politics
A imprensa e a oposição à direita - em particular o PSD - vivem cada vez mais da exploração dos casos - uns delicados, outros apenas exagero desmesurado - do que os anglo-saxónicos, sabiamente, afirmam pertencer ao domínio da politics, o da luta política quotidiana, onde vale mais ou menos tudo. A policy, essa, o espaço das orientações e objectivos estratégicos da política, fica sempre para segundo plano. Isto não é necessariamente estranho nem totalmente negativo: o que se faz - e como se faz - no dia-a-dia conta, e a pressão mediática tem destas coisas. Chama-se, afinal de contas, democracia. Mas convém não perder de vista o domínio da policy, sob pena de toda a discussão ficarmos reféns do que, sem termos presente um sentido do objectivo e do significado real da política, pode acabar na mais decadente intriga.
Tuesday, July 24, 2007
Wednesday, July 18, 2007
Os loucos anos 90 III
Os Pulp - also known as the most sociologically-minded-band-of-the-1990's-post-Thatcherist-Britain - com 'Common People', do álbum "Different Class" (1995).
Tuesday, July 17, 2007
Monday, July 16, 2007
Michael Moore e a CNN
O João Caetano chamou-me a atenção - e bem - por e-mail para o "debate" em curso entre a CNN e o Michael Moore no seguimento da reportagem e da entrevista a que aludi aqui. A CNN corrige algumas estatísticas usadas por Moore, e ainda bem.
Simplesmente, a questão central do debate não é essa. A dimensão e o significado político - e se quiserem, ideológico e moral - da discussão não se resolve com hiper-preciosismos estatísticos. Este só é necessário quando as disputas são too close to call. Mas, no caso em questão, saber se os EUA estão uns lugares acima ou abaixo nas tabelas internacionais ou se, em comparação com os outros países, gasta, per capita, umas centenas de dólares a mais ou menos em saúde não é de todo o que está em causa. O excesso de zelo estatístico não resolve o problema gravíssimo de um sistema que, como já havia escrito aqui, é incapaz de proteger uma parte muito significativa da população (46,6 milhões segundo dados de 2005, ou seja, 16% da população - sem dúvida aquela que mais precisaria de cuidados de saúde), já para não falar da cobertura incipiente de muitos. Para além dos 46 milhões acima referidos, estima-se que 37 milhões estão sem seguro largos durante períodos de tempo (dado que os seguros estão tipicamente attached aos empregos, quando se perde o emprego perde-se também o seguro de saúde), já para não falar daqueles que estão underinsured, uma vez que seguro de que dispõem é altamente limitado nos serviços e medicamentos que cobre.
Podíamos estar a discutir se são, de facto, 37 milhões ou 36 milhões, ou se o número mais correcto é 16% ou 15% ou se....O problema está lá e, sobretudo, está a agudizar-se. A CNN pode ter pontual razão estatística; Moore (de quem não sou grande fã) tem razão política - e, se quiserem, moral.
Simplesmente, a questão central do debate não é essa. A dimensão e o significado político - e se quiserem, ideológico e moral - da discussão não se resolve com hiper-preciosismos estatísticos. Este só é necessário quando as disputas são too close to call. Mas, no caso em questão, saber se os EUA estão uns lugares acima ou abaixo nas tabelas internacionais ou se, em comparação com os outros países, gasta, per capita, umas centenas de dólares a mais ou menos em saúde não é de todo o que está em causa. O excesso de zelo estatístico não resolve o problema gravíssimo de um sistema que, como já havia escrito aqui, é incapaz de proteger uma parte muito significativa da população (46,6 milhões segundo dados de 2005, ou seja, 16% da população - sem dúvida aquela que mais precisaria de cuidados de saúde), já para não falar da cobertura incipiente de muitos. Para além dos 46 milhões acima referidos, estima-se que 37 milhões estão sem seguro largos durante períodos de tempo (dado que os seguros estão tipicamente attached aos empregos, quando se perde o emprego perde-se também o seguro de saúde), já para não falar daqueles que estão underinsured, uma vez que seguro de que dispõem é altamente limitado nos serviços e medicamentos que cobre.
Podíamos estar a discutir se são, de facto, 37 milhões ou 36 milhões, ou se o número mais correcto é 16% ou 15% ou se....O problema está lá e, sobretudo, está a agudizar-se. A CNN pode ter pontual razão estatística; Moore (de quem não sou grande fã) tem razão política - e, se quiserem, moral.
Independência já!
O presidente do Governo Regional da Madeira, que suspendeu a aplicação na região da lei que despenaliza o aborto, considerou hoje que é Portugal «quem está na ilegalidade», por aplicar uma lei que não respeita o direito à vida.«Na minha formação política, primeiro estão os grandes princípios da defesa da pessoa humana e só depois está o positivismo da lei escrita», declarou.
Alguém pode explicar ao dr.Alberto João Jardim a diferença entre um Estado de Direito e um Estado "Moral"?
Cada vez que oiço/leio este criatura dizer estas cretinices, eu pergunto onde está o PSD. Aceitar calado - como se João Jardim fosse uma espécie de político freelancer, sem responsabilidades institucionais e partidárias - estas coisas é mais grave do que ter ficado em 3º nas eleições intercalares de Lisboa (coisa que origina logo a marcação de um congresso); é um continuado péssimo serviço que um partido como o PSD presta à qualidade da democracia e das instituições política portuguesas.
Se um dia oferecerem a independência ao dr.Jardim - coisa que pessaolmente não me importava nada - eu queria ver contra quem iria disparar o seu irresponsável discurso "anti-colonial". Politicamente falando, a Madeira continua mais perto da América Latina do que do "Contenente".
Alguém pode explicar ao dr.Alberto João Jardim a diferença entre um Estado de Direito e um Estado "Moral"?
Cada vez que oiço/leio este criatura dizer estas cretinices, eu pergunto onde está o PSD. Aceitar calado - como se João Jardim fosse uma espécie de político freelancer, sem responsabilidades institucionais e partidárias - estas coisas é mais grave do que ter ficado em 3º nas eleições intercalares de Lisboa (coisa que origina logo a marcação de um congresso); é um continuado péssimo serviço que um partido como o PSD presta à qualidade da democracia e das instituições política portuguesas.
Se um dia oferecerem a independência ao dr.Jardim - coisa que pessaolmente não me importava nada - eu queria ver contra quem iria disparar o seu irresponsável discurso "anti-colonial". Politicamente falando, a Madeira continua mais perto da América Latina do que do "Contenente".
Lisboa
A esquerda, no grande arco que vai do PCTP/MRPP ao PS, obteve cerca de 57% dos votos nas eleições intercalares de ontem em Lisboa. Continua, portanto, a ser uma cidade que vota predominantemente à esquerda. E, porém, se o PSD não estivesse partido ao meio, dividido entre as candidaturas de Carmona Rodrigues e Fernando Negrão, talvez tivesse ganho (os seus votos somam quase 32,5% dos votos, mais 3% do que a candidatura de António Costa). O que à direita é uma excepção é à esquerda a regra. Podíamos ter pago caro - se é que não o vamos pagar na governação de uma câmara dificilmente governável, em função dos mandatos atribuídos. Vamos ver se alguns conseguem ir para além da política do "bate pé".
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Love is a fire
«Love is a fire
It burns everyone
It desfigures everyone
It is the world's excuse
for being ugly».
Leonard Cohen,
in "Poemas e Canções". Vol.I (original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)
It burns everyone
It desfigures everyone
It is the world's excuse
for being ugly».
Leonard Cohen,
in "Poemas e Canções". Vol.I (original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)
Thursday, July 12, 2007
"Sicko", Michael Moore, a CNN e o papão da "socialized medicine"
Vale mesmo a pena perder aí um quarto de hora a ver estas peças televisivas que o Daniel Oliveira colocou aqui, bem como o seu comentário. Aquela peça da CNN sobre o novo filme de Michael Moore, "Sicko", é má demais. Independentemente da qualidade do filme de Moore (mas a realidade que retrata, relativa ao sistema de saúde norte-americano, é razoavelmente consensual), nada justifica semelhante jornalismo rasteiro. Se estes são os "padrões de jornalismo de qualidade mundial" da CNN, então estamos conversados.
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Wednesday, July 11, 2007
Será possível que Sarkozy - e o FMI - contribua decisivamente para a renovação do Partido Socialista Francês?
A resposta parece, à distância, ser um supreendente sim. Isso sim, seria uma acção em nome do "interesse geral"!
Monday, July 9, 2007
Futebol, ano 0
Há muitos anos, as coisas do mercado de transferência futebolístico levaram Ronaldo, que jogava então no PSV Endhoven, a assinar pelo FCBarcelona. Muito por culpa disso, 1995/1996 é o ano futebolístico de que tenho mais saudades. Ronaldo parecia um jogador do outro mundo, sistematicamente mais forte, mais rápido e mais habilidoso do que os 3 ou 4 jogadores que o circundavam e o abordavam no limite da violência. Depois daquilo, não tenho grande pena de não ter visto Pelé, Eusébio e companhia a jogar ao vivo.
Depois Ronaldo foi na cantiga das liras e trocou o Barcelona pelo futebol italiano. Foi uma pena. O catenaccio foi acabando com as suas pernas e o Barcelona sentiu a sua perda. Pior, mesmo, só o impacto sobre os adeptos que ainda guardam na memória as emoções que aquele ano - e em particular aquele mágico 5-4 contra o Atlético de Madrid na Taça do Rei - proporcionou.
Bom, mas 2007/2008 promete muito. É que Thierry Henry, que é provavelmente o melhor jogador mundo, deixou finalmente o Arsenal para se transferir para, claro, o FCBarcelona. Digo finalmente porque, apesar de o Arsenal ser o clube inglês de que mais gosto, Henry merecia um clube melhor. Como melhor jogador do mundo, já merecia estar naquele que é provavelmente o melhor clube do mundo.
Restam-lhe provavelmente ainda mais 2 anos com a mesma capacidade atlética. É tempo suficiente para fazer muitas das coisas que podem encontrar no video seguinte.
Depois Ronaldo foi na cantiga das liras e trocou o Barcelona pelo futebol italiano. Foi uma pena. O catenaccio foi acabando com as suas pernas e o Barcelona sentiu a sua perda. Pior, mesmo, só o impacto sobre os adeptos que ainda guardam na memória as emoções que aquele ano - e em particular aquele mágico 5-4 contra o Atlético de Madrid na Taça do Rei - proporcionou.
Bom, mas 2007/2008 promete muito. É que Thierry Henry, que é provavelmente o melhor jogador mundo, deixou finalmente o Arsenal para se transferir para, claro, o FCBarcelona. Digo finalmente porque, apesar de o Arsenal ser o clube inglês de que mais gosto, Henry merecia um clube melhor. Como melhor jogador do mundo, já merecia estar naquele que é provavelmente o melhor clube do mundo.
Restam-lhe provavelmente ainda mais 2 anos com a mesma capacidade atlética. É tempo suficiente para fazer muitas das coisas que podem encontrar no video seguinte.
Friday, July 6, 2007
Não matem o bebé...
Carvalho da Silva acusa debate sobre flexigurança de estar enviesado.
Resta saber quem o enviesou ou tem mais interesse em enviesá-lo. Sob pena de se fazerem comparações directas e frágeis com a Dinamarca, está-se a retirar a virtualidade à flexisegurança, que deve ser concebido como um modelo de relações laborais de geometria relativamente variável, e não como uma solução mágica e de tamanho único.
A discussão em torno deste modelo deve continuar, de forma serena, e sem a intenção deliberada de assustar as pessoas, que por vezes parece ser o primeiro objectivo sindical.
Convém não esquecer uma coisa para os próximos anos: se o mercado de trabalho português não sofrer algum tipo de flexibilização, não vejo como a economia terá capacidade para (e os agentes económicos interesse em) gerar emprego, de forma a absorver as pessoas cujo emprego nenhum código laboral, nem o mais seguro do mundo, vão muito provavelmente ser perdido, devido à competição internacional. Costumo dizer que aqui não vale mesmo nada a pena ser "fetichista da lei", e pensar que ela resolve tudo; não só não resolve (há tantas formas de a evitar: não criar emprego; comprar uma máquina em vez de contratar um trabalhador; sub-contratar o trabalhador com esquemas hiperflexíveis; alimentar o mercado negro, onde nenhuma lei conta, tirando, claro, a "lei do mais forte", etc.) como por vezes pode jogar contra as pessoas - a começar pelos desempregados. No sindicalismo costuma-se dizer que é uma estupidez "colocar trabalhadores contra trabalhadores", mesmo que um destes grupo reúna trabalhadores no desemprego (que querem o que só os primeiros têm e que é limitado: emprego); no plano teórico eu até concordo, mas sou sensível à miopia ideológica a que isto pode levar: é que não se trata de, no discurso, supostamente maquivélico, colocar trabalhadores contra trabalhadores; trata-se de reconhecer que, na realidade do mercado laboral, os trade-offs existentes e a que ninguém pode fugir, esta competição existe, e que para a tornarmos mais equitativa e redistribuirmos os riscos, temos que partir da realidade do problema em vez de nos fecharmos em slogans ideológicos. O problema existe, e é o seu reconhecimento que nos deve obrigar a olhar de frente e a procurar a solução mais adqueada a todos, a começar pelos interesses dos mais fracos. Ou seja, a unidade dos trabalhadores deve ser o resultado almejado pela reflexão e pela acção política inteligente e correcta, e não um a priori ideológico que pode, no limite, apenas reproduzir os problemas - os problemas dos mesmos trabalhadores que os sindicatos representam.
Enquanto modelo, a flexisegurança é, implica, obriga também a uma mudança de mentalidades. O essencial no futuro não é proteger os empregos a todo o custo (isso, convém repetir, nenhuma lei conseguirá, e isso nem sequer é desejável em todos os contextos); o essencial é proteger as pessoas, estejam elas empregadas num dado momento ou não. Se não gostarem da palavra "flexisegurança", arranjem outra; mas este princípio é muito importante, demasiado importante para ser denegrido ou esquecido pelos interesses imediatos do sindicalismo, que deve reconhecer a amplitude do problema do desemprego (em particular o de longa duração) e da dificuldade da criação de emprego (ainda por cima num contexto de acelerado desenvolvimento tecnológico, onde compensa muito mais, para algumas tarefas, "contratar" uma máquina) em algumas economias da Europa. E sem capacidade de criação de emprego, muito dificilmente teremos um mecanismo sustentado para evitar o cavar do fosso das desigualdades.
Adenda 1: ler, sobre o mesmo assunto, isto.
Adenda 2: o debate prossegue aqui.
Resta saber quem o enviesou ou tem mais interesse em enviesá-lo. Sob pena de se fazerem comparações directas e frágeis com a Dinamarca, está-se a retirar a virtualidade à flexisegurança, que deve ser concebido como um modelo de relações laborais de geometria relativamente variável, e não como uma solução mágica e de tamanho único.
A discussão em torno deste modelo deve continuar, de forma serena, e sem a intenção deliberada de assustar as pessoas, que por vezes parece ser o primeiro objectivo sindical.
Convém não esquecer uma coisa para os próximos anos: se o mercado de trabalho português não sofrer algum tipo de flexibilização, não vejo como a economia terá capacidade para (e os agentes económicos interesse em) gerar emprego, de forma a absorver as pessoas cujo emprego nenhum código laboral, nem o mais seguro do mundo, vão muito provavelmente ser perdido, devido à competição internacional. Costumo dizer que aqui não vale mesmo nada a pena ser "fetichista da lei", e pensar que ela resolve tudo; não só não resolve (há tantas formas de a evitar: não criar emprego; comprar uma máquina em vez de contratar um trabalhador; sub-contratar o trabalhador com esquemas hiperflexíveis; alimentar o mercado negro, onde nenhuma lei conta, tirando, claro, a "lei do mais forte", etc.) como por vezes pode jogar contra as pessoas - a começar pelos desempregados. No sindicalismo costuma-se dizer que é uma estupidez "colocar trabalhadores contra trabalhadores", mesmo que um destes grupo reúna trabalhadores no desemprego (que querem o que só os primeiros têm e que é limitado: emprego); no plano teórico eu até concordo, mas sou sensível à miopia ideológica a que isto pode levar: é que não se trata de, no discurso, supostamente maquivélico, colocar trabalhadores contra trabalhadores; trata-se de reconhecer que, na realidade do mercado laboral, os trade-offs existentes e a que ninguém pode fugir, esta competição existe, e que para a tornarmos mais equitativa e redistribuirmos os riscos, temos que partir da realidade do problema em vez de nos fecharmos em slogans ideológicos. O problema existe, e é o seu reconhecimento que nos deve obrigar a olhar de frente e a procurar a solução mais adqueada a todos, a começar pelos interesses dos mais fracos. Ou seja, a unidade dos trabalhadores deve ser o resultado almejado pela reflexão e pela acção política inteligente e correcta, e não um a priori ideológico que pode, no limite, apenas reproduzir os problemas - os problemas dos mesmos trabalhadores que os sindicatos representam.
Enquanto modelo, a flexisegurança é, implica, obriga também a uma mudança de mentalidades. O essencial no futuro não é proteger os empregos a todo o custo (isso, convém repetir, nenhuma lei conseguirá, e isso nem sequer é desejável em todos os contextos); o essencial é proteger as pessoas, estejam elas empregadas num dado momento ou não. Se não gostarem da palavra "flexisegurança", arranjem outra; mas este princípio é muito importante, demasiado importante para ser denegrido ou esquecido pelos interesses imediatos do sindicalismo, que deve reconhecer a amplitude do problema do desemprego (em particular o de longa duração) e da dificuldade da criação de emprego (ainda por cima num contexto de acelerado desenvolvimento tecnológico, onde compensa muito mais, para algumas tarefas, "contratar" uma máquina) em algumas economias da Europa. E sem capacidade de criação de emprego, muito dificilmente teremos um mecanismo sustentado para evitar o cavar do fosso das desigualdades.
Adenda 1: ler, sobre o mesmo assunto, isto.
Adenda 2: o debate prossegue aqui.
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O que faço aqui
«Não sei se o mundo mentiu
eu menti
não sei se o mundo conspirou contra o amor
eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é confortável
eu torturei
Mesmo sem a nuvem do cogumelo
teria odiado
Escutem
teria feito o mesmo
mesmo que a morte nao existisse
não me colocarão como a um bêbedo
sob a fria torneira dos factos
recuso o alibi universal
Como uma cabine telefónica vazia junto à qual passas a noite
e depois recordas
como espelhos de um vestíbulo de cinema
consultados só à saída
como uma ninfomaníaca que une um milhar
numa estranha irmandade
eu espero
que cada um de vós confesse»
Leonard Cohen, in "Poemas e Canções". Vol.I
(original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)
eu menti
não sei se o mundo conspirou contra o amor
eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é confortável
eu torturei
Mesmo sem a nuvem do cogumelo
teria odiado
Escutem
teria feito o mesmo
mesmo que a morte nao existisse
não me colocarão como a um bêbedo
sob a fria torneira dos factos
recuso o alibi universal
Como uma cabine telefónica vazia junto à qual passas a noite
e depois recordas
como espelhos de um vestíbulo de cinema
consultados só à saída
como uma ninfomaníaca que une um milhar
numa estranha irmandade
eu espero
que cada um de vós confesse»
Leonard Cohen, in "Poemas e Canções". Vol.I
(original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)
Thursday, July 5, 2007
Os loucos anos 90
Hoje é dia de Jesus and Mary Chains no "Super Bock Super Rock", mas a nostalgia por aqui tem o nome de Suede, com New Generation, do álbum Dog Man Star (1995), grande, grande faixa.
I wake up every day to see her back again
Screaming my name through the astral plane
And in this catalogue town she takes me down
Down through the platinum spires
Down through the telephone wires
And we shake it around in the underground
And like a new generation rise
And like all the boys in all the cities
I take the poison, take the pity
But she and I, we soon discovered
we'd take the pills to find each other
Oh but when she is calling here in my head
Can you hear her calling
And what she has said?
Oh but when she is calling here in my head
It's like a new generation calling
Can you hear it call?
And I'm losing myself, losing myself to you
I wake up every day, to find her back again
Breeding disease on her hands and knees
While the styles turn and the books still burn
Yes it's there in the platinum spires
It's there in the telephone wires
And we spread it around to a techno sound
But like a new generation rise
Cos like all the boys in all the cities
I take the poison, take the pity
But she and I we soon discover
We take the pills to find each other
Oh but when she is calling here in my head
Can you hear her calling?
And what she has said?
Oh but when she is calling here in my head
It's like a new generation calling
Can you hear her call?
And I'm losing myself, losing myself to you
Wednesday, July 4, 2007
Porque a esquerda francesa vai demorar muito tempo a regressar ao poder?
Porque o governo de François Fillon vai ocupar todo o espaço político eleitoralmente relevante, dado que se prepara para tomar uma série de medidas bastante ao centro, tocando mesmo o centro-esquerda (ver excerto da notícia do "Público on-line"). E vai deixar o Partido Socialista Francês sem espaço para respirar, vendo o centro-direita tomar medidas que devia ser ele a adoptar, se estivesse no poder. Pela enésima vez desde 1958.
No mesmo espírito de reforma, Fillon anunciou um aumento das dotações para as universidades – que classificou como a sua "prioridade absoluta" –, elevando para cinco mil milhões de euros o investimento no ensino superior até 2012. "Queremos reformar a universidade francesa e fazer das nossas escolas pólos de excelência, dispondo de real autonomia, financeiramente responsáveis e pedagogicamente melhoradas", afirmou, dizendo esperar que nos próximos anos seja possível que 50 por cento dos jovens franceses obtenham um diploma do superior. O Governo pretende também aumentar o investimento na investigação para três por cento do PIB – nível considerado desejável pela UE. "Não serei dos que sacrificam a investigação essencial sob pretexto de que ela é improdutiva a curto prazo", justificou, lembrando que França tem vindo a perder terreno nesta área para outros países europeus. A construção de 120 mil habitações sociais por ano, a aposta na formação profissional e um plano para os bairros considerados difíceis foram outras das promessas feitas pelo novo primeiro-ministro na intervenção no Parlamento, durante o qual confirmou que o Governo irá aplicar o princípio da admissão de um único funcionário por cada dois que se reformem.
No mesmo espírito de reforma, Fillon anunciou um aumento das dotações para as universidades – que classificou como a sua "prioridade absoluta" –, elevando para cinco mil milhões de euros o investimento no ensino superior até 2012. "Queremos reformar a universidade francesa e fazer das nossas escolas pólos de excelência, dispondo de real autonomia, financeiramente responsáveis e pedagogicamente melhoradas", afirmou, dizendo esperar que nos próximos anos seja possível que 50 por cento dos jovens franceses obtenham um diploma do superior. O Governo pretende também aumentar o investimento na investigação para três por cento do PIB – nível considerado desejável pela UE. "Não serei dos que sacrificam a investigação essencial sob pretexto de que ela é improdutiva a curto prazo", justificou, lembrando que França tem vindo a perder terreno nesta área para outros países europeus. A construção de 120 mil habitações sociais por ano, a aposta na formação profissional e um plano para os bairros considerados difíceis foram outras das promessas feitas pelo novo primeiro-ministro na intervenção no Parlamento, durante o qual confirmou que o Governo irá aplicar o princípio da admissão de um único funcionário por cada dois que se reformem.
Naturalmente
"Orçamento do Estado deve deixar de financiar ADSE", defende Jorge Simões, numa entrevista importante publicada no "Público" de ontem. E isto por uma questão de justiça - ou, se quiserem, de equidade -, na linha da argumentação que já havia defendido aqui.
Jorge Simões é o presidente de uma comissão de peritos que produziu recentemente um relatório sobre a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, disponível aqui.
Depois volto a este assunto.
Jorge Simões é o presidente de uma comissão de peritos que produziu recentemente um relatório sobre a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, disponível aqui.
Depois volto a este assunto.
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Monday, July 2, 2007
Parênteses sobre o abandono escolar
Antes de ir ao post sobre o papel da educação numa estratégia de esquerda social-democrata num mundo globalizado, faço um parênteses sobre a questão do abandono escolar, que era afinal de contas o tema do meu artigo no dossiê do "Le Monde Diplomatique" do mês de Junho. Uma das razões pelas quais o abandono escolar me parece ser negligenciado não se deve apenas ao middle class bias que apontei no artigo. No caso de muitos, desconfio que vá mesmo mais fundo: é que convém não esquecer - e a boa memória é importante em política - que, por alturas dos anos 70 (ou seja, há não muito tempo), o abandono escolar era elogiado, mesmo que implicitamente, à esquerda. Abandonar a escola era, afinal de contas, resistir à "educação burguesa", era renunciar à "competição individual", era recusar a "institucionalização na ordem capitalista"; os lads filhos da working class, ao deixarem a escola, ofereciam à esquerda uma espécie de potencial vanguarda revolucionária, retomando a luta que os seus pais haviam renunciado.
A desgraça, claro, é que os lads não só não constituíram força revolucionária nenhuma contra nada (tirando, claro, as mais mediáticas formas de mobilização social destes indivíduos nos anos 80: o hooliganismo nos estádios e nas ruas das cidades inglesas), como foram os que mais fragilizados estavam perante o choque Thatcheriano do início dos anos 80. Sem qualificações e não sindicalizados, foram carne para canhão para as estratégias de desregulação do mercado laboral britânico e para os cortes nas transferências sociais. Pergunto se, entre os que incentivavam o abandono escolar dos would-be revolutionaries, alguém fez um sério mea culpa.
Não me espantaria nada que hoje ainda existisse por aí um resquício deste pensamento. É que se a escola é "capitalista", então é porque não vale muito a pena continuar nela. Daí a encolhermos os ombros perante o fenómeno do abandono escolar, vai um passo. Como diz uma canção popular inglesa: «The music has gone but the melody lingers on».
A desgraça, claro, é que os lads não só não constituíram força revolucionária nenhuma contra nada (tirando, claro, as mais mediáticas formas de mobilização social destes indivíduos nos anos 80: o hooliganismo nos estádios e nas ruas das cidades inglesas), como foram os que mais fragilizados estavam perante o choque Thatcheriano do início dos anos 80. Sem qualificações e não sindicalizados, foram carne para canhão para as estratégias de desregulação do mercado laboral britânico e para os cortes nas transferências sociais. Pergunto se, entre os que incentivavam o abandono escolar dos would-be revolutionaries, alguém fez um sério mea culpa.
Não me espantaria nada que hoje ainda existisse por aí um resquício deste pensamento. É que se a escola é "capitalista", então é porque não vale muito a pena continuar nela. Daí a encolhermos os ombros perante o fenómeno do abandono escolar, vai um passo. Como diz uma canção popular inglesa: «The music has gone but the melody lingers on».
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Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (II)
1. Um dos elementos que veio a debate a certo ponto foi a questão das prioridades: o que interessa estudar e sobre o que interessa intervir. Algumas vozes na audiência alinharam pela posição de que, por exemplo no sector da educação, todas as questões são importantes: as desigualdades no ensino básico, secundário, superior; a questão da transição do ensino superior para o mercado de trabalho, etc. Num certo sentido, não posso discordar; sobretudo quando falamos de um programa académico em torno, por exemplo, das questões da sociologia e da economia da educação, vários objectos merecem atenção simétrica.
No entanto, quando se passa à intervenção política a questão não é assim tão simples (e ela não é assim tão simples na dimensão da investigação, mas deixo isso por agora de lado). Aintervenção política é obrigada a definir prioridades, sob pena de gastar mal os seus recursos, que são por definição finitos: recursos financeiros, humanos, temporais, de credibilidade política, etc. Mesmo que se identifiquem n problemas, não podemos "ir" a todos ao mesmo tempo, com a mesma energia, sob pena de não resolvermos nenhum. Por isso é absolutamente indispensável definir prioridades, dizer "X é importante, sim, mas não tão importante como Y, que precisamos de resolver agora, sob pena de qualquer acção presente ou futura sob X ser infrutífera". Ora, isto, à esquerda, parece ser difícil, porque implica estabelecer uma hierarquia de preocupações. Mas, desculpem este tipo de argumento, só quem está de fora e não tem de gerir os múltiplos recursos acima mencionados - escassos, repito, e por vezes alguns muito escassos mesmo - é que se pode dar ao luxo de dizer que "tudo é importante".
Mas não pode ser: hoje, a prioridade na educação em Portugal é elevar a qualidade no ensino básico, a começar no 1ºciclo, porque é aqui que se começam a construir os alicerces das aprendizagens futuras. Melhor: este alicerces devem começar mais cedo, entre os 0 e os 3 anos, e entre os 3 e os 6 anos. Aqui, ainda há muito por fazer em Portugal.
2. Outro argumento que emergiu a dada altura tocou a questão do TGV, problematizando o dito "modelo de desenvolvimento" do país. Aparentemente, à esquerda este parece uma estratégia antiquada, destinada a manter-nos presos a uma trajectória económica nas baixas qualificações. Devo confessar que este é daquele tipo de críticas que à esquerda me causa profunda confusão (já percebo que a direita se insurja conta o despesismo estatal e esse tipo de coisas); todos critica a (suposta) morte do keynesianismo e da intervenção redistributiva do Estado na economia. Bom, mas o TGV, a Ota e tudo o mais que quiserem meter no saco das obras públicas é o ABC do keynesianismo. O efeito multiplicador de uma obra desta envergadura vai permitir não apenas construir novas vias de ligação intra- e internacionais, mas vai permitir dar emprego a muitas pessoas que dependem deste tipo de actividade pelo país fora, e isto não se cinge, naturalmente, ao trabalho não-qualificado. Quando me dizem "ah, mas isso vai só alimentar o trabalho não-qualificado?", o que me apetece perguntar é: "pronto, então preferem que essas pessoas fiquem todas no desemprego?!". Claro que do ponto de vista do "quanto melhor, pior", isto seria óptimo: o desemprego dispararia ainda mais, e o descontentamento popular também. Os extremos populistas agradeceriam.
Para além do mais, dizer que uma obra desta envergadura colide com o upgrade tecnológico e empresarial da nossa economia não tem razão de ser. Todos os países de Europa muito mais bem armados em infra-estruturas do que Portugal investem recorrentemente em obras deste tipo; podemos discordar de uma opção ou outra, mas isto mostra que nenhum país, mesmo se a sua economia é alimentada pela inovação tecnológica, dispensa constantes investimentos infra-estruturais. E, já agora, convém não esquecer que no orçamento 2007, o único ministério que viu a sua fatia aumentar foi o da Ciência e Tecnologia e do Ensino Superior, e na ordem dos 60%. Se isto não é uma afirmação de uma prioridade política, então não sei o que é.
O fundamental, no futuro, é reduzir a percentagem nacional de trabalhadores que só pode ser empregue em actividades intensivas em mão-de-obra. Isto é absolutamente essencial, para que essas pessoas possam encontrar emprego em actividades menos violentas do ponto de vista físico e mais enriquecedoras do ponto de vista profissional e humano. Para isso, é preciso formar e qualificar, mas isto não chega.
3. A pergunta mais importante que me foi colocada versou sobre o papel da educação na política económica: será que a educação vai resolver todos os problemas futuros, de forma que podemos esquecer as outras alavancas de intervenção económica? Não. Pelo menos, eu não concordo nada com esta estratégia, expressa, por exemplo, no manifesto de 1997 do New Labour - que lhe permitiu ganhar ao fim de 18 anos de governo dos Conservadores -, onde se lê que “education as the best policy as we have”. À esquerda é legítima a dúvida de que isto pode ser uma armadilha. O meu próximo post andará à volta desta questão, mas deixo uma nota: quem ouviu na sexta-feira anterior a esta última, numa sessão aberta ao público, as intervenções de Anthony Giddens (um dos ideólogos da "terceira via" blairista que passou, como se recordarão, por Lisboa) e do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, sobre a globalização, o trabalho e a social-democracia, terá ficado a perceber a diferença entre diferentes estratégias social-democratas num mundo em globalização.
No entanto, quando se passa à intervenção política a questão não é assim tão simples (e ela não é assim tão simples na dimensão da investigação, mas deixo isso por agora de lado). Aintervenção política é obrigada a definir prioridades, sob pena de gastar mal os seus recursos, que são por definição finitos: recursos financeiros, humanos, temporais, de credibilidade política, etc. Mesmo que se identifiquem n problemas, não podemos "ir" a todos ao mesmo tempo, com a mesma energia, sob pena de não resolvermos nenhum. Por isso é absolutamente indispensável definir prioridades, dizer "X é importante, sim, mas não tão importante como Y, que precisamos de resolver agora, sob pena de qualquer acção presente ou futura sob X ser infrutífera". Ora, isto, à esquerda, parece ser difícil, porque implica estabelecer uma hierarquia de preocupações. Mas, desculpem este tipo de argumento, só quem está de fora e não tem de gerir os múltiplos recursos acima mencionados - escassos, repito, e por vezes alguns muito escassos mesmo - é que se pode dar ao luxo de dizer que "tudo é importante".
Mas não pode ser: hoje, a prioridade na educação em Portugal é elevar a qualidade no ensino básico, a começar no 1ºciclo, porque é aqui que se começam a construir os alicerces das aprendizagens futuras. Melhor: este alicerces devem começar mais cedo, entre os 0 e os 3 anos, e entre os 3 e os 6 anos. Aqui, ainda há muito por fazer em Portugal.
2. Outro argumento que emergiu a dada altura tocou a questão do TGV, problematizando o dito "modelo de desenvolvimento" do país. Aparentemente, à esquerda este parece uma estratégia antiquada, destinada a manter-nos presos a uma trajectória económica nas baixas qualificações. Devo confessar que este é daquele tipo de críticas que à esquerda me causa profunda confusão (já percebo que a direita se insurja conta o despesismo estatal e esse tipo de coisas); todos critica a (suposta) morte do keynesianismo e da intervenção redistributiva do Estado na economia. Bom, mas o TGV, a Ota e tudo o mais que quiserem meter no saco das obras públicas é o ABC do keynesianismo. O efeito multiplicador de uma obra desta envergadura vai permitir não apenas construir novas vias de ligação intra- e internacionais, mas vai permitir dar emprego a muitas pessoas que dependem deste tipo de actividade pelo país fora, e isto não se cinge, naturalmente, ao trabalho não-qualificado. Quando me dizem "ah, mas isso vai só alimentar o trabalho não-qualificado?", o que me apetece perguntar é: "pronto, então preferem que essas pessoas fiquem todas no desemprego?!". Claro que do ponto de vista do "quanto melhor, pior", isto seria óptimo: o desemprego dispararia ainda mais, e o descontentamento popular também. Os extremos populistas agradeceriam.
Para além do mais, dizer que uma obra desta envergadura colide com o upgrade tecnológico e empresarial da nossa economia não tem razão de ser. Todos os países de Europa muito mais bem armados em infra-estruturas do que Portugal investem recorrentemente em obras deste tipo; podemos discordar de uma opção ou outra, mas isto mostra que nenhum país, mesmo se a sua economia é alimentada pela inovação tecnológica, dispensa constantes investimentos infra-estruturais. E, já agora, convém não esquecer que no orçamento 2007, o único ministério que viu a sua fatia aumentar foi o da Ciência e Tecnologia e do Ensino Superior, e na ordem dos 60%. Se isto não é uma afirmação de uma prioridade política, então não sei o que é.
O fundamental, no futuro, é reduzir a percentagem nacional de trabalhadores que só pode ser empregue em actividades intensivas em mão-de-obra. Isto é absolutamente essencial, para que essas pessoas possam encontrar emprego em actividades menos violentas do ponto de vista físico e mais enriquecedoras do ponto de vista profissional e humano. Para isso, é preciso formar e qualificar, mas isto não chega.
3. A pergunta mais importante que me foi colocada versou sobre o papel da educação na política económica: será que a educação vai resolver todos os problemas futuros, de forma que podemos esquecer as outras alavancas de intervenção económica? Não. Pelo menos, eu não concordo nada com esta estratégia, expressa, por exemplo, no manifesto de 1997 do New Labour - que lhe permitiu ganhar ao fim de 18 anos de governo dos Conservadores -, onde se lê que “education as the best policy as we have”. À esquerda é legítima a dúvida de que isto pode ser uma armadilha. O meu próximo post andará à volta desta questão, mas deixo uma nota: quem ouviu na sexta-feira anterior a esta última, numa sessão aberta ao público, as intervenções de Anthony Giddens (um dos ideólogos da "terceira via" blairista que passou, como se recordarão, por Lisboa) e do Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, sobre a globalização, o trabalho e a social-democracia, terá ficado a perceber a diferença entre diferentes estratégias social-democratas num mundo em globalização.
Notas sobre o debate do "Le Monde Diplomatique" e outras reflexões (I)
1. Comecei por dizer, de forma provocatória, o que já tinha escrito aqui: que, dado o défice de qualificações da grande maioria dos activos portugueses, a estratégia mais apetecível e fácil, do ponto de vista económico, é assumir que a nossa mão-de-obra deve, num contexto de competição crescentemente global, "vergar-se" aos seus défices de qualificação e produtividade (muito longe da média da UE...), e assumir que a única estratégia possível de desenvolvimento passa pela estagnação (ainda maior) dos salários e uma massiva desregulação do mercado de trabalho, o que abanaria a economia, e obrigando as empresas "incapazes" a abrir falência. O desemprego subiria, sim, mas o ajuste levaria a que as pessoas não tivessem outra alternativa senão ajustar-se às transformações futuras do mercado de trabalho desregulado, aceitando qualquer emprego - hiperflexível, mal remunerado, etc. - num sector de serviços em crescimento. A prazo, o desemprego desceria, sim, mas com um custo brutal de aumento das desigualdades e dualização da sociedade. Esta é a conhecida por estratégia anglo-saxónica, assente em que tudo o que é low: low skills-low wage-low regulation.
Esta não é, obviamente, a única estratégia possível, e não é a estratégia a ser seguida pelo actual Governo. A outra grande alternativa é qualificar a população, recuperando o tempo perdido, e atrair investimento, promovendo a mudança da estrutura ocupacional (que é, em Portugal, ainda muito diferente dos países mais prósperos da UE), e fazendo pequenos ajustes na legislação laboral (quem acha que a discussão actual sobre a "liberalização dos despedimentos", etc., é a expressao do neo-liberalismo, nao faz a mínima ideia do que é um mercado laboral regido pelo dito "neo-liberalismo", e de quão longe estamos dele, e de como a nossa legislação produz situações perversas para os trabalhadores - precisamente aqueles que a lei devia proteger. Mas alguém está disposto a discutir isto seriamente?!). Ainda há muitos avanços a fazer na transformação da nossa estrutura económica em direcção a um modelo cujo motor passe a ser o trabalho qualificado no sectores mais dinâmicos da economia de serviços e do conhecimento. Esta estratégia é, também, mais morosa do que a anterior, e isso é fundamental que as pessoas percebam: porque não implica nenhum "choque", mas um - mesmo que robusto - incrementalismo, ela tem que ser avaliada pelos frutos que permitirá a longo prazo, e pela capacidade que tem de colocar o país numa trajectória de crescimento sustentado. De nada vale a pena crescer um ou dois anos se a estrutura económica do país ficar na mesma e voltarmos aos mesmos problemas logo a seguir. Por isso é preciso esperar. E para esperar é preciso paciência. E para ter paciência é preciso ter confiança: confiança individual, por um lado, e confiança institucional por outro, em particular por parte dos parceiros institucionais que devem levar a sério uma estratégia de desenvolvimento cujo sucesso passa também pelo seu envolvimento activo nela. O clima de constante guerrilha institucional não traz benefícios para ninguém, tirando, claro, os populistas de esquerda ou direita, que verão no aumento do descontentamento generalizado uma oportunidade para aumentarem a sua quota eleitoral, subindo mais uns pontitos percentuais. Nesse sentido, a "estratégia do quanto pior, melhor", que faz parte da tradição política de uma certa esquerda, continua a ter uma actualidade perene.
2. Suponho que as pessoas não tenham gostado da minha redução das estratégias de desenvolvimento a duas opções. É legítimo, mas a incapacidade de propor estratégias alternativas é confrangedora. No campo da esquerda populista, sem qualquer vocação de Governo e que nunca o terá que exercer - o que é um convite à mais pueril irresponsabilidade política -, continua-se a eleger a "iniciativa privada" e a falar da "economia" e das "empresas" como se não vivêssemos numa economia de mercado, como se a maior parte da população não estivesse nela empregada, e como se os serviços que a maior parte dos aderentes da esquerda populista dispôs ao longo da sua vida - escolaridade gratuita ou saúde tendencialmente gratuita, já para não falar das transferências sociais que completam a estrutura do Estado social - não fossem pagos pelo mesmo "mercado". Há alturas em que eu percebo - sem, naturalmente, concordar - a força que o pensamento de direita ganhou em certos círculos, tornando-se verdadeirmante dogmática e anti-esquerda: é com tanta má fé, tanta denegação, tanta incapacidade para olhar certos factos elementares de frente (o que, vindo por vezes de cientistas sociais, me deixa francamente perplexo) tanta incapacidade para perceber como o Estado só tem dinheiro para pagar o que achamos que deve pagar (e que é, tem de ser, finito, e por isso inteligentemente limitado e definido) se conseguir colectar os impostos que derivam dos lucros produzidos pela tal infâme "iniciativa privada", etc. etc., é natural que à direita se ache que a esquerda que não faz mais nada que dizer mal do "mercado", etc., deve ser denunciada de "parasita".
3. Esta forma de não pensar o mundo actual leva a que a esquerda populista, que adora dizer que tudo o resto é de "direita", esteja completamente ausente do debate político concreto, da discussão de ideias para o futuro, da proposta de soluções, etc.. Porque recusa tudo ou quase tudo que se faz (tudo é de "direita") ou porque tudo é um "compromisso" e um "desvio" ("social-democrata" ou outro), esta esquerda entrega, num acto verdadeiramente suicida, o espaço do debate em torno das opções estratégias de policy à direita e à esquerda social-democrata. A sua posição define-se por ser do "contra" o "neo-liberalismo" e o "capitalismo" e etc., sendo que estas categorias, repetidas até à exaustão, funcionam como etiquetas e "marcadores tribais" e nunca como conceitos que devem ser definidos e sujeitos a um "reality check" (o que, repito, quando falamos de cientistas sociais, me parece grave). As eventuais propostas realizadas estão tão longe da realidade e são, na maior parte, e enquanto eventual modelo de desenvolvimento alternativo, tão impossíveis de colocar em prática, que não merecem na maior parte das vezes levadas a sério. E porque não são levadas a sério, não são discutidas por ninguém no espaço público, nem nunca farão parte de nenhum programa político capaz de convencer o eleitorado - o que, em democracia, é, no mínimo, se me é permitida a ironia, um pequenino handicap.
Depois volto a outras questões levantadas no debate e a outras reflexões laterais.
P.S. - Já o disse em resposta ao Carlos Leone na caixa de comentários deste post, mas para que fique claro - e o Renato Carmo chamou-me a atenção para isto, penso que é perfeitamente justo -, a minha saída do Peão nada tem a ver com o que se passou no debate - que, reafirmo, foi cordial e interessante, mesmo que previsível q.b. -, até porque quando falo de "esquerda populista" neste post não me estou a referir a nenhum dos membros activos do Peão. Para quem não restem confusões, era importante esclarecer este ponto.
Esta não é, obviamente, a única estratégia possível, e não é a estratégia a ser seguida pelo actual Governo. A outra grande alternativa é qualificar a população, recuperando o tempo perdido, e atrair investimento, promovendo a mudança da estrutura ocupacional (que é, em Portugal, ainda muito diferente dos países mais prósperos da UE), e fazendo pequenos ajustes na legislação laboral (quem acha que a discussão actual sobre a "liberalização dos despedimentos", etc., é a expressao do neo-liberalismo, nao faz a mínima ideia do que é um mercado laboral regido pelo dito "neo-liberalismo", e de quão longe estamos dele, e de como a nossa legislação produz situações perversas para os trabalhadores - precisamente aqueles que a lei devia proteger. Mas alguém está disposto a discutir isto seriamente?!). Ainda há muitos avanços a fazer na transformação da nossa estrutura económica em direcção a um modelo cujo motor passe a ser o trabalho qualificado no sectores mais dinâmicos da economia de serviços e do conhecimento. Esta estratégia é, também, mais morosa do que a anterior, e isso é fundamental que as pessoas percebam: porque não implica nenhum "choque", mas um - mesmo que robusto - incrementalismo, ela tem que ser avaliada pelos frutos que permitirá a longo prazo, e pela capacidade que tem de colocar o país numa trajectória de crescimento sustentado. De nada vale a pena crescer um ou dois anos se a estrutura económica do país ficar na mesma e voltarmos aos mesmos problemas logo a seguir. Por isso é preciso esperar. E para esperar é preciso paciência. E para ter paciência é preciso ter confiança: confiança individual, por um lado, e confiança institucional por outro, em particular por parte dos parceiros institucionais que devem levar a sério uma estratégia de desenvolvimento cujo sucesso passa também pelo seu envolvimento activo nela. O clima de constante guerrilha institucional não traz benefícios para ninguém, tirando, claro, os populistas de esquerda ou direita, que verão no aumento do descontentamento generalizado uma oportunidade para aumentarem a sua quota eleitoral, subindo mais uns pontitos percentuais. Nesse sentido, a "estratégia do quanto pior, melhor", que faz parte da tradição política de uma certa esquerda, continua a ter uma actualidade perene.
2. Suponho que as pessoas não tenham gostado da minha redução das estratégias de desenvolvimento a duas opções. É legítimo, mas a incapacidade de propor estratégias alternativas é confrangedora. No campo da esquerda populista, sem qualquer vocação de Governo e que nunca o terá que exercer - o que é um convite à mais pueril irresponsabilidade política -, continua-se a eleger a "iniciativa privada" e a falar da "economia" e das "empresas" como se não vivêssemos numa economia de mercado, como se a maior parte da população não estivesse nela empregada, e como se os serviços que a maior parte dos aderentes da esquerda populista dispôs ao longo da sua vida - escolaridade gratuita ou saúde tendencialmente gratuita, já para não falar das transferências sociais que completam a estrutura do Estado social - não fossem pagos pelo mesmo "mercado". Há alturas em que eu percebo - sem, naturalmente, concordar - a força que o pensamento de direita ganhou em certos círculos, tornando-se verdadeirmante dogmática e anti-esquerda: é com tanta má fé, tanta denegação, tanta incapacidade para olhar certos factos elementares de frente (o que, vindo por vezes de cientistas sociais, me deixa francamente perplexo) tanta incapacidade para perceber como o Estado só tem dinheiro para pagar o que achamos que deve pagar (e que é, tem de ser, finito, e por isso inteligentemente limitado e definido) se conseguir colectar os impostos que derivam dos lucros produzidos pela tal infâme "iniciativa privada", etc. etc., é natural que à direita se ache que a esquerda que não faz mais nada que dizer mal do "mercado", etc., deve ser denunciada de "parasita".
3. Esta forma de não pensar o mundo actual leva a que a esquerda populista, que adora dizer que tudo o resto é de "direita", esteja completamente ausente do debate político concreto, da discussão de ideias para o futuro, da proposta de soluções, etc.. Porque recusa tudo ou quase tudo que se faz (tudo é de "direita") ou porque tudo é um "compromisso" e um "desvio" ("social-democrata" ou outro), esta esquerda entrega, num acto verdadeiramente suicida, o espaço do debate em torno das opções estratégias de policy à direita e à esquerda social-democrata. A sua posição define-se por ser do "contra" o "neo-liberalismo" e o "capitalismo" e etc., sendo que estas categorias, repetidas até à exaustão, funcionam como etiquetas e "marcadores tribais" e nunca como conceitos que devem ser definidos e sujeitos a um "reality check" (o que, repito, quando falamos de cientistas sociais, me parece grave). As eventuais propostas realizadas estão tão longe da realidade e são, na maior parte, e enquanto eventual modelo de desenvolvimento alternativo, tão impossíveis de colocar em prática, que não merecem na maior parte das vezes levadas a sério. E porque não são levadas a sério, não são discutidas por ninguém no espaço público, nem nunca farão parte de nenhum programa político capaz de convencer o eleitorado - o que, em democracia, é, no mínimo, se me é permitida a ironia, um pequenino handicap.
Depois volto a outras questões levantadas no debate e a outras reflexões laterais.
P.S. - Já o disse em resposta ao Carlos Leone na caixa de comentários deste post, mas para que fique claro - e o Renato Carmo chamou-me a atenção para isto, penso que é perfeitamente justo -, a minha saída do Peão nada tem a ver com o que se passou no debate - que, reafirmo, foi cordial e interessante, mesmo que previsível q.b. -, até porque quando falo de "esquerda populista" neste post não me estou a referir a nenhum dos membros activos do Peão. Para quem não restem confusões, era importante esclarecer este ponto.
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