Tuesday, December 11, 2007

Agenda


A ler

"Quando o centro vira à esquerda", pelo Pedro Adão e Silva no "Diário Económico" de hoje.

Sunday, December 9, 2007

«Ter ou não sangue nas mãos não pode ser indiferente»

Título do artigo publicado este sábado por José Manuel Fernandes, director do "Público", jornal que publicou dois anúncios de capa inteira durante esta semana, na quarta e na sexta-feira, pagos pelo «meio senil Muammar Kadhafi».

Tudo em nome dos direitos humanos e da «piedade humana», imagino.


O debate continua, mas convinha avançar na identificação dos problemas

Aqui. Começa a ficar claro para mim que o principal inimigo da esquerda não é tanto o neo-liberalismo como o conservadorismo continental que estrutura a economia política de um país como a França (onde boa parte da crítica por cá se inspira), mas também a de países como a Alemanha ou a Itália, e com réplicas parciais nos países mediterrâneos, sendo Portugal um exemplo inequívoco. Por alguma razão é que foi nos três grandes países do Continente que emergiu na década de 90 o 'movimento anti-globalização', e não nos países onde vigora o modelo social-democrata, os nórdicos, que, se num primeiro momento (fim dos anos 80/início dos 90) sofreram um forte embate, recuperaram e aprender as jogar as regras da economia internacional. Por lá, ninguém perdeu muito tempo com o papão da globalização; nos 3 grandes países continentais, faz-se da globalização um monstro, mas o problema é na realidade outro: os desiquilíbrios financeiros existentes assentam em desequilíbrios sociais e laborais fortemente estruturados pelo Estado (e pelos sindicatos), com arranjos institucionais que têm uma face nada progressista na forma como protegem uns e exclui outros. Enquanto não se perceber isto, muito do discurso à esquerda contra o neo-liberalismo (e contra a globalização, em parte) vai continuar, quando os problemas têm a sua origem naquilo nas perversões estruturadas pelo Estado social e pelo mercado laboral. E enquanto não se perceber isto, as críticas vão continuar a falhar o alvo e as prioridades estratégicas vão continuar a ser erradas. Atenção: isto não é um problema de ideologia. É, sobretudo, um problema de análise empírica, de identificação do epicentro do problema. A especulação meta-política e sobre-ideológica aqui só atrapalha; precisamos das ciências sociais para identificarmos o epicentro do problema e as suas ramificações.

Por outras palavras, e de forma mais codificada e redutora, o meu diagnóstico da situação é este: problema maior do que a esquerda que procura reformar a social-democracia ter naturalizado Freedman, Hayek e co., é o problema de uma parte da (velha?) esquerda ter (sem perceber, parece-me) naturalizado Bismarck. Enquanto não exorcizar completamente este espírito, vai continuar a ver alguns fantasmas.

Saturday, December 8, 2007

Friday, December 7, 2007

«La lutte des classes n'est pas entre les bourgeois et les prolétaires, elle est entre les créanciers et les débiteurs»

Vale a pena ler a entrevista de Jacques Marseille no Le Monde sobre a paranóia relativamente à inflação alimentada pelo Banco Central Europeu.

Le don

O João Rodrigues afirmou, simpaticamente, que este blogue é representante de um «liberalismo político de matriz social-democrata». Nunca pensei bem nisto, mas a verdade é que vejo as coisas de forma inversa: prefiro que o liberalismo político seja guiadp pelas preocupações (e dúvidas) sócio-económicas de social-democrata do que o inverso. Se Rawls está ali à direita, está mais na categoria de defensor de uma forma particular de igualitarismo do que pelo seu liberalismo político.

Mas eu não escrevo este post por causa disso. Escrevo para dizer que tudo aquilo que me separa da atitude de alguns à esquerda - e que me levou a escrever isto - me leva a admirar o trabalho realizado pelos Ladrões de Bicicletas, que aliam precisamente aquilo que eu acho que é importante: os contributos das ciencias socias, em particular da economia política institucionalista (se este não for o vosso label preferido avisem :)) com uma reflexão normativa sofisticada e desinibida. O maior erro da uma parte da esquerda foi entregar a análise sócio-económica e a reflexão filosófico-política à direita em nomes da atitude voluntarista de 'resistência' a uma série de coisas do passado - sem saber como esse passado pode ser mantido no presente sem arruinar o futuro.
Nem sempre estou de acordo com eles - por vezes estou mesmo em radical desacordo; a verdade é também não sei tanto como eles sobre uma série de coisas -, mas a seriedade e sofisticação do seu trabalho merece amplo reconhecimento.

If only eu tivesse a energia para escrever à velocidade deles :)

Sobre o "dogma da escola inclusiva"

Lido no 'Público': Paulo Portas denuncia "dogma da escola inclusiva"

A transparência e a honestidade são virtudes. Tiro o chapéu a Paulo Portas por admitir aquilo que, afinal, que toda gente já sabia, mas que é sempre ouvir pela boca do próprio: que o CDS-PP é defensor da segregação escolar oficial. Isto de haver escola pública que é obrigada a aceitar filhos de ricos e pobres e que faça o mais possível para limitar os handicaps culturais de partida dos segundos é efectivamente um drama para alguém que considera que a família é a célula central da sociedade.

Aquilo que eu tenho curiosidade de saber era a opinião da classe docente sobre esta questão. Em 2004, numa sondagem publicada pelo 'Le Monde', 70% dos professores do ensino secundário francês eram da opinião de que o collège unique - um sistema legislado em 1975 mas que demorou cerca de 10 anos a ser implantado ao nível nacional e que unificava as vias até ao fim do secundário inferior, permitindo a criação de fileiras gerais, tecnológicas e profissionais no secundário superior, mas que conferem um baccaulerat no fim do ensino secundário: basicamente, um sistema em tudo semelhante ao nosso (ou nosso ao deles) - era um "fracasso".
Ou seja, a larga maioria dos professores franceses do ensino secundário preferia que a selecção fosse feita mais cedo - como no passado, no fim da primária, ou 1º ciclo do ensino básico -, e que os alunos que chegassem ao secundário, e sobretudo às vias gerais fossem menos socialmente heterogéneos, isto é, mais fáceis de ensinar. O que pensam sobre isto os professores portugueses?

Uma pequena contribuição para o "debate da esquerda"

O Miguel Madeira já tentou reconstituir a ordem cronológica de uma discussão para a qual fui contribuindo de forma muito dispersa em caixas de comentários de outros blogues. Talvez faça sentido dizer algo mais sustentado aqui.

Vou cortar a discussão para afirmar o que me interessa dizer, mesmo que isso diga pouco sobre alguns dos temas que vieram entretanto ao de cima. Estas discussões são sempre tão animadas como frustrantes, e eu chego sempre ao fim a perguntar porque me meto nelas. Mas cá vai: queria escrever alguma coisa sobre um dos que me parece ser um (o?) problema de muitas das coisas escritas à esquerda por gente com qualidade (e até alguma experiência de militância política).

Talvez o problema elementar seja a excessiva ideologização dos pontos de partida, que depois impregna os termos e conteúdos das discussões. É óbvio, por um lado, que não há posição política sem ideologia; por outro, quando esta se resume a um contínuo reshuffle histórico de temas e palavras velhas, e não é disciplinada por outras forças intelectuais, a ideologia torna-se preguiçosa, oca e dogmática, e tem tendência a protelar o uso de significantes que já ninguém conhece muito bem o significado e alimentar lutas fratricidas entre 'puristas' e 'traidores'. Torna-se uma conversa de seita, fechada a quem ela não pertence, sem qualquer relevância para além deste círculo. Pode ser sem dúvida excitante, mas a sua relação com a actividade política que procura ter impacto na vida das pessoas é irrelevante.

Como combater o excesso de ideologia? Num dos comentários que escrevi, propus uma dupla estratégia. Uma abertura da reflexão ao lado da filosofia política, por um lado, e ao lado das ciências sociais, por outro. A filosofia política obriga-nos a pensar as coisas os nossos princípios do princípio, e de forma clara e analítica, enfrentando escolhas morais e intelectuais difíceis (e para isto é preciso seriedade). O que defendemos, afinal? Como hierarquizamos os diferentes valores que queremos defender ou escolher quando estamos perante um dilema? Isto é absolutamente central porque, em primeiro lugar, a esquerda gosta de se dizer defensora da 'liberdade', 'igualdade' e 'fraternidade' ou 'solidariedade', etc. sem que muitos pareçam pensar num minuto que um avanço em direcção a um vértice do triângulo (ou quadrado, ou qualquer que seja a figura geométrica) pode significar a aumentar da distância em relação a outro (por ex., mais igualdade pode significar um decréscimo de liberdade). Em segundo lugar, isto é importante por motivos empíricos: ao contrário do que aconteceu na maior parte da Europa e nos EUA, o Estado deixou de poder prosseguir políticas de expansão em certos sectores-chave (o que não significa necessariamente recuo; pode significar estagnação, estagnação pode muitas vezes significar melhor gestão), e isso significa que há menos recursos para distribuir por mais grupos, alguns mais reivindicativos (ou bem organizados) do que no passado. Menos recursos para mais procura social só pode dar mais descontentamento, e por isso maior necessidade de definirmos os princípios que nos levam a distribuir o recurso A (mais escasso hoje do que no passado) pelo grupo X (e não pelos grupos Y ou Z).

As ciências sociais, não sendo propriamente a "física" das sociedades (coisa que nunca serão), disciplinam a nossa forma de pensar e tentar perceber como o mundo funciona, algo que a reflexão ideológica obviamente abomina (é uma chatice quando o mundo não funciona da forma que queremos). O trabalho na economia, na sociologia, na ciência política, tanto de cariz quantitativo como qualitativo (embora admita a maior centralidade do primeiro), é essencial para as visões mais politizadas do mundo aprenderem a ganhar um pouco de humildade e a saírem do wishful thinking. É essencial também para sabermos a exequibilidade, utilidade e eficácia das políticas públicas. As pessoas elegem representantes políticos para lhe resolverem os problemas - quando acreditam que isso é possível… -, não para andarem a discutir questões sobre o que é, efectivamente, da ordem da "meta-política". E para resolverem os problemas, os intervenientes políticos precisam de saber o que funciona e o que não funciona, o que é inteligente e/ou viável e o que é estúpido/inviável. Dizer que o 'ideologicamente correcto', código genético do qual muitos não parecem conseguir separar-se, pode tantas vezes degenerar nas decisões políticas estapafúrdias é uma banalidade. Ou melhor: devia ser uma banalidade. Ao ler o que muitos escrevem, pergunto-me se alguma vez pensam nisto.

A direita, claro está, percebeu isto há muito tempo. Explorou, ao nível da filosofia política, as avenidas do libertarismo e tirou as devidas consequências ao nível das políticas públicas, do policy mix ideal entre o Estado e o mercado, e mobilizou/estimulou o conhecimento produzido por economistas e cientistas políticos para perceber como funcionavam ou podiam funcionar as instituições para colocar carne empírica no seu esqueleto normativo. Enquanto muitas à esquerda ficaram a gritar contra o “neo-liberalismo” (real ou fantasmagórico), a direita mobilizou princípios e estudos para sustentar e justificar as suas políticas.

Já sei o que alguns vão dizer: para pegar na metáfora usada pelo Zé Neves, que estou a fazer de fiscal-de-linha e a meter uma série de gente fora-de-jogo. A verdade é que é quem acha que este campo tem uma dimensão e regras excessivamente limitadas tem que provar porque é que reflexões “meta-políticas” devem ser levadas a sério por aqueles que, à esquerda, concebem a política como uma actividade cujas intervenções têm como FIM ÚLTIMO E ESSENCIAL resolver os problemas das pessoas e ajudá-las a levar uma existência decente. O ónus recai, efectivamente, sobre essas pessoas e os seus argumentos. O resto pode ser muito interessante, ocupa certamente mentes brilhantes, produz livros que fazem história, gera horas inesquecíveis de discussão, mas, em tempos de urgência política - e há algum que não o seja? - isto é um luxo. Talvez noutros tempos este fosse chamado um luxo burguês. Mas luxo apenas está bastante bem. Quem o pratica ou dele usufrui, não tem que escondê-lo nem ter dele vergonha. Bastaria que pensasse nisso um pouco, e talvez não o fizesse mal assumir.

O resultado deste meu “pragmatismo”, como imagino que muitos digam, não leva ao "fim da política", nem ao "fim da ideologia", nem os chavões do costume. Significa levar várias coisas a sério antes de se começar a pensar de forma adulta sobre política: por exemplo, os constrangimentos colocados pela economia (capitalista ou outra; e convém não esquecer que a escassez é maior no socialismo do que no capitalismo), pela democracia (é uma chatice, isto das pessoas terem que votar ou concordar com as propostas políticas de uns quantos, ou pelo menos eleger alguém com um programa político dado) e uma série de outros direitos que ainda muito gente parece ainda não levar suficientemente a sério (como os direitos de propriedade, que não sendo nem ‘absolutos’ nem’ naturais’ como a direita gosta de dizer, muita gente ainda raciocina como se eles não existissem para a definição de uma estratégia ou de uma política dada). A discussão é tantas vezes tão difícil - nem chega a começar, realmente - porque muitos à esquerda parecem esquecer-se de alguns de alguns "pormenores" que outros take for granted (ou consideram, pelo menos, que não podem ser convenientemente varridos para debaixo do tapete): que certas políticas ideologicamente correctas seriam um desastre económico (que levaria muitos, convenientemente, a culpar pela milésima vez o 'capitalismo' quando deviam culpar a incompetência criminosa de quem lançou as políticas); que seriam impraticáveis numa democracia, em particular num país relativamente próspero, com uma classe média robusta, que coloca o eleitor mediano completamente a leste dos delírios de alguns e que votaria, obviamente, contra (a alternativa, claro, é iniciar uma revolução contra estes eleitores e os outros mais ricos: any candidates? se sim, que ponham o dedo no ar para se saber o que as pessoas, lá no fundo, defendem, era pelo menos mais transparente e honesto); e que seriam altamente dúbias do ponto de vista do respeito mínimo dos direitos de propriedade, e aqui a filosofia política serve precisamente para podermos pensar e justificar o que é que é de um (bens privados), de poucos (club goods), ou de todos (bens públicos).
Ignorar este tipo de constrangimentos - adicionem outros, não quis ser exaustivo – não é ficar, num qualquer lance da partida, e por alguns milímetros, fora-do-jogo; é simplesmente nem sequer entrar no relvado por discordância ou ignorância/negação deliberada das regras da modalidade. Faça-se um esforço para conceber, como escrevi em cima, a política como uma actividade cujas intervenções têm como FIM ÚLTIMO E ESSENCIAL resolver os problemas das pessoas e ajudá-las a levar uma existência decente, e talvez se perceba porque escrevo o que escrevo sobre a estratégia da "negação" (sem querer abusar da psicologia política...). Não pretendo ser paternalista; pretendo apenas constatar o que, pessoalmente, me parece uma evidência.

P.S.- É claro que isto é um exercício estúpido: como se o problema da negação se resolvesse pela discussão racional. Há formas de estar na e pensar política que são modos de vida, e contra modos de vida não há discussão racional que sirva para demonstrar o que quer que seja; por isso ignoram-se os problemas e as questões difíceis para reduzir o choque axiológico e psicológico que mudanças de perspectiva neste plano produziriam. Por isso, muitos só mudam de opinião depois desses choques violentos, por vezes evitáveis, e nunca pela discussão racional.

Wednesday, December 5, 2007

A prova final e irrefutável da 'crise da escola'

Ciência
Os chimpanzés de cinco anos têm melhor memória fotográfica que os estudantes universitários - estudo
2007-12-05, 15h53

Lisboa, 5 Dez (Lisboa) - Os chimpanzés de cinco anos têm melhor memória fotográfica que os estudantes universitários, concluiu um estudo de investigadores da Universidade de Quioto (Japão)publicado na revista "Current Biology".

"Aqui mostramos pela primeira vez que os jovens chimpanzés têm uma extraordinária capacidade para trabalhar com a memória numérica, melhor do que a dos humanos adultos, que foram submetidos às mesmas provas e procedimentos", disse um dos autores do estudo, Tetsuro Matsuzawa.

Nouvelle Vague

Esta sexta-feira na Aula Magna. Aqui a cover de 'Guns of Brixton', dos Clash.

Tuesday, December 4, 2007

PISA, segundo olhar

Saíram os resultados do PISA 2006, e Portugal, como gostam de dizer os media, "chumbou" nos testes relativos às competências (e não "conhecimentos": possuir uma compêtencia implica ser capaz de operacionalizar, possuir um conhecimento significa saber explicar porque é que a operacionalizaçao deve ser feita de uma dada forma; isto não é irrelevante porque há sistemas de ensino e abordagens pedagógicas que privilegiam a aprendizagem primordial de competências e outros a aprendizagem prioritária de competências) em ciências - o foco principal do estudo de 2006 -, leitura, e matemática.


O indicador elementar para a avaliar a performance de um país é a média nacional em relação à média da OCDE (sempre igual a 500). Mas a média é um instrumento enganador. No caso português, é interessante ver como se distribuem os resultados dos alunos por ano de escolaridade que frequentam. O PISA é aplicado a alunos entre os 15 e os 16 anos - independentemente do nível de escolaridade em que estão -, por ser a idade com que se prevê terminarem a escolaridade obrigatória. Se um país, como Portugal, tiver níveis de retenção muito altos, haverá alunos que terão dificuldade em responder a certos exercícios sobre matérias que o teste do PISA espera que o aluno conheça; isto é essencial para perceber os resultados dos alunos portugueses. Vejam os quadros que coloquei abaixo, retirados deste relatório (que os mais interessados devem consultar).



O tamanho das esferas representa a percentagem de alunos dos diferentes anos de escolaridade que responderam ao inquérito (que é representativo da distribuição da população escolar nacional). Veja-se como os alunos do 11º - uma minoria, a esfera é pequeníssima - obtêm excelentes resultados, e como os do 10º ano obtêm sistematicamente uma média razoavelmente superior à da OCDE. O problema está nos alunos que já ficaram retidos, uma, duas, três vezes. São esses que puxam os resultados portugueses para baixo - e puxam mesmo, porque as 3 esferas somadas (relativas ao 7º, 8º e 9º anos) dão uma esfera bem grande.

Atenção: não está em causa o facto de em Portugal o nível de dispersão dos resultados ser grande (noutros países isso também acontece); o que está em causa é que esse nível de dispersão está directamente ligado aos anos de escolaridade frequentado pelos alunos que ficam abaixo da média.

Há duas possíveis conclusões a retirar daqui. A primeira é que, contra todo o senso comum (e conversa habitual do PSD e do CDS), o nosso sistema é selectivo. É muito selectivo. Os alunos que não perderam qualquer ano obtêm muito bons resultados; os que ficaram para trás - e que são por definição prejudicados pelos testes do PISA, desenhados, repito, para alunos ques estejam a terminar a escolaridade obrigatória (15 anos = normalmente 10º ano de escolaridade) - apresentam resultados negativos - alguns confrangedoramente negativos (a maior parte deles talvez quiçá explicados pelo facto de não terem sequer compreendido o que lhes era perguntado, o que também é facil de perceber: não se pode pedir a um aluno do 7º ou 8º ano que perceba uma questão que exige, eventualmente, competências que só aprenderá no 9º ou no 10º). A Finlândia, por exemplo, que surge quase sempre em primeiro lugar nestes estudos, tem um sistema que não selecciona: praticamente todos os estudantes chegam ao final da escolaridade obrigatória sem terem sido retidos uma única vez.

A segunda conclusão possível é que a retenção não serve de praticamente nada em termos de recuperação dos alunos. Enquanto instrumento compensatório das aprendizagens, a retenção é de uma ineficácia extrema. Como instrumento de exclusão de alunos, por outro lado, é de uma eficácia ímpar.

A resposta não é proibir as retenções e deixar tudo como está, permitindo os alunos percorrerem sem problema os anos da escolaridade básica e secundária. A resposta passa por se fazer com eficácia e qualidade cá o que se faz nos outros países que proibiram por via administrativa a retenção. Os finlandeses não são pequenos génios, mas, desde o primeiro momento em que os alunos revelam dificuldades na aprendizagem, são accionados mecanismos de aprendizagem compensatória e de reforço pedagógico que não os deixam ficar para trás. Por cá, estes dispositivos também já existem - chamam-se planos de recuperação e, como mecanismo de reforço de aprendizagem, deviam substituir gradualmente a prática da retenção que é, se se vir bem, um mecanismo facilitista, sim, mas para o professor.

Monday, December 3, 2007

Et voilà

É sempre bom ser alvo de um argumentum ad hominem por parte de alguém do calibre intelectual do Zé Neves. Pena é - e confesso a minha desilusão - que haja pouco para discutir, à parte das minhas funções profissionais e do bias que daqui adviria (que as pessoas possam pensar para além das suas funções profissionais é algo que certas pessoas não percebem: deve ser da "funcionarização da mente" que projectam nos outros). Se o Zé Neves não quis perceber o alcance da minha argumentação aqui, que era um comentário - mas que devia pelos vistos ter transformado em post, agora percebo e faço mea culpa -, é porque a levou para o lado pessoal ou, pior, "psicanalítico" (seja lá o que isso for; se houve alguma coisa que eu não tentei fazer foi psicanalizar ou psicologizar o que quer que seja, mas adiante; se o problema é a questão da "masturbação intelectual", tudo bem, terei pecado por excessiva informalidade - afinal de contas, o Zé Neves fez o favor de mostrar o contexto em que nos conhecemos [como se isso tivesse a mais pequena relevância para o quer que seja], por isso não preciso de repetir -, mas isso não tem nada a ver com a substância do comentário; retire-se isso e o resto mantém-se por inteiro).

O problema é que o Zé Neves me acusa - de não ser capaz de separar o público do privado - daquilo do que ele próprio é incapaz, mas a uma escala, para o debate político, com consequências muito mais negativas. Para o Zé Neves, o cargo das pessoas é sempre mais importante do que as pessoas dizem. Nada disto é novo. Como há uns tempos referi a propósito de outra polémica, há uma esquerda especializada* no uso e abuso da falácia genética, cujo mandamento é mais ou menos assim: "não discutas o que a pessoa diz/escreve, discute de onde ela vem/o que ela faz". É uma espécie de uso pedestre da sociologia do conhecimento.

Eu podia começar a prescrutar o currículo político-académico do Zé Neves, ver as suas clientelas e de quem é ele cliente, se já foi do PCP, se agora é do BE, a mando de quem é que ele escreve, etc., etc., etc.. Não o faço como o nunca o fiz, porque para mim isso não só é o grau zero do debate político (ou outro), como, sobretudo, define quem usa e abusa desses argumentos. Como dizem os sociólogos, esses especializados nessa falsa ciência «a meio caminho entre a futurologia e a demografia» - eu adoro estes argumentos de quem não tem um pé epistemológico em que se aguentar, ou não pretende reivindicar nenhum - quem dessa forma classifica, classifica-se.

Depois com mais tempo tentarei procurar explicar melhor o que quis dizer no comentário em causa, porque ele era, antes de mais, impessoal. E o Zé tem razão quando escreve: «Antes porém, e para desdramatizar, convém dizer que as bocas do Hugo Mendes não configuram um ataque dirigido especialmente contra mim. Um outro qualquer Hugo poderia mandá-las a um outro qualquer Zé». Exactamente, Zé: tivesses levado esta tua frase a sério e tinhas feito melhor figura, terminando o teu post por aí. Há pessoas que enfiam o barrete tão fácil como desnecessariamente.

E se a levasses ainda mais a sério, farias um debate de ideias - e desculpa, mas estão algumas no meu comentário em causa, mesmo que não gostes delas; se discordas, contrapõe com outros argumentos - e não um chorrilho de insultos, que é a única coisa que o teu post contém. A este tipo de coisas, meu caro, eu faço como os adversários do Benfica a cada cruzamento do Luís Filipe: "desses venham mais".

* Felizmente esta esquerda não é toda a esquerda. Dos inúmeros e quentes debates que tive, por exemplo, com o Renato Carmo no Peão ou - em menor número, é certo - com o João Rodrigues nos Ladrões de Bicicletas, nunca nenhum destes dois bloggers, no meio do calor e da violência da discussão, teve a necessidade de dizer que eu trabalhava para X ou falava em voz de Y. Para eles, e para todos aqueles com quem ainda vai sendo possível discutir política a sério, a minha pequena homenagem.

Friday, November 30, 2007

Max Richter

Life chance politics

...ou porque é que a luta contra a pobreza infantil deve ser a primeira prioridade política de luta contra as desigualdades. Quanto mais tarde agirmos sobre elas, mais ineficiente e mais caro será. A pobreza infantil determina em larguíssima medida as oportunidades de vida dos futuros adultos, e isto é resultado de algo profundamente arbitrário: o resultado de se nascer numa família pobre e não numa rica.
Até a direita não-libertária (i.e., aquela que acha que existe mundo para além dos livros de filosofia política que reconfortam a sua predisposição para elevar o egoísmo e a indiferença a nobres ideais morais) concordaria que as crianças não devem ser injustamente prejudicadas por algo - a condição económica da sua família - que não é da sua responsabilidade.

A Fabian Society propõe a ideia/conceito/slogan de life chances como o leitmotiv polític central do terceiro mandato do New Labour, que se propõe acabar com a pobreza infantil no Reino Unido até 2020. Para quem está na cauda da tabela europeia, só suplantada pelos países mediterrânicos, este é uma meta complicada. Mas é provavelmente o melhor investimento que o país pode fazer. E a mesma mensagem serve, ceteris paribus, para Portugal.

P.S. - Uma boa parte deste investimento faz-se através da educação. Por isso é que em vez de, na sua luta contra os NEET (jovens "not in education, employment or training"), em vez de os ameaçar com a ida ao tribunal e respectiva multa (ver post anterior), os jovens deviam ser convencidos e incentivos e não compelidos, sob ameaça, a ficar na escola. Nem que o governo lhes tenha, para isso, que pagar (juntamente com as empresas, por exemplo, se se tratar de estágios). Ninguém disse que o investimento saia barato.

Um caminho perigoso

Queremos mesmo começar a multar os alunos que faltem às aulas durante a escolaridade obrigatória? É nestas coisas que provavelmente a pior face do New Labour, a punitiva, vem ao de cima. Por cá, estas medidas seriam - se o fossem, a este nível - propostas pelo CDS-PP.

Uma questão importante...

...neste post do Zèd. Depois talvez escreva mais longamente sobre isto aqui, a partir do comentário que lá fiz.

Thursday, November 29, 2007

Muito exigente deve ser o nosso ensino, de facto

Lido num take da 'Lusa':

Portugal único país desenvolvido com taxa de repetentes a atingir 10 por cento nos primeiros ciclos - UNESCO

Portugal é o único país desenvolvido onde a taxa de alunos repetentes no primeiro e segundo ciclos atinge os 10 por cento, de acordo com dados da UNESCO divulgados hoje.
Segundo o relatório anual "Educação para todos" da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), um em cada dez alunos portugueses (10,2 por cento) a frequentar a antiga primária e o 2º ciclo chumbaram e estão a repetir o ano de escolaridade.
Em Espanha e na Alemanha estes valores situam-se nos 2,3 e 1,4 por cento, respectivamente, enquanto em países como Finlândia, Grécia, Irlanda e Itália a taxa não atinge sequer um por cento.


Isto é o resultado do que se chama cultura da retenção.

The Vision Thing

Custava assim tanto fazer uma coisa deste género, à esquerda, em Portugal?