Friday, November 30, 2007

Life chance politics

...ou porque é que a luta contra a pobreza infantil deve ser a primeira prioridade política de luta contra as desigualdades. Quanto mais tarde agirmos sobre elas, mais ineficiente e mais caro será. A pobreza infantil determina em larguíssima medida as oportunidades de vida dos futuros adultos, e isto é resultado de algo profundamente arbitrário: o resultado de se nascer numa família pobre e não numa rica.
Até a direita não-libertária (i.e., aquela que acha que existe mundo para além dos livros de filosofia política que reconfortam a sua predisposição para elevar o egoísmo e a indiferença a nobres ideais morais) concordaria que as crianças não devem ser injustamente prejudicadas por algo - a condição económica da sua família - que não é da sua responsabilidade.

A Fabian Society propõe a ideia/conceito/slogan de life chances como o leitmotiv polític central do terceiro mandato do New Labour, que se propõe acabar com a pobreza infantil no Reino Unido até 2020. Para quem está na cauda da tabela europeia, só suplantada pelos países mediterrânicos, este é uma meta complicada. Mas é provavelmente o melhor investimento que o país pode fazer. E a mesma mensagem serve, ceteris paribus, para Portugal.

P.S. - Uma boa parte deste investimento faz-se através da educação. Por isso é que em vez de, na sua luta contra os NEET (jovens "not in education, employment or training"), em vez de os ameaçar com a ida ao tribunal e respectiva multa (ver post anterior), os jovens deviam ser convencidos e incentivos e não compelidos, sob ameaça, a ficar na escola. Nem que o governo lhes tenha, para isso, que pagar (juntamente com as empresas, por exemplo, se se tratar de estágios). Ninguém disse que o investimento saia barato.

Um caminho perigoso

Queremos mesmo começar a multar os alunos que faltem às aulas durante a escolaridade obrigatória? É nestas coisas que provavelmente a pior face do New Labour, a punitiva, vem ao de cima. Por cá, estas medidas seriam - se o fossem, a este nível - propostas pelo CDS-PP.

Uma questão importante...

...neste post do Zèd. Depois talvez escreva mais longamente sobre isto aqui, a partir do comentário que lá fiz.

Thursday, November 29, 2007

Muito exigente deve ser o nosso ensino, de facto

Lido num take da 'Lusa':

Portugal único país desenvolvido com taxa de repetentes a atingir 10 por cento nos primeiros ciclos - UNESCO

Portugal é o único país desenvolvido onde a taxa de alunos repetentes no primeiro e segundo ciclos atinge os 10 por cento, de acordo com dados da UNESCO divulgados hoje.
Segundo o relatório anual "Educação para todos" da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), um em cada dez alunos portugueses (10,2 por cento) a frequentar a antiga primária e o 2º ciclo chumbaram e estão a repetir o ano de escolaridade.
Em Espanha e na Alemanha estes valores situam-se nos 2,3 e 1,4 por cento, respectivamente, enquanto em países como Finlândia, Grécia, Irlanda e Itália a taxa não atinge sequer um por cento.


Isto é o resultado do que se chama cultura da retenção.

The Vision Thing

Custava assim tanto fazer uma coisa deste género, à esquerda, em Portugal?

Calexico / Iron & Wine



O tema chama-se 'He Lays In The Reins', faixa que dá ao título ao EP de 2005. Para saber mais, basta consultar a página dos 'Iron and Wine' aqui.

Tolerância dos cidadãos às desigualdades


Os dados já são antigos, na maioria com cerca de 20 anos, oriundos do International Social Survey Program* (mas as atitudes e opiniões das pessoas não mudam rapidamente nestas questões, e o grau de consistência ao longo de tempo é assinálavel), mas mostram a diferente tolerância das populações de 8 países em relação às desigualdades salariais (a partir da resposta à pergunta «quanto acha é que o ---- devia ganhar?»). A base 100 corresponde ao salário de um operário fabril pouco qualificado. Vemos como em países como a Noruega ou a Suécia a diferença máxima aceitável entre o operário e um gestor de uma grande empresa é inferior a 2 vezes e meia, no EUA as pessoas aceitam que este último ganhe mais de 11 vezes o salário do operário! Dos países europeus, é a Alemanha que mais se aproxima - apesar da enorme distância - da tolerância dos norte-americanos às desigualdades.
* Quadro retirado de Stefan Svallfors, "Worlds of Welfare and Attitudes to Redistribution: A Comparison of Eight Western Nations", in "European Sociological Review", 13 (3), 1997, pp.283-304.

As baixas desigualdades salariais como um bem público

Alemanha
Altos salários de gestores podem pôr em causa paz social - Presidente

2007-11-28, 23h44
Berlim, 28 Nov (Lusa) - O presidente alemão, Horst Koehler, acusou hoje os gestores das grandes empresas do país de estarem a pôr em causa a paz social, ao fazerem com que os seus salários aumentem acima da média dos restantes trabalhadores.
"Existe um sentimento compreensível no seio da sociedade de que qualquer coisa não vai bem quando o rendimento de uns conhece fortes aumentos, enquanto que o dos outros estagna", afirma o chefe de Estado alemão em entrevista a ser publicada quinta-feira no influente diário económico Handelsbatt.
O resultado desta prática, afirma o ex-director do Fundo Monetário Internacional, é "uma alienação crescente entre empresários e sociedade".
Koehler apela a que os accionistas e conselhos de administração assegurem que os gestores "não percam a noção da proporção" nas suas "pretensões salariais".
A Alemanha, afirma, precisa de que os dirigentes empresariais "adoptem uma cultura de moderação e dêem o exemplo" aos restantes quadrantes sociais.
Dados recentemente publicados pelo Ministério do Trabalho alemão indicam que, entre 2000 e 2006, os resultados das empresas aumentaram 42 por cento, enquanto que os salários cresceram apenas 4,5 por cento.

Wednesday, November 28, 2007

E esta?

Argentina
Empresa inaugura fábrica em prisão

2007-11-28, 00h54
Buenos Aires, 28 Nov (Lusa) - Uma empresa argentina inaugurou uma fábrica de processamento de pescado dentro de uma prisão na Argentina e que terá 25 presos como operários, que vão receber salário e todos os benefícios da segurança social.
O projecto é pioneiro no mundo e foi desenvolvido na unidade penal de Batán, próxima da cidade de Mar del Plata, a 420 quilómetros da capital argentina.
A fábrica, que ocupa cerca de 200 metros quadrados dentro da prisão e dá trabalho remunerado, com direito à segurança social, a 25 presos, está, no entanto, projectada para um total de 300, explicou o director do Serviço Penitenciário da região de Buenos Aires, Fernando Díaz.
A empresa Infood S.A., que dinamiza o projecto, é local e indicou que a sua iniciativa tem como objectivo a reinserção dos presos na sociedade e assinalou que a fábrica não funcionará como uma cooperativa mas sim como uma pequena e média empresa.
A construção do espaço também esteve a cargo dos reclusos que receberam pelo trabalho e levou ao investimento por parte da empresa de cerca de cem mil euros.
A selecção dos presos teve como critérios, numa primeira fase, a conduta e, numa segunda, os conhecimentos dos reclusos em relação aos trabalhos que iam desempenhar na fábrica.

Tuesday, November 27, 2007

O regresso dos The Devastations

É o regresso da banda australiana, com o 3º trabalho, 'Yes, U', editado em Setembro passado (que já passou por Lisboa, em Fevereiro passado, no Santiago Alquimista). Aqui fica uma versão ao vivo de um dos temas, 'Rosa'.




Entretanto, ficam na lista de músicas aqui em baixo as faixas do primeiro álbum da banda, intitulado "The Devastations" (2004).

Monday, November 26, 2007

Quadro Europeu de Qualificações: uma revolução silenciosa?

Hoje foi apresentado em Lisboa o Quadro Europeu de Qualificações [QEQ] (texto aprovado pelo Parlamento Europeu aqui). Parece mais um documento chato para entreter os burocratas de Bruxelas, mas não é: é algo que pode, a prazo, causar grandes mudanças na forma como as pessoas organizam a sua vida na Europa. Depois, com mais tempo, escrevo mais sobre isto, mas o QEQ trata-se basicamente de uma grelha de tradução das qualificações obtidas por um cidadão num qualquer país da UE, que sabe que a sua qualificação será reconhecida como válida e como tendo o mesmo valor que tem no país de origem. Claro, Bolonha já fazia isso para o ensino superior, mas o QEQ alarga isto a todas as qualificações de todos os níveis de ensino - e mesmo as obtidas pelo reconhecimento de competências obtidas por via não-formal ou informal.
Foram criados oito níveis de qualificações que pressupõem uma correspondência a um conjunto de 'conhecimentos', 'aptidões' e 'competências' (ver nos 3 quadros).

A prazo, isto pode revolucionar o mercado de trabalho. Ao contrário do que acontece nos EUA (e esta é uma vantagem comparativa pouco lembrada, mas que joga de facto a favor do caso americano ao nível da mobilidade e competitividade interna), onde as barreiras linguisticas e culturais são muito reduzidas e onde a mobilidade profissional das pessoas é ampla, na Europa a situação é muito diferente, e a maioria das pessoas não tem qualquer oportunidade de procurar emprego longe do sítio onde vivei ou obteve alguma qualificação/experiência profissional. Quando muito, a maioria das mudanças dão-se no interior do mesmo país. A criação do QEQ procura mudar um pouco isto.
Do ponto de vista colectivo (e económico), a existência de barreiras à mobilidade do género que existe na Europa não é conducente a uma maior eficácia no uso dos recursos humanos; esta unificação do mercado de qualificações aumenta em teoria, por isso, a competitividade e a qualidade dos produtos e serviços.


Do ponto de vista individual, abre oportunidades a quem queira aventurar-se num outro país sem ter que sofrer uma imediata discriminação ao nível das qualificações de que é portador. Assim, por exemplo, uma pessoa com uma qualificaçao do nível 5 em Portugal é uma pessoa com qualificação do nível 5 na Áustria - se Portugal e Áustria alinharem o seu quadro de qualificações nacional pelo europeu (o que não completamente garantido, dado que o QEQ é de adopção voluntária; mas Bolonha também era e generalizou-se mais ou menos rapidamente; e Portugal é dos países que mais tem feito nos últimos tempos por avançar neste processo, e o Quadro Nacional de Qualificações, já aprovado em Conselho de Ministros, está em discussão pública). Isto, logicamente, reduz as discriminações e, simetricamente, as situações de protecção/privilégio (altamente injustos, porque determinados pelo acaso de uma pessoa nascer no país Y ou Z).

Há outras dimensões muito importantes de todo este processo, que tem que ser compreendido numa lógica de aprendizagem ao longo da vida - devidamente consagrada no 'Programa para a Aprendizagem ao Longo da Vida' (2007-2013) lançado pela presidência alemã no primeiro semestre de 2007, e que corresponde a um real descentrar da escola como único dispositivo institucional onde é possível alguém 'aprender' e 'qualificar-se'. A este fim de um certo 'escolocentrismo' corresponde, em compensação, um ênfase muito maior no que as pessoas sabem fazer ou conhecem (nos resultados), independentemente de onde aprenderam/fizeram o curso (a 'fama' das instituições).

Depois volto a esta temática.
Mas isto são boas notícias. Estão lançadas as bases para que, no futuro, se avaliem progressivamente as pessoas, os seus percursos e as suas capacidades menos em função de características particularistas - que tantas vezes alimentam perversos privilégios de status -, e mais pelo que são capazes e pelo que é universamente reconhecido: um passo em frente naquilo a que os sociólogos chamam 'modernidade'.

Top 5

Ora então para dar seguimento à cadeia (a ordem dos filmes é arbitrária):

Eyes Wide Shut (1999), de Stanley Kubrick
Dogville (2003), de Lars von Trier
A Vida dos Outros (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck
Pallombela Rossa (1989), de Nanni Moretti
Good Bye Lenin (2003), Wolfgang Becker

Tirando o filme de Kubrick, chego à conclusão agora que são filmes bastante políticos. Eyes Wide Shut é uma história fantástica sobre a traição a sobre duplicidade dos desejos e das vidas.

Com pena minha, In the Mood for Love (2000), de Wong Kar Way, fica de fora, mas não há lugar para todos. E Woody Allen e Clint Eastwood e Pedro Almodovar que me desculpem. And so on.

Passo a cadeia aos seguintes blogues:
A Vez do Peão
Timshell
Avesso do Avesso
País do Burro
2 + 2 = 5

Yaach!!

Bem sei que tenho um simpático repto do Mapa do Cais para nomear 5 filmes, imagino que daqueles que levaríamos para uma ilha deserta enquanto o dilúvio final não chega. Mas isso fica para amanhã. Agora é só mesmo para dizer que, depois de ver o bem Lynchiano "Eraserhead" - que estreou faz agora 30 anos e está em exibição no Nimas -, o comentário que assim de repente apetece fazer é que aquela narrativa delirante atinge seriamente qualquer desejo que possa subsistir no espectador de vir a ser pai/mãe.
Depois queixam-se das baixas taxas de fertilidade desta geração.

Perplexidade sociológica de domingo à noite

Será que o movimento europeu de reconhecimento e validação de aprendizagens não-formais e informais, institucionalizado pelo Quadro Europeu das Qualificações - apresentado hoje em Lisboa -, vai acabar com a amplitude empírica do conceito de "conhecimento tácito"?

Wednesday, November 21, 2007

Um par de CDs

Nem quero imaginar o que se diria do "Governo", de "Portugal", dos "portugueses", e do "futuro da nação" e etc. se uma coisa destas acontecesse por cá.

Da superioridade moral do socialismo


Ainda não completamente refeito do impacto desse exquisite documentário que é "Sicko", de Michael Moore - e que merece uma resenha mais alongada mais tarde -, para já só me apetece dizer isto: perante a propaganda produzida nos EUA contra a ideia de um sistema público e universal de saúde (sobre o que isso implicaria em termos da "estatização da medicina", etc.), entre as muitas inverdades e exageros que se dizem/escrevem, há uma coisa que é verdade, sim: um sistema público e universal de saúde é uma construção segundo princípios socialistas, onde vigora o princípio da igualdade independentemente dos rendimentos, qualificações, estatuto social, etc., e onde cada um paga em função das suas possibilidades e recebe cuidados em função das suas necessidades. Perante as situações hediondas que Moore mostra no filme (atenção: em todos os sistemas há situações hediondas - mas há uma enormíssima diferença entre a situação hedionda que viola profundamente os princípios do sistema (e que por isso deve ser corrigida), e a situação hedionda que decorre natural e inevitavelmente desses mesmos princípios), apetece mesmo dizer: não apenas um sistema público e universal concretiza princípios socialistas, como serve de clara demonstração do que noutros tempos se chamava, pomposamente, a "superioridade moral do socialismo". Já não há assim tantas instituições que consigam mostrar isto, mas esta é uma delas.

Tuesday, November 20, 2007

Sobre a política da retenção

Talvez muita gente fique escandalizada por causa disto. Mas convém lembrar que em Portugal é, se os dados comparativos servem para aprender alguma coisa, o país onde mais se usa o instrumento da retenção - que sabemos ser um primeiro passo para o abandono escolar (ver figura, primeira coluna "Taux de retard aux 14 ans", que mede precisamente a percentagem de alunos que nessa idade já repetiram pelo menos um ano - Portugal tem o valor mais elevado dos países europeus em comparação; dados provenientes rede Eurydice, 2003, reproduzidos em Marcel Crahay, Peut-on lutter contre l'échec scolarie?, Bruxelas, De Boeck & Larcier, 3ªedição, 2007, p.45).



Talvez muitos protestem contra a ideia "escandalosa" de promoção automática, mas a verdade é que a promoção automática está institutucionalizada em vários países europeus, em particular nos nórdicos, onde praticamente ninguém fica pelo caminho até ao fim da escolaridade obrigatória (9, 10 ou 11 anos, consoante os países). Estes sistemas não são facilitistas; os seus alunos estão geralmente muito bem classificados nos testes internacionais do PISA. A diferença é que estes sistemas estão organizados de forma a fazer tudo para manter os alunos na escola e recorrer à retenção só em casos excepcionais.

Missão impossível

Carlos Oliveira: Mas e tu? Vês-te do lado da teoria feliz ou do lado moderno, com os desconcertados?
Peter Sloterdijk: Talvez queira o impossível, a modernidade e a felicidade ao mesmo tempo.

in Peter Sloterdijk, Ensaio sobre a Intoxicação Voluntária. Diálogos com Carlos Oliveira, Lisboa, Fenda (2001[original alemão de 1999, tradução de Cristina Peres]), p.39

Monday, November 19, 2007

Blue Monday

Os números de INE hoje publicitados pelo Diário Económico não são nada encorajadores, onde se lê que, de 2005 para cá, «houve uma destruição de 167 mil postos de trabalho com maiores qualificações – dirigentes e quadros superiores, profissionais intelectuais e científicos e técnicos de nível intermédio. Segundo o INE, eram 1,372 milhões de trabalhadores no primeiro trimestre de 2005, mas recuaram para 1,205 milhões no terceiro trimestre deste ano. Uma quebra de 12%, que fez diminuir este tipo de empregos de 27% para 23% do total».

Para quem pretende entrar de vez numa economia pós-industrial assente na inovação tecnológica e organizacional, e no uso intensivo de recursos humanos qualificados, este não é melhor caminho. Vivemos provavelmente os resquícios de uma época em que emprego qualificado estava excessivamente dependente da mão protectora do Estado, que, por questões orçamentais, não pode continuar a agir como no passado. A mudança deste padrão leva tempo, e depende de um ajuste particularmente complicado entre oferta e procura de emprego qualificado – sabendo-se que o investimento do sector privado em áreas onde a inovação tecnológica e/ou organizacional responde a níveis de exigência e requer níveis de enlightenment por parte dos investidores e/ou empregadores que são tudo menos naturais. É que é muito mais difícil montar uma empresa de biomateriais do que um café. A formação em gestão e o apoio do Estado através de programas especiais como objectivo de limitar os poderosos efeitos da incerteza de investimento nestas áreas são essenciais, mas os resultados são aqui tudo menos imediatos.

É importante também saber separar os fenómenos de conjuntura dos mais estruturais. Por exemplo, nos primeiros, se o desemprego entre licenciados subiu, é importante saber há quanto tempo estas pessoas estão desempregadas. Estar no desemprego ao fim de uns meses quando se procura o primeiro emprego é relativamente comum; e convém não menosprezar o efeito Bolonha, que fez com que mais pessoas completassem num curto espaço de tempo os seus cursos mais depressa do que seria previsível no início. No que toca aos segundos, é importante saber em que áreas é que o desemprego (ou a dificuldade de encontrar um primeiro emprego) é mais forte. É bem possível que o país não precise, nem vá precisar no futuro, de tantas pessoas formada em humanidades ou nas áreas eminentemente ligadas ao ensino; o upgrade tecno-económico requer indivíduos com qualificações na área das engenharias e das ciências. Falar de licenciados em abstracto só obscurece o fulcro do problema.

He Lost Control

Control, filme sobre a curta e conturbada existência de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division, está longe de ser uma obra-prima. Há qualquer coisa de trivialmente anti-aurático neste tipo de filmes que contam a história banal daquele que, por detrás da pop star amada por milhões, não deixa de ser um homem banal (ainda por cima, baseados na narrativa de alguém que é tudo menos um personagem neutral - o argumento é construído a partir do livro da sua viúva, Deborah Curtis (representada por Samantha Norton)).

Ian Curtis era um rapaz nascido e educado num pequena cidade perto da Manchester, Macclesfield, terra «grey and miserable», nas suas palavras, que escrevia poemas enquanto adolescente, expressava a sua rebeldia fumando no quarto a ouvir David Bowie e, filho de classe média-baxia - provavelmente filho de um honroso mas pouco qualificado civil servant, a avaliar pela casa, roupas e ethos corporal do pai -, tinha que roubar comprimidos contra a esquizofrenia da casa de banho da casa das velhas do bairro para explorar o mundo das drogas, em vez do LSD e da erva a que os seus mais privilegiados colegas da grammar school teriam acesso. Saiu da escola, casou-se por volta dos 20 anos, e foi trabalhar para um centro de emprego - não deixa de ser cómico o vocalista do Joy Division, qual dedicado street bureaucrat , ajudar os clientes do Estado social a encontrar emprego (o filme é generoso nesse aspecto, porque entre 1976 e 19780 o desemprego explodiu no Reino Unido, e Ian age sempre como se tivesse milhões de empregos para ajudar quem lhe aparecesse pela frente). Um dia, em troca das 400 libras que pede à mulher para alugar um estúdio para gravar o primeiro disco da banda, pergunta se não ela queria ter um filho.

A troca, mesmo que Maussiana, saiu cara a Ian. A sua vida doméstica nunca deixou se ser cinzenta e miserável como Macclesfield, e o nascimento da sua filha tornou tudo pior. E a sua epilepsia, que nunca fez por controlar (sempre ignorou os conselhos médicos), ia-lhe progressivamente retirando o controlo sobre a sua vida - que perdeu por completo quando se envolveu com uma funcionária da embaixada belga em Londres, Annik Honorek (representada pela actriz Maria Alexandra Lara). A partir daqui, é o evoluir trivial de um triângulo amoroso e da correspondente espiral de culpa, isolamento, e self-commiseration.

Uma vez que não conseguiu acabar com o dito triângulo, este acabou por levá-lo a por fim à vida. A 18 de Maio de 1980, na véspera de partir com a banda para a primeira grande digressão pelos EUA, Ian enforca-se, em plena cozinha, com a corda do estendal, onde secava a sua roupa interior. Sem honra nem glamour, Ian Curtis matou-se aos 23 anos.

Ficam as músicas, cujo significado começamos a perceber quando vemos as imagens cinzenta e miserável Macclesfield amarrado a uma cinzenta e miserável vida conjugal. Esta combinação, pelo menos, ajuda bastante a compreender a letra de "Love Will Tear Us Apart".



When routine bites hard, and ambitions are low
And resentment rides high, but emotions won't grow
And we're changing our ways, taking different roads
Then love, love will tear us apart again

Why is the bedroom so cold? You've turned away on your side
Is my timing that flawed - our respect run so dry?
Yet there's still this appeal that we've kept through our lives
Love, love will tear us apart again

You cry out in your sleep - all my failings expose
There's a taste in my mouth, as desperation takes hold
Just that something so good just can't function no more
When love, love will tear us apart again.

Saturday, November 17, 2007

A improbabilidade da comunicação

"Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no facto de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente?"
Michel Foucault

A resposta é óbvia: a comunicação gera entropia. Quanto mais "comunicamos", maior a probabilidade de não nos entendermos, de sermos mal intepretados, de entrarmos no infinito círculo "não era bem isso que eu queria dizer".

Mas é esse o prazer da comunicação: jogar no espaço cinzento da indefinição ontológica do sentido, não apenas para o receptor, mas, e quiçá principalmente - algo tantas vezes esquecido ou subvalorizado -, para o emissor. «Às vezes compreendemos algo / entre a sombra e a sombra», escreve António Ramos Rosa. E muitas vezes a sombra é tanta que não compreendemos coisa nenhuma.

Os prazeres, claro, comportam riscos. Para quem escreve e para quem lê. Mas esse double bind faz parte das regras do jogo. Ou antes: é esse double bind que faz o jogo.

Por isso é que a blogosfera não devia ser tanto visto como um espaço de "comunicação" ou de "expressão". If anything, é um fantástico dispositivo de produção de entropia, uma máquina de fabricação de mal-entendidos. Mas só é enganado quem se deixa sê-lo.

Friday, November 16, 2007

Song

Don’t lie to me please
about anything big, about anything
else. I’d rather know what was destroyed
than have you lie
because that’s more destructive.

Don’t lie about love,
something you feel or something you’d
like to feel. I’d rather
be sad than have you lie
because that’s sadder.

Don’t lie about danger
because I know your fears
and if I don’t trust what I know
you’ll be a stranger
and that’s more dangerous.

Don’t lie to me about sickness,
I’d rather look into that pit
than lose myself in one
of your sweet placations
because I’d lose myself more.

Don’t lie to me about dying
because as long as we’re here
I find that blocked
unsharing of thoughts
worse and much more dead.


Judith Herzberg (1934-)

tradução de Shirley Kaufman e Judith Herzberg,
in But What: Selected Poems (Oberlin College Press, 1998)

Tuesday, November 13, 2007

Diagnósticos para além das polémicas


«Southern European welfare states suffer from many of the same problems as the Continental family - especially in the labour market - but they also have their own specific traits. In Spain, Portugal and Greece and (to a lesser extent) Italy, the welfare state developed later than in northern Europe and has ad to cope with more difficult socio-economic enviroments. Social protection entered the age of permanent austerity on a state of institutional and financial underdevelopment and was beset by internal unbalances. The social transfer systems of these countries have peaks of generosity for certain occupational groups alongside large gaps of protection for certain others. Insiders and outsiders - both in the labour market and more general acess to benefits - are separated by a sharp divide in terms of guarantees and opportunities. The black economy is excessive, posing serious efficieny and equity problems. Public services are still unevenly distributed and, in some cases, insufficient and/or inefficient. These countries have thus been forced into shifting coverage, providing less generous benefits for insiders and - to the extent that budgetary constraints allow it - new benefits and services for the outsiders. The inherent difficulty of doing so is aggravated by a particularly adverse demography: southern European populations (especially those of Italy and Spain) are ageing at one of the fastest rates in the world». (e Portugal não fica muito atrás). (p.157)
Maurizio Ferrera, Anton Hemerijck e Martin Rhodes, "Recasting European welfare states", in Welfare Futures, editado por Stephen Liebfried (2001)

Uma proposta humilde

Já que se lembram de inventar mercados para tudo, até para a poluição, não há ninguém que pense em criar um mercado do sono? As pessoas que têm menos actividade (em sentido lato) e que não precisam de estar tanto tempo acordadas (e provavelmente até gostam bastante de dormir) podiam ceder - em troca de uma compensação monetária, claro está - alguma da energia aos que precisam dela e gostariam de dormir menos. Assim, eu vendia as horas que preciso de dormir - bom, pelo menos algumas - e comprava energia suficiente to carry on.

Podem rir-se. Quando daqui a muitas décadas a inovação tecnológica permitir semelhantes transferencias, vão ver que eu tinha razão. E o capitalismo terá transposto outra fronteira.

Monday, November 12, 2007

Blonde Redhead



Excelentes como cover band dos Interpol na quarta-feira passada, os nova-iorquinos Blonde Redhead, aqui com o single do último álbum com o mesmo nome: "23".

Jobless growth

Lido no "Público":

De acordo com as estimativas divulgadas pela Comissão Europeia na passada sexta-feira, a produtividade nacional - medida como o PIB por pessoa empregada - deverá crescer em 2007 a uma taxa de 1,5 por cento. Este resultado ultrapassa os 1,1 por cento esperados para a zona euro. É necessário recuar até 1999 para encontrar outro período em que a produtividade portuguesa tenha crescido mais rápido do que a dos seus parceiros da moeda única.A explicação para este brilharete não está, na sua maioria, na aceleração do produto em Portugal. O PIB português até volta este ano a crescer bastante menos que a média europeia. O que acontece é que Portugal está a conseguir produzir mais sem que os empregos cresçam ao mesmo ritmo. Isto significa, para além da manutenção de uma taxa de desemprego elevada, um ganho de produtividade de que beneficiam as empresas.

Isto quer dizer que algo de sério vai mal no mercado de trabalho, em particular no que diz respeito à protecção do emprego. Se determinados empregos são hiper-protegidos, quando vem a retoma, os empregadores preferem não contratar ninguém - e fazer os que ainda estão contratados trabalhar ainda mais, ou entao a "contratar" uma máquina. É por isso que o nosso mercado de trabalho nao pode continuar como está, porque assim não vai conseguir absorver desemprego em nenhuma escala decente - partindo do princípio que a retoma do crescimento está para ficar.

Thursday, November 8, 2007

Completely relaxed about people getting filthy rich

Tony Blair factura 341 000 € com algumas horas na China

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebeu 500 mil dólares (341 mil euros) por uma curta deslocação de três horas a um condomínio de luxo na China, noticiou hoje a imprensa estatal chinesa.

Peter Mandelson disse uma vez, numa daquelas frases que traduzem bem o zeitgeist, que o New Labour estava «relaxed about people getting filthy rich». Ora pois.

Depois da tragédia, a farsa

Venezuela
Chávez garante que "nada nem ninguém" travará o seu projecto de socialismo do século XXI
2007-11-08, 16h19

Caracas, 08 Nov (Lusa) - O presidente venezuelano, Hugo Chávez, garantiu hoje que "nada nem ninguém" o fará desviar do seu projecto de instaurar um regime de "socialismo do século XXI" no país, apesar da oposição à reforma constitucional


...que me faz lembrar uma história...

«Hegel remarks somewhere that all great world-historic facts and personages appear, so to speak, twice. He forgot to add: the first time as tragedy, the second time as farce

Karl Marx, The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte (1852)

Sunday, November 4, 2007

Dustin O'Halloran



Piano Solos, Vol.2 (2006)

Friday, November 2, 2007

O aumento de Sarkozy

Parece que Sarkozy resolveu aumentar o seu salário em 140%: de 8400 euros/mês para 19330 euros/mês. O aumento é brutal, é verdade. De qualquer forma, 8400 era um valor ridículo, e 19330 coloca pelo menos a França na linha da norma europeia/internacional, pelo menos no que aos países mais ricos diz respeito (o primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern ganha 25830 euros/mês e é o mais bem pago; G.W.Bush ganha 23000, sensivelmente o mesmo que Angela Merkel; Gordon Brown recebe 22470; Romano Prodi aufere 16370, e Fredrik Reinfeldt , o primeiro-ministro sueco, 13700). Talvez o aumento de Sarkozy caia mal publicamente, ainda por cima em clima de elevada conflitualidade sindical, mas os cargos políticos devem ter salários condignos. Caso contrário, só se atraem os medíocres - e uma política feita por medíocres dificilmente deixa de ser uma política medíocre.

A mesmíssima mensagem vale para Portugal. Um ministro ganha pouco mais de 4000 euros. Um professor auxiliar numa universidade nao ganhará muito menos; e um quadro de topo numa empresa pode ganhar mais, muito mais. Quando assim é, para quê vir para a política e entregar-se a uma missão de serviço público, quando se ganha mal e isso traz imensas chatices, do jornalismo incompetente à oposição demagógica, entre outras irracionalidades inerentes à vida das organizções e instituições?

Literatura quente




A descoberta da pólvora

"Dias difíceis para escolas públicas que são factor de desigualdade", diz o editorial do José Manuel Fernandes.

Obrigado, "Público", porque o resto das pessoas - aquele que nunca entra nas escolas, como o dito director gosta de moralizar sempre que pode - ainda não sabia que as escolas são factor de desigualdade. Estamos gratos por semelhante notícia, porque ainda nunca ninguém da tinha chegado a essa conclusão.

Resta dizer que as regras do sector privado, que o "Público" secretamente elogia, aumentariam ainda mais essa desigualdade e levariam a selecção a níveis estratosféricos. Porque é que José Manuel Fernandes não escreve isso?

Já sei. Se calhar ainda o acusavam de também ter descoberto a pólvora. E só se descobrem coisas como a pólvora uma vez.

The Organ - Sinking Hearts

Wednesday, October 31, 2007

The Organ - Steven Smith

Estes não actuam em Lisboa - não para já. O primeiro álbum dos "The Organ", intitulado 'Grab That Gun', está cheio de óptimas faixas, e eu irei colocar algumas aqui ao longo dos próximos dias. À espera que alguém os tragam para tocar em Portugal.

Tuesday, October 30, 2007

A exigência e a interpretação das estatísticas segundo o "Público"

O "Público" é um jornal muito exigente. Já sabíamos. Muito exigente para consigo e para com os outros. Assim, quando o Ministério da Educação anuncia que «a taxa de insucesso escolar caiu de 32 por cento para 25 por cento, em dois anos» no ensino secundário, o que corresponde ao número mais baixo alguma vez registado em Portugal, o "Público" escreve no título "Insucesso escolar em Portugal baixa sete pontos percentuais mas ainda é de 25 por cento". Ainda! Portanto o que é merece efectivo relevo na notícia nao é o ganho obtido, mas o facto de ainda estarmos atrás dos outros países europeus (que é, como sabemos, uma grande novidade, e é por isso que merece tamanho relevo). Caramba, devia baixado aí para 15% logo, ou valor semelhante. Isso sim, seria uma convergência imediata com as taxas europeias. É o que se chama exigência.

Esta salutar atitude de exigência já havia ficado demonstrada na semana passada, onde - infelizmente não consigo recuperar a notícia no site do "Público" -, em reacção aos resultados de um dos relatórios apresentados na conferência organizada nos passados dias 22 e 23 de Outubro sobre o Plano Nacional de Leitura e que demonstravam que, por comparação com a mesma pergunta que constava num inquérito realizado em 1997, os não-leitores em Portugal (isto é, os que não lêem nenhum tipo de suporte - jornal, revista ou livro), tinham descido de 12% para 5%. O título da notícia (a tal que não consigo encontrar) era qualquer coisa do género: "em 10 anos, os não-leitores apenas desceram 7%".
Bom, se calhar convinha lembrar que ainda existem em Portugal pessoas que não sabem ler. Segundo os dados do INE de 2001, eram 9% os anafabetos no nosso país. Assumindo que algumas destas pessoas, seguramente de idade avançada, podem entretanto ter morrido, teremos de certeza, ainda hoje, mais de 5% da população portuguesa que não sabe ler. Assumamos, por agora, que são 5% - é um número que atiro ao ar, mas é uma estimativa conservadora: o valor bem pode ser superior. Ora, os esforços nos últimos 10 anos dos diferentes governos para levar as pessoas a ler não terão grande efeito sobre aqueles que não sabem ler de todo; se há hoje 5% de anafabetos ainda vivos, e se 5% - de acordo com o mencionado inquérito - são "não-leitores", parece-me simples concluir que é um pouco difícil baixar mais o número de não-leitores; é mesmo impossível que a queda entre 1997 e 2007 seja superior ao "míseros" 7% sublinhados pelo "Público". Provavelmente, foi atingido o tecto da população com capacidades de leitura em Portugal; "só" houve uma queda de 7% porque provavelmente não havia possibilidade de cair mais (fica, naturalmente, em aberto o número de analfabetos em Fevereiro de 2007, altura em que se realizou o inquérito, creio, mas, repito, 5% é um estimativa que muito favorece o "Público" neste caso)!

Mas isto deve ter escapado à exigência e ao rigor do jornal de José Manuel Fernandes. Para ressaltar os nossos endémicos atrasos - por muito que se esteja a trabalhar gradualmente, e com sucesso relativo, para os ultrapassar a médio prazo -, para isso, o jornal está sempre pronto. Se o dono do jornal, Belmiro de Azevedo, ainda tivesse interesses neste constante ataque à escola pública do género a que o "Público" nos habituou, bem como na extensão da rede de oferta privada em progressiva substituição da pública; isto é, se a SONAE tivesse a ambição de se substituir ao Ministério da Educação como maior entidade empregadora de professores, eu até desconfiava de que aqui havia gato. Mas, felizmente, e como acredito pouco em conspirações, devo estar enganado.

Será que o próximo presidente dos EUA terá coragem para acabar com esta idiotice?

A Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou hoje, por esmagadora maioria, uma resolução exigindo o fim do embargo económico imposto pelos EUA a Cuba há mais de quatro décadas. Esta é a 16ª vez desde 1992 que o órgão plenário da ONU, onde estão representados os 192 Estados-membros, aprova uma resolução sobre esta matéria, mas o diploma não tem valor vinculativo.

Uma certa ideia de justiça e de igualdade na educação


«Pour l'école de base, il nous semble devoir réclamer la justice corrective. Usant de dispositifs de discrimination positive et traquant tous les mécanismes par lesquels s'opère le renforcement des inégalités de départ - qu'elles soient d'origine naturelle, sociale ou scolaire - l'école de base, prolongée jusqu'à 15 ans, devrait se donner pour idéal l'égalité des acquis fondamentaux. Le redoublement d'une anné ne devrait être toleré que dans de cas très exceptionnels. Les compétences essentielles étant définies, les enseignants seraient tenus d'en faire acquérir la maîtrise par tous les élèves. Cela ne les dispenserait pas de susciter le développement d'autres compétences qui ne figuraient pas dans la liste des socles».


Marcel Grahay, Une École de Qualité Pour Tous!, Bruxelles, Editions Labor (p.22)

Interpol - The Pace is the Trick

Non-stop: depois de Rufus, no dia 6, os Interpol tocam no Coliseu no dia 7 de Novembro, no regresso a Lisboa depois do 'Super Bock Super Rock' de Julho.

Algumas considerações politicamente incorrectas sobre o "facilitismo" em educação

É muito interessante ler e ouvir o que por aí se escreve e diz em torno da revisão do estatuto do aluno e dos resultados hoje anunciados do ensino secundário. Mas o verdadeiramente extraordinário é a ideologia que leva as pessoas a pensarem que retenção = sinal de rigor, e fazer tudo para manter os alunos integrados na instituição escolar (que implica de facto mais, e não menos trabalho por parte das escolas) = facilitismo.

Mas apetece perguntar: facilitismo para quem? Nas actuais condições, só se fosse facilitismo para o professor, que assim pode sancionar legalmente as dificuldades reveladas por um aluno em vez de o procurar "agarrar", ir "atrás" dele, dar tudo para que este as supere e, se este não aprende de uma forma à primeira, possa aprender de outra à segunda, e aí por diante. Isto, sim, é o contrário do facilitismo. Facilitismo é continuar a manter escancarada a porta do chumbo, a opção exit sem quaisquer problemas acrescidos para quem avalia (a opção exit é como a opção de despedimento fácil e imediato nas empresas sem qualquer problema para quem a decide, ou seja, o patronato; a esquerda acha isto péssimo – eu também -, mas acha que os professores devem poder punir os alunos com a guia de marcha da “retenção” sem qualquer problema, despedindo-os daquela turma/ano. Muito curioso, mas nada de empiricamente extraordinário: como François Dubet gosta de dizer, a classe de professores é tão socialmente progressista como profissionalmente conservadora). Hoje, as tão atacadas ciências da educação - e tantas vezes sem sentido, fruto de tanta ignorância -, mas também a sociologia ou psicologia - outras ciências 'obscuras' para algumas elites - estão fartas de mostrar que a repetição não beneficia o aluno em nada. Em nada. Não são raros os casos em que ele revela saber menos no ano seguinte a ter chumbado do que no ano anterior, mas regularmente não sabe mais. Perdeu um ano, e não ganhou absolutamente nada: a consequência negativa é que ficou para trás com o estigma pessoal e social de que a escola (professores e colegas, tantas vezes nestas fonte de profundo reconhecimento e afirmação identitária) o olha como caso de fracasso. De fracasso em fracasso, claro: sabemos que quanto mais cedo um aluno chumba, maiores são as probabilidades de ele voltar a chumbar, até, pura e simplesmente, se cansar. Até que um dia sai da escola. Ponto final. É isto o "rigor"? Então Portugal, por este critério, é um país extremamente rigoroso. Voilà. Estamos no topo da UE. A nossa escola é tão boa, tão boa, chumba tantos e a um ritmo tão veloz, que deve ser de uma qualidade acima da média.

Quem decide o chumbo não vê a sua vida muito alterada - quando muito, vê-a facilitada, porque passa a ter menos alunos com dificuldades na mesma sala. Que tentação será, não é? Em vez de "puxar" pelo aluno, de o tentar "agarrar", de fazer tudo o que está ao alcance da escola - repito, da escola como colectivo, como instituição socializadora, não como soma de elementos atomizados minding their own business - para o recuperar, para o fazer melhorar (os verdadeiros rankings, os do futuro, vão, espero, poder medir o que se chama "valor acrescentado" que a escola traz ao aluno, independentemente do seu nível de partida - aí veremos se as escolas públicas ficam atrás das privadas), porque não simplesmente deixá-lo estar? Porque não, no limite, deixá-lo reprovar por faltas?

Comparemos agora o que se passa no caso de um médico. Ao contrário do professor, não há aqui escapatória, não há estratégia de exit, não há “retenção” que lhe resolva o problema: ele simplesmente não pode dizer “não” a um doente (idealmente, eu sei - e sobretudo isto só é possível no sector público, porque no privado também se constróem belos rankings 'chutando' os casos complicados para o público). Um médico que revelasse não ter feito tudo o que está ao seu alcance para salvar a vida do doente teria cometido uma grave falha ética e profissional (claro, sabemos que o Sindicato, perdão, a Ordem dos Médicos bem os protege de qualquer ataque à sua "autonomia", pelo que o mundo estará seguramente cheio de erros médicos por sancionar...); porque é que aceitamos que um professor que não faça tudo o que está ao seu alcance para salvar um aluno? Podemos dizer, claro, que um médico salva vidas e um professor não intervém em nenhuma área tão crítica como a clínica. Fair enough. Mas apenas até um certo ponto, se virmos a vida apenas definida de uma perspectiva clínica; porque se adoptarmos uma perspectiva biográfico-profissional, o acto de um professor no sentido de determinar uma repetência pode condicionar ou determinar, em larga medida, o futuro escolar e social de um aluno. Por exemplo, um aluno que chumba no 2º ano do 1ºciclo dificilmente termina o 3º ciclo. Uma decisão nesse momento de o fazer repetir o ano em vez de o fazer passar e investir nele todos os cuidados no ano seguinte para o recuperar para o nível desejado pode ser determinante para a sua vida futura. Aqui pode residir a diferença entre um previsível trajectória de insucesso - e se era previsível ou esperada, então porque não agimos imediatamente sobre ela em vez de esperar que ela aconteça?! - e uma trajectória difícil de luta contra as probabilidades, feita de trabalho e de pequenos sucessos, em direcção um futuro profissional mais decente, construída pelo aluno e pelo(s) professores e escola(s). Não preciso romancear a segunda situação. A diferença de estratégias é claríssima. É entre deixar as disposições inscritas na história das pessoas e das instituições actuarem, ou significa intervirmos sobre essas disposições, e corrigir os seus efeitos perversos e as suas consequências que impendem, lamento recordar, sobre os alunos, e não sobre os professores. As trajectórias escolares, sociais, e biográficas, são path-dependent, ou seja, dependem do percurso tomado no passado, e sobretudo de decisões tomadas em momentos-chave - como bifurcações - que podem fazer a diferença num futuro mais ou menos distante. «Se eu tivesse feito isto ou aquilo...» não é matéria da telenovela nas 9 da noite, é o húmus de todas as frustrações individuais pós-adolescência (e por aí em diante). Não me digam que os professores, como formadores de seres humanos e com o poder institucional que têm ao seu dispor, não têm responsabilidades nesta matéria. Então que a saibam usar.

Aqueles que falam de facilitismo, respondam-me por favor: qual delas é mais fácil, a que literalmente dá menos trabalho? O reprovar por mil e um motivos (o aluno é "isto" ou "aquilo", os pais "não sei que mais", a "turma também não ajuda", etc.) ou fazer o possível, o que está ao alcance da escola para o salvar? A retenção raramente é sinónimo de rigor. A retenção é, essa sim, na maior parte das vezes, sinónimo de facilitismo, sem quaisquer consequências para quem a decide, e com consequências potencialmente negativíssimas para quem recebe a decisão. E esta assimetria pode ser incrivelmente perversa.

Se as pessoas percebessem que as políticas actuais pretendem acabar com este tipo de facilitismo perverso que serve todos menos os alunos, talvez dessem menos ouvidos às desonestidades intelectuais de Paulo Portas e co.. Agora, eu percebo porque é que os professores podem ficar zangados: isto obriga-os a trabalhar mais e ter mais responsabilidades. Porém, isto levanta duas questões. Primeiro, se os professores terão de trabalhar mais - e com eles os estudantes que serão assim "agarrados" e verão como menos óbvia/atractiva a estratégia do abandono -, por que motivo está tudo a falar de maior "facilitismo"? Segundo, e ao contrário do se diz por aí, o maior trabalho e a maior responsabilização são os meios para a credibilização presente e futura da profissão docente. É quando a sociedade olha para os professores como profissionais que dão tudo de si para salvar os alunos que sem a sua ajuda teriam percursos educativos de insucesso constante que ela começará a valorizá-los e atribuir-lhes um reconhecimento que não cai do céu (como não cai a nenhum profissional só por "ser" algo: é preciso justificá-lo; um médico não é respeitado por ser médico; é respeitado por ser bom médico; idem para um juiz, um arquitecto, um engenheiro, etc.), mas deve ser conquistado activamente e actualizado de forma constante (o tempo do professor e do médico venerado pela comunidade pertence ao imaginário do início rural do século XX - com a infelicidade, é verdade, dessa ter sido a nossa realidade até há bem pouco mais de um terço de século).

Deve ser para situações como esta em que as pessoas precisam de mudar completamente o seu olhar sobre um problema que a expressão "revolução copernicana" se aplica. O nosso país está cheio de pretensos "revolucionários", há por aí algum copernicano?

So what?

Anda toda a gente excitada com a questão do referendo ao Tratado. Há? Não há? Devia haver? Até parece que reside aqui uma grande questão política, de facto.

Não há ninguém que faça por aí uma sondagem? Aposto que o "Sim" ganhava de forma absolutamente esmagadora, do género 70% ou mais, até bastante mais. Entre as elites políticas, ficavam todos mais satisfeitos ou convencidos?

Monday, October 29, 2007

Rufus Wainwright - Going to a Town



Dia 6 de Novembro, no Coliseu dos Recreiros. Imperdível.

Going to a Town

I'm going to a town that has already been burnt down
I'm going to a place that has already been disgraced
I'm gonna see some folks who have already been let down
I'm so tired of America

I'm gonna make it up for all of The Sunday Times
I'm gonna make it up for all of the nursery rhymes
They never really seem to want to tell the truth
I'm so tired of you, America

Making my own way home, ain't gonna be alone
I've got a life to lead, America
I've got a life to lead

Tell me, do you really think you go to hell for having loved?
Tell me, enough of thinking everything that you've done is good
I really need to know, after soaking the body of Jesus Christ in blood
I'm so tired of America

I really need to know
I may just never see you again, or might as well
You took advantage of a world that loved you well
I'm going to a town that has already been burnt down
I'm so tired of you, America

Making my own way home, ain't gonna be alone
I've got a life to lead, America
I've got a life to lead
I got a soul to feed
I got a dream to heed
And that's all I need

Making my own way home, ain't gonna be alone
I'm going to a town
That has already been burnt down.

Novas oportunidades

Quem deixou escapar "O Escafandro e a Borboleta" no Ciclo de Cinema Francês (eu nao deixei), tem agora oportunidade de ver no circuito comercial.

Quem deixou escapar no DocLisboa o "Sicko" de Michael Moore (eu deixei), tem também agora a possibilidade de o ver numa sala perto de si.

Agent provocateur

«Education is the inculcation of the incomprehensible into the indifferent by the incompetent».

John Maynard Keynes

Para os que acham que a "classe social" deixou de importar

Riven by class and no social mobility - Britain in 2007

Ten years of Labour rule have failed to create a classless society, according to a Guardian/ICM poll published today. It shows that Britain remains a nation dominated by class division, with a huge majority certain that their social standing determines the way they are judged.
Of those questioned, 89% said they think people are still judged by their class - with almost half saying that it still counts for "a lot". Only 8% think that class does not matter at all in shaping the way people are seen.

Mojave 3 - Breaking the Ice

Sunday, October 28, 2007

O motivo pelo qual este blog está feito um vegetal:

Ou seja, o trabalho na vida real, não na blogosférica, a tentar, como diz o bom do Borgmann, Holding On to Reality.

Tuesday, October 2, 2007

Aquisição de livros

«Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar também o tempo para lê-los, mas na maioria das vezes troca-se a compra dos livros pela aquisição do seu conteúdo»

Arthur Schopenhauer

Friday, September 28, 2007

Presente envenenado?

Ontem:
«(...) Enfin, le socialisme de l’émancipation est le « projet » de DSK, son socialisme du XXIème siècle. N’ayons pas peur des mots. Il s’agit dorénavant d’agir a priori, d’attaquer les inégalités à la racine, avant même qu’elles ne se créent. Cette lutte est fondée sur un principe simple : il faut donner plus à ceux qui ont moins. Donner plus de capital public à ceux qui ont moins de capital social. C’est un grand retour aux services publics que nous proposons : le socialisme de l’émancipation passe par des réformes novatrices en matière d’éducation, de logement, d’urbanisme, de santé. Socialisme de la redistribution, socialisme de la production, socialisme de l’émancipation : voilà les trois piliers sur lesquels DSK veut bâtir la social-démocratie française. Le réformisme de gauche n’est pas condamné à l’accompagnement social du libéralisme. Il peut et doit être un « réformisme radical ». Ses adversaires de la gauche n’ont qu’à bien se tenir !»

Hoje:

Vamos ver como é que DSK, esse "socialista da emancipação", se porta à frente do FMI...Descontando a ironia, já fico contente por DSK não estar em Paris para boicotar a estretégia futura de Ségolène à frente do Partido Socialista Francês.

Beirut de volta



Os Beirut preparam-se para lançar oficialmente o seu novo álbum, "The Flying Club Cup", que será apresentado dia 9 de Outubro. É o regresso do folk cigano de uma banda que constituiu, com "Gulag Orkestar", uma das grandes supresas de 2006. Em cima, a faixa "The Penalty".

Entretanto, ficam na lista de músicas aqui em baixo as faixas do "Gulag Orkestar".

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(clickar para aumentar)

Thursday, September 27, 2007

Résumé

«Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.»


Dorothy Parker (1893 - 1967)

Wednesday, September 26, 2007

A não esquecer


A importância do ensino profissional explicado aos "Velhos do Restelo"

Tenho andado com muito pouco tempo e disponibilidade para escrever, mas às vezes a energia suplementar que engana a escassez do tempo vem das pequenas irritações quotidianas. Se tropeçarmos nos cronistas do costume, é difícil evitá-las. O texto que comecei a escrever acabou por ficar longo, mas as coisas importantes têm de ser bem explicadas.

Ontem Santana Castilho continuou no "Público" a sua saga contra o Ministério da Educação em fascículos (mas será que ele já escreveu sobre mais alguma coisa?). Sobre o programa "Prós e Contras" realizado no passado dia 17 de Setembro na RTP1, o cronista escreve:

«Os cursos técnico-profissionais ocuparam boa parte da discussão. Joaquim Azevedo pôs o dedo na ferida quando os considerou pouco profissionalizantes e menos técnicos e quando alertou para o perigo de não passarem de mero expediente para mascar o insucesso escolar. Que belo trabalho jornalístico poderia ter sido feito, como abertura documental do debate: uma reportagem sobre as instalações e os recursos técnicos das escolas onde são ministrados, os equipamentos e os meios e materiais de ensino postos ao serviço dessa mistificação monumental da propaganda do Governo. Daqui a uns anos, veremos quantos meninos destes cursos arranjaram emprego. Provavelmente tantos quantos os adultos que mudaram de função ou saíram do desemprego depois de terem sido formados no âmbito das Novas Oportunidades.»

A aposta no ensino profissional tem sido uma das bandeiras deste Governo, que tem procurado não apenas alargar a oferta dos cursos no final do ensino básico e no ensino secundário – respondendo a uma procura por parte dos alunos e incentivando-os a ficar na escola, ou, o que vai dar ao mesmo, procurando evitar que eles abandonem a escola sem uma qualificação -, mas sobretudo trazer os cursos profissionais para o interior das escolas secundárias públicas, quando eles, desde a sua criação em 1988-1989, tinham ficado acantonados nas escolas privadas, mas financiados pelo Estado. Na mesa dos participantes do programa estava Joaquim Azevedo, doutorado em Ciências da Educação, actualmente Presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica, ex-Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário em 1992, e Coordenador do recente Debate Nacional de Educação, entre outras coisas (consultar http://www.joaquimazevedo.com/). Joaquim Azevedo é provavelmente a pessoa que mais pensou e escreveu sobre ensino profissional em Portugal, e tem sido um defensor do mesmo, apesar de crítico da forma como o Estado tem tutelado o raio de acção deste tipo de ensino nas escolas profissionais, limitando a sua oferta. Joaquim Azevedo é um defensor do aumento da oferta, mas sempre no sector privado. A título de exemplo, consulte-se o texto que assinou com Joaquim Goes para o famigerado "Compromisso Portugal" na área de educação (que pode ser encontrado aqui em powerpoint), onde a dada altura se lê que devia ser feita a «[p]romoção de forma sistemática e proactiva do reforço da oferta do ensino profissional de cariz não estatal, de maneira a que o número de vagas se aproxime rapidamente da procura latente não satisfeita».

As dúvidas de Joaquim Azevedo são legítimas (explico à frente porquê), mas Santana Castilho, com seu estilo “caceteiro”, mostra que não percebe o objectivo da aposta no ensino profissional.
Em primeiro lugar, é muito importante perceber que o objectivo primeiro de um sistema de ensino profissional não é garantir um emprego imediato, mas sim contribuir para que os jovens cumpram a escolaridade obrigatória - ou seja, o 9º ano - e, se possível, o 12º.
Em segundo lugar, pretende-se melhorar a qualificação da população jovem, na linha de uma política nacional de qualificação e de upgrade do stock colectivo de competências. É que se objectivo fosse combater o desemprego a curto prazo, a melhor alternativa seria deixar os "putos" fora da escola - eles lá acabariam por conseguir os biscates do costume. Ou então, numa linha mais intervencionista (e mais cara), subsidiar esta mão-de-obra barata e desqualificada, pagando às empresas destes ramos (sob a forma de subsídios, benefícios fiscais, etc.) para quem mantenham estes jovens "ocupados". Mas qualquer destas soluções é facilitista, e não leva a lado nenhum, senão à reprodução do problema. Seria uma política de consumo de fundos que são destinados a algo que é um investimento: investimento em capital humano. É, para usar as categorias de Hirschman, a hipótese de exit, não a da voice. É que, nesta linha de (in)acção, estes jovens vão durante toda a vida saber apenas trabalhar na construção civil, ou como bouncers de discotecas, etc. E é precisamente isto que se pretende evitar, seja a nível individual, seja a nível colectivo.
Quando falo política nacional de qualificação e de upgrade massivo do stock colectivo de competências, falo de uma política que não tem nada a ver com soluções mágicas de curto-prazo. Essas, infelizmente, não existem; mais: a curto prazo, o que existe é, aliás, algo bastante mais negro: a tendência para a nossa economia se manter numa situação de equilíbrio de baixas competências, em que empregadores com negócios que exigem mão-de-obra desqualificada atraírem para fora da escola os jovens que assim ficarão sem qualquer qualificação; esta situação é de equilíbrio porque os dois lados alimentam-se mutuamente e dependem um do outro. Nenhum tem um incentivo para sair dele: os empregadores não vêem qualquer ganho em correr o risco para mudar de ramo e exigir mão-de-obra mais qualificada, quiçá mesmo assegurando alguma formação profissional daquela; nem os jovens têm qualquer incentivo, do lado das dinâmicas do funcionamento do mercado de trabalho, para ficar na escola, prosseguir os estudos, e conseguir qualificações. Estamos perante um problema de acção colectiva, uma armadilha sócio-económica, que exige a intervenção do Estado: o que o Estado tem que saber fazer é dar os incentivos correctos para que, de forma coordenada, empregadores e empregados alterem os seus hábitos e transformem aquele que é um círculo vicioso num círculo virtuoso.
O Estado corre dois riscos simétricos quando intervém nestas dinâmicas. Um é ficar demasiado longe e ser incapaz de influenciar as práticas dos empregadores, formando pessoas sem ter em conta as necessidades das empresas, que depois terão dificuldades na inserção concreta no mercado de trabalho. Esta será diagnóstico, em sentido lato, de Joaquim Azevedo, que duvidará da capacidade da escolas secundárias públicas ensinarem aquilo que os jovens precisam de aprender para trabalhar nas empresas. O outro risco é o inverso: o de o Estado ser capturado pelos interesses a curto prazo das empresas, que estão mais interessadas em servir-se dos financiamento e da mão-de-obra barata subsdiada pelo Estado do que numa estratégia de longo prazo de enriquecimento do stock nacional de competências; o Estado só será capaz de conduzir uma estratégia de investinmento/produção de competências enquanto bens públicos (mesmo que impuros) se não se subjugar ao short-termism das empresas, sobretudo quando são pequenas, vivem com a corda na garganta, e não têm capacidade para, elas próprias, garantir formação profissional aos seus trabalhadores de forma contínua e, sobretudo, equitativa (dado que normalmente são sempre os mais qualificados que acabam por ter a oportunidade de aprender coisas novas). A melhor resposta às dúvidas legítimas de Joaquim Azevedo é que se as escolas públicas não sabem fazer tão bem como as escolas profissionais privadas - com a sua experiência acumulada e proximidade em relação às empresas -, então elas podem aprender. A aprendizagem institucional-organizacional é uma capacidade que muitas vezes desprezamos, mas que é perfeitamente exequível, nas condições correctas e com os recursos humanos adequados. Mais: o facto de envolver o sector público tem mais duas vantagens potenciais: uma real, outra simbólica. A real: permite ensinar os jovens conteúdos mais generalistas e mais importantes para a sua formação a média prazo, não inteira e directamente subjugados às necessidades das empresas. Assim, o sistema sueco de vocational training funciona desta forma - isto é, é estatal - e capacita os jovens de conhecimento generalistas o suficiente para nao os circunscrever a um universo de competências excessivamente fechado e de difícil evolução/actualização. A simbólica: o facto de o ensino privado ter o monopólio do ensino profissional criava uma fronteira perversa, como se a escola pública estivesse deliberadamente desinteressada e alienada do mundo real do emprego, e como se só o ensino privado fosse capaz de compreender as dinâmicas e necessidades das empresas. Na medida em que isto se passa na realidade, isto necessita de ser mudado. Simbolicamente, esta divisão é perversa, e é preciso neutralizá-la.

Mas há uma terceira linha de acção em toda esta estratégia política, para além do objectivo de cumprimento da escolaridade obrigatória e de construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem. É o de fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais, e este é o mais difícil, porque se trata de construir instituições duráveis e não apenas lançar medidas de política. Aqui se percebe como a expectativa fácil de que o ensino profissional vai aumentar/facilitar, automaticamente, o emprego dos mais jovens é infundada, e a crítica nela baseada demagógica. O ensino profissional tem esse potencial, sim, se o policy mix for o correcto. Se isto fosse assim tão fácil, os países com tradição de ensino profissional - regra geral, o da Europa Continental e do Norte - teriam níveis de desemprego sistematicamente mais baixos que os que não apostam no desenvolvimento destes sistemas - regra geral, os de tradição anglo-saxónica. Mas isto não é verdade, porque as variáveis em jogo são imensas: uns têm desemprego relativamente baixo (os nórdicos), outro relativamente alto (os continentais, com o pormenor de a Alemanha ter um desemprego nas idades mais baixas inferior ao dos mais trabalhadores velhos, o que mostra a eficácia do seu sistema de estágios nas escolas e empresas, o conhecido por dual-system gerido pelas empresas e pelos sindicatos, quase sem intervenção directa do Estado). O que o ensino profissional pode fazer é tornar funcional um espaço institucional de mediação entre os interesses públicos e privados, e entre estes, entre o capital e o trabalho, alimentando relações de confiança e cooperação entre todos os actores colectivos, e que permitam pensar em estratégia de longo prazo de formação/actualização de competências, modernização tecnológica, e construção/maturação de instituições do mercado de trabalho que fujam às regras que governam as transacções mercantis. Para isso acontecer, os actores colectivos têm de capacidade de organização, de representação e de intervenção sistemática. É isso que faz o força dos sistemas onde as relações corporatistas se mantiveram fortes, mesmo nos anos 90 de "revolta" do capital contra as regras de negociação colectiva em vários países (e, simetricamente, é isso que faz a fraqueza de Portugal); e é isso que pode criar mecanismos de absorção eficiente dos jovens moderada qualificados no mercado de trabalho, assegurando baixas de taxas de desemprego. Mas este desemprego jovem baixo é efeito do sistema de negociação laboral, não directamente do ensino profissional - embora este seja uma peça importante do puzzle.

Portanto, repita-se as vezes que forem necessárias que o objectivo não é arranjar emprego a todo o custo; na nossa flexível economia informal, os jovens arranjá-lo-iam, muito provavelmente, do pé para a mão. O objectivo triplo, a ritmos diferentes, passa, antes, por garantir o cumprimento da escolaridade obrigatória + construção uma política nacional de aumento da qualificações da população jovem + fortelecimento dos laços de cooperação e negociação construtiva entre o Estado, as escolas, as associações patronais e as associações sindicais. Isto demora tempo, exige competência e persistência dos agentes estatais, bem como a cooperação patronal e sindical na construção de laços de negociação conjunta dos problemas. Não se pede a empregadores ou a sindicalistas que sejam altruístas; apela-se apenas a essa atitude que dá pelo nome feliz de enlightened self-interest.

No fim disto tudo, conclui-se que, pelo menos, se percebe perfeitamente o fundamento do cepticismo de Joaquim Azevedo: este é legítimo, porque tem um justificação técnica e ideológica, e, gostemos delas ou não, tem medidas de politica alternativas. Podemos discordar, mas é uma opção séria - é a opção de quem não quer "Estado a mais" na ligação entre a educação e o sector empresarial; é a opção do PSD. Do outro lado, o que é que tem Santana Castilho senão aquela razão cínica que sempre acompanha os "Velhos do Restelo"?

Tuesday, September 25, 2007

«Nous aimerions chacun ne pas survivre à la mort de l'autre»

Le philosophe André Gorz s'est suicidé avec sa femme
Não há nada como acordar com uma notícia destas...André Gorz, em tempos muito próximo de Sartre (que conheceu em 1946 e que o levou para a equipa da Temps Modernes), era dos mais interessantes filósofos franceses da actualidade, e os seus livros sobre a relação entre a ecologia e o socialismo depois do fim da ligação umbilical deste à figura do proletariado, e o trabalho, tema a que se dedicou a partir de meados dos anos 80, merecem ainda hoje atenção - mesmo discordando de muitas das suas reflexões e propostas, que acabaram por alimentar o debate, há cerca de uma década, em torno do "fim do trabalho". Aliás, é justo que Gorz seja conhecido como "filósofo do trabalho", uma categoria rara mas central nos dias de hoje. L'Immateriel. Connaissance, valeur et capital, que penso ser o seu último trabalho sobre estas questões, é um excelente ensaio sobre o valor do conhecimento nestes tempos de "capitalismo cognitivo" - cuja tese sustenta, contra-intuitivamente, e pour aller vite, que não é o capitalismo que acaba com a ciência, mas a ciência que acaba com o capitalismo.
A única forma interessante hoje de ser anti-capitalista é sê-lo com sofisticação, humildade e sentido da realidade - e o trabalho de Gorz, crítico incansável do mundo actual, exalava estas qualidades.

Como muitos grandes filósofos franceses, preferiu morrer a esperar pela morte - e fê-lo com Dorine, a quem dedicou o seu último livro, em 2006, Lettre à D. Histoire d'un amour. Numa recensão do livro no LIbération, Jean-Baptiste Marongiu e Frédérique Roussel escreviam que as primeiras frases da obra «contiennent le mystère de la rencontre pérenne entre un homme et une femme», e uma «promesse d'infini».
Voilà: promessa de infinito, pois então. «Nous naissons plusieurs mais on meurt seul, a écrit quelqu'un», recorda Gorz nessa obra premonitória. Decidiu não morrer só, mas com a mulher com quem partilhou cerca de meio século de existência. Afinal de contas, o suicídio é também expressão de "autonomia" - um dos seus ideais preferidos de Gorz, e que sustentava toda a sua crítica não apenas do capitalismo, mas da existência tout court.

Tuesday, September 11, 2007

A reinvenção da roda

Não gosto de perder muito tempo a falar da incapacidade política - da policy, não da politics - do PSD, mas às vezes não há mesmo como resistir, tal o ridículo da situação.
Assim, Marques Mendes acha que, na área da educação, o Governo faz «propaganda» a mais e toma «medidas» a menos. Não vale a pena perguntar o que fizeram os últimos Governos do PSD nesta área que tenham alterado efectivamente as tendência de longo curso do sistema, em particular no abandono escolar - esse grande e milagroso «conjunto de medidas» que o Governo actual não toma por «falta de coragem».
Resta saber se Marques Mendes sabe que medidas estão em curso. É muito provável que não. Se assim fosse, não procuraria reinventar a roda, afirmando que o que era mesmo necesário para combater o abandono escolar «era introduzir o ensino profissional a sério nas escolas». Ena. A sério????? Isto sim, é que é fazer oposição.

Mesmo com a espalhafatosa propaganda socialista em acção, o dr. Marques Mendes parece não saber o que está a ser feito. A eficácia da propaganda já não é o que era.

Sunday, September 9, 2007

A pobreza do - de um certo - criticismo

Porque é que tantas pessoas têm uma tão grande dificuldade em fugir à falácia genética?

Thursday, September 6, 2007

Não é moeda ao ar, é saber ler os indicadores

Caro Filipe, as coisas estão explicadas aqui. E o DN já assumiu o erro.

Tuesday, September 4, 2007

Chamar-lhe-ão "meritocracia"?

"A remuneração média de cada membro de conselho de administração das empresas cotadas na bolsa [portuguesa] representa 31,5 mil euros/mês e uma grande parte (..) foram aumentados sessenta vezes mais que um trabalhador comum..."

António Vilarigues, PÚBLICO, 03-09-2007

À atenção da esquerda: sobre o futuro dos serviços públicos

Editado por Patrick Diamond e pelo Public Service Reform Group, Londres, Politico's Publishing, 2007

Salários


Números para fazer pensar...

Smart season


Ainda dizem que o Verão é a silly season. Depois de Luís Filipe Vieira ter tido a coragem de ter mandado Fernando Santos para o sítio de onde nunca devia ter saído - isto é, da Grécia - e ter mandado Camacho regressar, já posso de bom grado sentar-me novamente no terceiro anel do Estádio da Luz.

Rentrée



Este blogue esteve de férias, está na hora de regressar, aqui com Patrick Wolf, o tema é "Overture", ao vivo no Bowery Ballroom, em Nova Iorque, em Maio passado.

Wednesday, July 25, 2007

Policy vs. politics

A imprensa e a oposição à direita - em particular o PSD - vivem cada vez mais da exploração dos casos - uns delicados, outros apenas exagero desmesurado - do que os anglo-saxónicos, sabiamente, afirmam pertencer ao domínio da politics, o da luta política quotidiana, onde vale mais ou menos tudo. A policy, essa, o espaço das orientações e objectivos estratégicos da política, fica sempre para segundo plano. Isto não é necessariamente estranho nem totalmente negativo: o que se faz - e como se faz - no dia-a-dia conta, e a pressão mediática tem destas coisas. Chama-se, afinal de contas, democracia. Mas convém não perder de vista o domínio da policy, sob pena de toda a discussão ficarmos reféns do que, sem termos presente um sentido do objectivo e do significado real da política, pode acabar na mais decadente intriga.

Wednesday, July 18, 2007

Os loucos anos 90 III



Os Pulp - also known as the most sociologically-minded-band-of-the-1990's-post-Thatcherist-Britain - com 'Common People', do álbum "Different Class" (1995).

Tuesday, July 17, 2007

Férias à vista













Um dos pontos de passagem previstos: Auschwitz

Monday, July 16, 2007

Michael Moore e a CNN

O João Caetano chamou-me a atenção - e bem - por e-mail para o "debate" em curso entre a CNN e o Michael Moore no seguimento da reportagem e da entrevista a que aludi aqui. A CNN corrige algumas estatísticas usadas por Moore, e ainda bem.
Simplesmente, a questão central do debate não é essa. A dimensão e o significado político - e se quiserem, ideológico e moral - da discussão não se resolve com hiper-preciosismos estatísticos. Este só é necessário quando as disputas são too close to call. Mas, no caso em questão, saber se os EUA estão uns lugares acima ou abaixo nas tabelas internacionais ou se, em comparação com os outros países, gasta, per capita, umas centenas de dólares a mais ou menos em saúde não é de todo o que está em causa. O excesso de zelo estatístico não resolve o problema gravíssimo de um sistema que, como já havia escrito aqui, é incapaz de proteger uma parte muito significativa da população (46,6 milhões segundo dados de 2005, ou seja, 16% da população - sem dúvida aquela que mais precisaria de cuidados de saúde), já para não falar da cobertura incipiente de muitos. Para além dos 46 milhões acima referidos, estima-se que 37 milhões estão sem seguro largos durante períodos de tempo (dado que os seguros estão tipicamente attached aos empregos, quando se perde o emprego perde-se também o seguro de saúde), já para não falar daqueles que estão underinsured, uma vez que seguro de que dispõem é altamente limitado nos serviços e medicamentos que cobre.
Podíamos estar a discutir se são, de facto, 37 milhões ou 36 milhões, ou se o número mais correcto é 16% ou 15% ou se....O problema está lá e, sobretudo, está a agudizar-se. A CNN pode ter pontual razão estatística; Moore (de quem não sou grande fã) tem razão política - e, se quiserem, moral.

Independência já!

O presidente do Governo Regional da Madeira, que suspendeu a aplicação na região da lei que despenaliza o aborto, considerou hoje que é Portugal «quem está na ilegalidade», por aplicar uma lei que não respeita o direito à vida.«Na minha formação política, primeiro estão os grandes princípios da defesa da pessoa humana e só depois está o positivismo da lei escrita», declarou.

Alguém pode explicar ao dr.Alberto João Jardim a diferença entre um Estado de Direito e um Estado "Moral"?
Cada vez que oiço/leio este criatura dizer estas cretinices, eu pergunto onde está o PSD. Aceitar calado - como se João Jardim fosse uma espécie de político freelancer, sem responsabilidades institucionais e partidárias - estas coisas é mais grave do que ter ficado em 3º nas eleições intercalares de Lisboa (coisa que origina logo a marcação de um congresso); é um continuado péssimo serviço que um partido como o PSD presta à qualidade da democracia e das instituições política portuguesas.
Se um dia oferecerem a independência ao dr.Jardim - coisa que pessaolmente não me importava nada - eu queria ver contra quem iria disparar o seu irresponsável discurso "anti-colonial". Politicamente falando, a Madeira continua mais perto da América Latina do que do "Contenente".

Worth every penny

IVG vai custar ao Estado pelo menos 5,8 milhões de euros por ano.

Literatura de Verão

Para ler até a adormecer ao sol.

Lisboa

A esquerda, no grande arco que vai do PCTP/MRPP ao PS, obteve cerca de 57% dos votos nas eleições intercalares de ontem em Lisboa. Continua, portanto, a ser uma cidade que vota predominantemente à esquerda. E, porém, se o PSD não estivesse partido ao meio, dividido entre as candidaturas de Carmona Rodrigues e Fernando Negrão, talvez tivesse ganho (os seus votos somam quase 32,5% dos votos, mais 3% do que a candidatura de António Costa). O que à direita é uma excepção é à esquerda a regra. Podíamos ter pago caro - se é que não o vamos pagar na governação de uma câmara dificilmente governável, em função dos mandatos atribuídos. Vamos ver se alguns conseguem ir para além da política do "bate pé".

Os loucos anos 90 II



Peter Murphy, com "A Strange Kind of Love" (1990).

Love is a fire

«Love is a fire
It burns everyone
It desfigures everyone
It is the world's excuse
for being ugly».

Leonard Cohen,
in "Poemas e Canções". Vol.I (original de 1993; versão portuguesa editada pela Relógio d'Água, com tradução de Margarida Vale do Gato e Manuel Alberto)

Thursday, July 12, 2007

"Sicko", Michael Moore, a CNN e o papão da "socialized medicine"

Vale mesmo a pena perder aí um quarto de hora a ver estas peças televisivas que o Daniel Oliveira colocou aqui, bem como o seu comentário. Aquela peça da CNN sobre o novo filme de Michael Moore, "Sicko", é má demais. Independentemente da qualidade do filme de Moore (mas a realidade que retrata, relativa ao sistema de saúde norte-americano, é razoavelmente consensual), nada justifica semelhante jornalismo rasteiro. Se estes são os "padrões de jornalismo de qualidade mundial" da CNN, então estamos conversados.

Wednesday, July 11, 2007

Monday, July 9, 2007

Futebol, ano 0

Há muitos anos, as coisas do mercado de transferência futebolístico levaram Ronaldo, que jogava então no PSV Endhoven, a assinar pelo FCBarcelona. Muito por culpa disso, 1995/1996 é o ano futebolístico de que tenho mais saudades. Ronaldo parecia um jogador do outro mundo, sistematicamente mais forte, mais rápido e mais habilidoso do que os 3 ou 4 jogadores que o circundavam e o abordavam no limite da violência. Depois daquilo, não tenho grande pena de não ter visto Pelé, Eusébio e companhia a jogar ao vivo.

Depois Ronaldo foi na cantiga das liras e trocou o Barcelona pelo futebol italiano. Foi uma pena. O catenaccio foi acabando com as suas pernas e o Barcelona sentiu a sua perda. Pior, mesmo, só o impacto sobre os adeptos que ainda guardam na memória as emoções que aquele ano - e em particular aquele mágico 5-4 contra o Atlético de Madrid na Taça do Rei - proporcionou.

Bom, mas 2007/2008 promete muito. É que Thierry Henry, que é provavelmente o melhor jogador mundo, deixou finalmente o Arsenal para se transferir para, claro, o FCBarcelona. Digo finalmente porque, apesar de o Arsenal ser o clube inglês de que mais gosto, Henry merecia um clube melhor. Como melhor jogador do mundo, já merecia estar naquele que é provavelmente o melhor clube do mundo.

Restam-lhe provavelmente ainda mais 2 anos com a mesma capacidade atlética. É tempo suficiente para fazer muitas das coisas que podem encontrar no video seguinte.