Monday, January 14, 2008

Irrational exuberance

Boa parte da prosperidade dos últimos anos das famílias americanas assentou na valorização da propriedade imobiliária. A irrational exuberance dos bancos - que passaram a emprestar dinheiro de forma cada vez menos criteriosa - alimenta a dos consumidores - que exploraram a subida do valor da propriedade e a criativa engenharia financeira permitida pelas entidades credoras para se endividarem ainda mais -, levando, quase inevitavelmente, à criação de uma bolha. Isto é o que acontece quando a bolha rebenta.

Entretanto, em Espanha...

...Há eleições legislativas no início de Março. Uma sondagem recente atribui uma vantagem de 3% ao PSOE, ainda que o PP tenha recuperado 2,5% em relação ao mês de Dezembro.

Sunday, January 13, 2008

O Partido Conservador Português

A atitude do PCP em relação ao programa Novas Oportunidades tem sido verdadeiramente extraordinária. Ninguém fica espantado quando as críticas do “facilitismo por defeito” têm origem nos partidos da direita, mas quando o cepticismo e a má fé em doses industriais é oriunda do PCP, não deixa de ser elucidativo.
As mesmas operárias e operários fabris e empregadas e empregados de serviços que o PCP vê como “explorados” no lugar de trabalho e obviamente merecedores de um imediato aumento de salários e de outros benefícios laborais e sociais, quando abandonam o lugar de trabalho e entram no Centro Novas Oportunidades em que estão inscritos, deixam o seu estatuto de oprimidos e passam a ser alvos de um programa “facilitista” e da propaganda governamental. O PCP passa então a raciocinar exactamente da mesma forma que o desumano e egoísta patrão que está militantemente contra todo o tipo de “facilitismos” que enviem “sinais errados” aos trabalhadores, e que acha logicamente que qualquer aumento de salários deve ser “merecido”. O PCP está a favor da redistribuição salarial sem olhar a consequências, mas contra a redistribuição de diplomas e o reconhecimento das competências profissionais dos cidadãos/trabalhadores. O PCP, através da sua linha avançada conhecida por FENPROF, acha um “ataque” inconcebível que alguém possa sequer questionar a qualidade e fiabilidade do trabalho dos professores do ensino básico e secundário, mas não tem problemas em desprezar a seriedade do trabalho dos que levam a cabo os processos de reconhecimento, validação e certificação de competências dos cidadãos/trabalhadores. Os primeiros são intocáveis; os segundos são, provavelmente, uns aldrabões.
O PCP é, obviamente, o Partido Conservador Português.

«She sends her regards...»

Thursday, January 10, 2008

Electoral Compass USA

Deu Edwards.

Agora completo:

Your position in comparison with the candidates.You have responded to 36 propositions. Based on the responses you provided, you are the closest toJohn Edwards and you are the furthest away from Fred Thompson

John Edwards
You are 3% economic left
You are equally social-liberal as social-conservative
You have a substantive agreement of 71%

Hillary Clinton
You are 2% economic right
You are 5% more progressive
You have a substantive agreement of 76%

Bill Richardson
You are 2% economic left
You are 5% more progressive
You have a substantive agreement of 71%

Barack Obama
You are 8% economic left
You are 11% more traditional
You have a substantive agreement of 76%

Ron Paul
You are 52% economic left
You are 21% more progressive
You have a substantive agreement of 49%

Rudy Giuliani
You are 56% economic left
You are 40% more progressive
You have a substantive agreement of 44%

John McCain
You are 48% economic left
You are 54% more progressive
You have a substantive agreement of 44%

Mitt Romney
You are 58% economic left
You are 54% more progressive
You have a substantive agreement of 42%

Mike Huckabee
You are 53% economic left
You are 60% more progressive
You have a substantive agreement of 39%

Fred Thompson
You are 56% economic left
You are 69% more progressive
You have a substantive agreement of 35%

Ainda o Estado social a nível internacional


O Nuno Teles faz menção a um post que eu escrevi há já umas semanas sobre a questão do globalização, da Europa e do estado social. Coloco este quadro (retirado deste artigo:
"Globalisation, Domestic Politics, and Welfare State Retrenchment in Capitalist Democracies", de Duane Swank, publicado na Social Policy & Society 4:2, 183–195, 2005)
para complementar a resposta que já dei ao seu post.
Vemos aqui medidos os níveis de protecção social em diferentes áreas: no subsídio de desemprego, nas pensões e nos serviços; a última coluna mede o nível de desmercadorização global, que é definido como a capacidade que as pessoas têm para viver sem depender dos recursos provenientes do mercado (por acção do apoio estatal).
As médias mostram que houve uma grande estabilidade em duas épocas que deviam representar, segundo a received wisdom (à esquerda e à direita), o declínio do Estado social. Os países de modelo social-democrata mantiveram os níveis muito altos de protecção (a Finlândia e a Noruega subiram; a Holanda e sobretudo a Suécia desceram, mas esta mantém-se na média); os países do modelo corporatista viram a sua média subir, ainda que a Suíça teha sofrido uma quebra importante, mantendo níveis de protecção intermédios; e os países do modelo liberal, os que tinham níveis de protecção mais baixos, aqueles onde o mercado tem maior centralidade enquanto mecanismo de coordenação e protecção, mantiveram-se no fundo da tabela. O cenário ao nível de desmercadorização é, portanto, de ampla estabilidade, apesar das enormes mudanças que a economias nacionais sofreram nestas duas décadas, e que levaram, como já tinha referido no meu post original, a uma subida generalizada dos gastos sociais - os tais que permitiram a conservação dos níveis históricos de protecção dos cidadãos/trabalhadores.

Wednesday, January 9, 2008

E eu, ingénuo, que pensava que o sindicalismo português era autónomo em relação aos partidos

No "Público" de hoje:

Carvalho da Silva pondera deixar liderança da CGTP devido a pressões do PCP
09.01.2008, São José Almeida
A preparação do congresso da central está em ebulição. O PCP tenta influenciar os nomes e a estratégia da direcção. Carvalho da Silva já avisou que, se isso acontecer, bate com a porta.

Bye bye Edwards

Com o resultado de hoje, Edwards perdeu qualquer hipótese de disputar a nomeação para o Partido Democrata. É pena que seja este o outcome, mas era por demais previsível. Ninguém pode pretender ganhar uma eleição nos EUA depois de repetir milhares de vezes a expressão corporate greed (aliás, o mesmo se aplica em qualquer país europeu - bom, talvez com a excepção da França, o que pode muito bem ser uma das razões pelas quais o PSF perde eleições com frequência excessiva!). Por muita razão que tivesse nos argumentos apresentados, Edwards seria, numa campanha a sério, carne picada nas mãos da máquina mediática Republicana, que o acusaria seguramente de estar a preparar um golpe socialista em Washington ou coisa do género. Edwards poderia ter aludido aos mesmos problemas que tinha na agenda - e que são os de muitos americanos - se tivesse utilizado outra linguagem menos populista e adoptado uma postura menos guerreira. A política da raiva talvez pudesse funcionar num contexto do género da Grande Depressão do início dos anos 30, mas não hoje.
Para quem irão os seus votos agora? Obama ou Clinton ou...para ninguém? O que Edwards decidir fazer pode ajudar enormemente a decidir quem ganha esta disputa eleitoral.
Não seria descabido que os 'entregasse' a Obama. E talvez Obama, se vencesse, o premiasse com o cargo de vice. Talvez o ticket Obama-Edwards não seja má ideia.

É mesmo bem feito

Quem me manda acreditar em sondagens? Mesmo quando são 18.

Tuesday, January 8, 2008

Um passo importante

França - Sarkozy quer novas formas de medição do crescimento económico

2008-01-08, 12h34
Paris, 08 Jan. (Lusa) - O presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou hoje que dois prémios Nobel de Economia vão liderar um grupo de peritos internacionais encarregue de reflectir sobre novos instrumentos e critérios de medição do crescimento económico.
Nicolas Sarkozy pretende um novo método que tenha em conta não somente a quantidade mas também a qualidade.
"Se os critérios e indicadores de riqueza continuam os mesmos, como vamos mudar o modo de produção?", perguntou Sarkozy na primeira conferência de imprensa formal no Eliseu desde que assumiu a Presidência da França em Maio passado.
O chefe de Estado conservador anunciou que Amartya Sen aceitou dar-lhe os seus "conselhos" e que Joseph Stiglitz presidirá o comité de peritos.
Sarkozy, que enquadra esta reflexão na chamada "politica de civilização" que quer fomentar, defendeu a necessidade de escapar a um enfoque "demasiado quantitativo e contabilístico" do crescimento.
"Se continuamos prisioneiros da visão restritiva do Produto Interno Bruto (PIB), não podemos esperar mudar" os comportamentos e as formas de pensar, explicou.
Para favorecer um "outro tipo de crescimento", é preciso alterar "o nosso instrumento de medição", insistiu Sarkozy.
Pretende que a medição do progresso económico seja mais completa, tome mais em conta "a qualidade de vida dos franceses", que já não suportam "um desfasamento crescente" entre as estatísticas que mostram um progresso contínuo e "dificuldades crescentes" no seu dia a dia: isto "mina a confiança porque já ninguém acredita nas estatísticas", declarou.
Sarkozy disse querer que a França dê o exemplo reunindo um grupo de peritos internacionais para reflectir sobre uma mudança dos instrumentos e dos critérios de medição do crescimento.


Sobre esta importante questão escrevi algumas coisas aqui, aqui, aqui e aqui.

Segundas impressões

Várias sondagens indicam que Obama vai mesmo ganhar mesmo New Hampshire na votação de hoje à noite (ou madrugada de quarta-feira). Este resultado não significa o fim da campanha de Clinton, longe disso. O processo eleitoral será longo, e Hilary tem uma série de estados que pode considerar seus (Arkansas, Connecticut, New Jersey e New York - isto se o onda de entusiasmo por Obama não virar as sondagens que dão ampla vantagem a Hilary, claro está). Tudo ficará em aberto, em princípio, para a "Super Terça-Feira" de 5 de Fevereiro.
O problema de Clinton não é, portanto, o facto de se terem esgotado as oportunidades institucionais para reverter o processo, tanto mais que a convenção democrata inclui 'superdelegados' que não são eleitos pelo estados, e, à distância, Hilary parece bem colocada para (sobre este processo complicado, pode ler-se isto). O problema é mais grave: Hilary não parece ter estratégia para travar a onda de entusiasmo que se gerou em torna da candidatura de Barak Obama. Basta ver o que aconteceu com a palavra change, que Obama foi o primeiro usar de forma sistemática. Agora, todos os candidatos falam de change - incluindo os republicanos, o que gera uma situação que está algures entre cómico e o ridículo, como capta esta reportagem da CNN. Clinton está obcecada por fazer passar a mensagem que ela também é uma agent of change. É verdade que o facto de toda a gente andar a usar a mesma palavra para tudo e para nada vai esgotar muito rapidamente o seu valor de uso. Mas a sua cooptação do discurso de Obama é um sinal de enorme fraqueza estratégia e discursiva. Não apenas porque demonstra não ter nenhuma mensagem capaz de se sobrepor à de Barack - podia colocar a ênfase na sua 'experiência', mas a sua mais-valia política seria sempre fraca - como aceitou jogar no campo do adversário, segundo as suas regras. O problema de Clinton (e para o seu estratega principal, Mark Penn) é que, aqui, as regras que dão parecem dar uma vantagem muito particular a Obama vão muito para além do poder do discurso. Todos sabem que a mensagem da "mudança" é banal e, no limite, leviana e perigosa (como aliás Hilary salientou há uns dias). O que transforma tudo é essa palavra ser um dos eixo da mensagem de Barack Obama, que é afro-americano e 14 anos mais novo que Hilary. O decisivo é quem o diz, não o que é dito (change na boca de um WASP previsível como G.W.Bush seria tudo menos um slogan apelativo).
Não só Obama é um afro-americano, como pertence a uma geração diferente a Clinton, que, "só" sendo 14 anos mais velha que ele, já ocupou, para todos os efeitos, a Casa Branca (quando a vemos, somos inevitavelmente transportados para 1992); Obama, que andava na escola quando Martin Luther King foi assassinado, não representa, como Jesse Jackson - que foi o único candidato democrata afro-americano a disputar umas primárias, em 1988 -, o legado daquele. Se é verdade que só possível estar onde está porque foi capaz de subir para os seus ombros de King, e se não raras vezes usa a linguagem dos direitos civis e fala da necessidade da sua consolidação (a memória do "roubo" da eleição de Al Gore em 2000 é naturalmente fresca), Obama representa uma geração que nasceu para a política depois dos conflitos dos anos 60 e 70, e que se prolongaram nos anos 80 e 90 com as chamadas culture wars (onde a questão racial nunca está esquecida). Esta é uma guerra que ele - e muitos como ele, sobretudo os eleitores mais novos - não só não viu nascer (e por isso não toma como sua), como não vê grande sentido. Jackson já insinuou várias vezes que Obama esquece o seu passado e não representa convenientemente os afro-americanos (ou seja, que não "é negro o suficiente") - esquecendo que a (híbrida) identidade de Obama foi construída para lá das lutas que constituíram os afro-americanos como grupo político entre os anos 60 e 80, e que a sua estratégia passa, coerentemente, por se afirmar como um representante de todos os americanos.
É por isso que a mensagem da mudança expressa por Obama nunca poderá ser igualada por qualquer discurso ou demonstração de Hilary, que, diga o que dizer, prove o que provar ao nível do CV político (onde baseia a sua asserção de que também ela é uma agente da mudança), é filha dos anos 60 e está há tempo demais sob os holofotes da política americana para não ser odiada por várias facções conservadoras.
Este é o maior drama de Clinton: a vantagem de Obama é extra-discursiva e é provável que nenhum rebranding da candidatura de Hilary consiga ultrapassar o que Obama representa, para além das suas palavras, para grupos politicamente tão diferentes da sociedade norte-americana.
A vantagem de Obama - se não me engano, a nível nacional e não apenas nestas primárias - será mesmo da ordem da meta-política: não é uma questão de propostas ou medidas de policy concretas, nem uma questão de democratas vs. republicanos (ou seja, o facto do eleitorado estar cansado destes últimos, o que já ficou patente nas eleições para o Congresso em 2006). Ele representa uma reconciliação dos EUA com a sua história, no duplo sentido de procurar sarar feridas do passado e de actualizar promessas que o país deixou ou deixa por cumprir a nível nacional e internacional.

Monday, January 7, 2008

«It's the economy, stupid!»

John Edwards é o único nesta campanha que, ao nível do discurso e de forma explícita, leva os problemas da economia americana, do ponto de vista das classes trabalhadoras e das classes médias, a sério.

Um dos problemas é evolução do poder de compra do salário mínimo ao longo das últimas décadas, como o quadro abaixo bem demonstra (retirado daqui):

Saturday, January 5, 2008

To «heal a nation and repair the world»

Este artigo de Jonathan Raban no The Guardian sobre as filiações religiosas da linguagem e da estrutura de argumentação de Barack Obama é notável.

Friday, January 4, 2008

Primeiras impressões



Este é o discurso de Barak Obama ontem depois de saber da sua vitória no Iowa. Tem, parece-me, 3 palavras/significados-chave: 'esperança', 'mudança', 'união'.
Para muitos democratas/liberais pode saber a pouco e parecer sensaborão. Muitos na linha de Paul Krugman, Douglas Massey ou Thomas Frank talvez gostassem de algo mais assertivo/ofensino («I'm a liberal and that's what I stand for», etc.; ver por exemplo esta argumentação), que afirmasse a identidade democrata/liberal por contraposição à "conspiração conservadora" (expressão que já foi usada por Hilary Clinton), que reconhecesse que os últimos quase 30 anos foram efectivamente marcados por uma "guerra de classe", e que os democratas a perderam por falta de defesas, de estratégia, de táctica, de doutrina, etc. Talvez seja Edwards o que por vezes mais se aproxime desta linha que arrisca cair num certo populismo. Na esquerda americana, os leitores de Krugman, Massey e Frank et al. podem-se identificar com uma linha destas, mais dura (como, num certo sentido, me identifico), mas o perfil destes está, claro, longe do perfil do eleitorado norte-americano.
Para Barak Obama, adoptar estratégia seria suicida. Uma razão chega (entre outras que pudéssemos enumerar) para fugir a sete pés dela: é negro. Se Obama fizesse uso dela, não só partia a nação ao meio entre blue states e red states; desfazia também as suas potenciais constituencies em migalhas, porque uma estratégia assertiva/agressiva seria imediatamente associada ao ressentimento negro; não a class war, mas uma race war. Quando mais não seja pela sua cor de pele, Obama será obrigado a parecer o mais reconcialiador dos candidatos democratas («We are not a group of blue states and red states; we are the United States of America»).
Mas ele não se apresenta como um reconcilador mole. Pelo contrário, Obama joga com as armas que tem: a afirmação da mudança pela coragem e pela esperança. 'Mudança' significa aqui, antes de mais, acabar com a forma de fazer política que identifica como contraproducente, baseada no insulto fácil e na caricatura ideológica que muitos afirmam ser um dos problemas sérios na discussão e na decisão política nos EUA. Obama sabe perfeitamente que parte do eleitorado está francamente descontente com a política, e que a espiral do cinismo de muitos eleitores só favorece os Republicanos.
Claro: há a 'mudança' numa série de áreas de policy que são centrais para o eleitorado democrata e para as classes médias e trabalhadoras (saúde, emprego/salários, imigração, etc.); mas é grande a dificuldade em percebermos, nesta altura, diferenças sérias entre os programas de Obama e Clinton (provavelmente elas não existem, e talvez não venham sequer a existir, mas isso fica lá mais para a frente). Obama sabe que é pelo estilo, pelo discurso, e pelo uso do carisma - e ele sabe que o tem, e que o que diz e como o diz pode ser tremendamente inspirational - que pode ganhar pontos a Clinton. Hilary é alguém que pode invocar experiência e competência, mas não pode invocar vontade ou sentido de 'mudança'; ela nunca deixará de ser a candidata do establishment. Essa é uma marca conservadora - no sentido mais neutro da palavra - que sempre jogará contra ela - e a favor de Obama.
Dirão que é pouco. Mas quando as coisas estão too close to call, esse 'pouco' pode ser gigante: é o je ne sais quoi que arrasta as multidões. JFK, obviamente, tinha-o.

Ainda a esquerda socialista francesa II

Vale a pena ler a entrevista no 'Le Point' de Fadele Amara, Secretária de Estado para a Política da Cidade no governo de François Fillon que Sarkozy, na sua estratégia de 'abertura', foi recrutar à esquerda - em particular as suas considerações sobre o Partido Socialista Francês.

Excertos:

«Le Point : Etes-vous toujours socialiste ?
Fadela Amara : Oui, mais je ne suis plus adhérente parce que le PS me désespère. Je respecte les militants, je connais la force de leurs convictions et de leur engagement. En revanche, la direction du PS a abandonné ses combats. C'est le parti des bien planqués, ceux qui pensent qu'habiter le 16e, c'est habiter la France. Cette direction s'est éloignée des classes populaires, des ouvriers, des immigrés, des femmes. Elle ne s'intéresse plus aux gens comme moi, mais seulement aux bobos. Elle n'est plus dans le progrès social, elle n'est que dans la gestion de carrière des uns et des autres.

[...]
Que faut-il au PS pour repartir de l'avant ?
Un tsunami ! Le PS doit ébranler ses fondations pour construire un parti progressiste. Cela passe par une révolution idéologique. D'abord, selon moi, le PS doit trancher clairement entre la social-démocratie et la gauche de la gauche. Quand il aura affirmé son identité, il pourra reconstruire une nouvelle force avec la justice sociale pour trame. Les socialistes doivent aussi accepter sans ambiguïté l'économie de marché, tout en disant que le politique peut réguler l'économie, contrairement à ce que pensait Jospin. Je souhaite qu'il y ait une opposition forte dans mon pays.»


Mais interessante ainda é como termina a entrevista, quando lhe perguntam o que fará nas próximas eleições:

Vous ne voterez donc pas Sarkozy ?
Non, et il le sait !

«É a energia, estúpido»

O artigo do biogeógrafo Jared Diamond - autor de excelentes e apaixonantes livros como "Guns, Germs, And Steel" e "Collapse" (já traduzidos para português) - no 'New York Times' de 2 de Janeiro, intitulado "What’s Your Consumption Factor?", é muito interessante e, para além da questão que o João Caetano já sublinhou (relativa ao putatitvo impacto sobre o planeta da democratização do acesso a todos os habitantes do globo das práticas de consumo típicas dos países ricos), há uma outra que merece destaque. A dada altura, o autor escreve:

«Real sacrifice wouldn’t be required, however, because living standards are not tightly coupled to consumption rates. Much American consumption is wasteful and contributes little or nothing to quality of life. For example, per capita oil consumption in Western Europe is about half of ours, yet Western Europe’s standard of living is higher by any reasonable criterion, including life expectancy, health, infant mortality, access to medical care, financial security after retirement, vacation time, quality of public schools and support for the arts. Ask yourself whether Americans’ wasteful use of gasoline contributes positively to any of those measures.»

Esta nota fez-me lembrar uma questão que é muito importante na comparação entre os EUA e a Europa, e que muitas vezes é esquecida. Não é referente à "qualidade de vida" - algo sempre slippery de avaliar, mesmo sendo francamente central -, ou seja à dimensão do consumo, mas
à da produção, onde tantas vezes o modelo "americano" é visto como superior ao "europeu" (e as aspas são necessárias porque estamos a subsmumir práticas e instituições muito complexas e diversas numa só modelo). Fala-se muito da rigidez estrutural (nas suas diversas vertentes: nos salários, leis laborais, etc.) das economias europeias, mas muito pouco do que pode ser considerado - como o faz Paul de Grauwe, de cujo artigo (publicado num excelente site onde se encontram muitos outros artigos de qualidade) retiro o quadro que reproduzo em baixo - como uma rigidez estrutural da economia norte-americana: a baixa produtividade do uso energético quando comparada com a Europa (ou o Japão). Assim:

«The EU and Japan are about 50% more productive in the use of energy than the US. Put differently, the EU and Japan manage to produce about 50% more with one barrel of oil (or its energy equivalent) than the US. This difference by far exceeds the difference in labour productivity between the US and the main European countries.»

Mas há mais um elemento interessante. É que por muito que se vanglorie as vantagens do uso massivo dos mercados na alocação de recursos na economia norte-americana (que supostamente devem determinar de forma transparente o custo de um bem em função da sua escassez), «[t]he reason why the US appears to be so much less productive in its use of scarce energy is well-known. Energy is not priced correctly in the US, i.e. energy’s price does not sufficiently reflect the environmental costs of its use. Using tax policies, European countries have been more successful in pricing energy in a way that comes closer to reflecting environmental costs. In a sense, one can say that there are structural rigidities in the US preventing prices from reflecting the true scarcity of energy».

Não admira que a política energética seja central nesta campanha, e aqui os democratas parecem-me estar consistentemente à frente dos republicanos.

Ainda a esquerda socialista francesa


Antes que as eleições americanas de 2008 façam esquecer o ano eleitoral e o combate partidário francês de 2007, vale a pena deixar a referência de um livro que parece ir de encontro a muito do que fui escrevendo sobre a esquerda francesa aqui e n'A Vez do Peão nos últimos meses, e em particular sobre o Partido Socialista Francês: Rénover le Parti socialiste, un défi impossible?, de Laurent Baumel (Paris, Ed. L'Encyclopédie du socialisme. 125 p.). Ver esta recensão no 'Le Monde'.

Obama, água tónica e insónias

No computador aqui do lado, o João vai descrevendo a evolução dos votos nos caucuses. Quando Obama ganha a votação democrata, ele torce o nariz - Edwards era o seu favorito. Eu bebo mais uma água tónica num discreto festejo. Seguir o caucus de Iowa em directo pela CNN faz sede. E insónias.
Vai ser um ano nisto. Há coisas fantásticas, não há?

Thursday, January 3, 2008

Porque é absolutamente natural que os (super-)ricos não se preocupem com a desigualdade II

Agora com outro gráfico a partir dos mesmos dados de 1979-2005, este mais expressivo, retirado daqui:

The National II

Depois de uma comparação parcialmente injusta com os Arcade Fire - agora dou-te razão, Mariana -, os "The National" tornaram-se com todo o mérito a banda sonora desta passagem de ano. Aqui, 'Mistaken for Strangers' do mais recente "The Boxer". Para uma contínua «uninnocent, elegant fall into the unmagnificent lives of adults».