Monday, December 17, 2007

Publicidade enganosa

António Casimiro Ferreira publicou no 'Le Monde Diplomatique' deste mês um artigo que está também on-line aqui, intitulado a 'Verdade da Mentira'. Infelizmente, chego ao fim do artigo, e sinto-me enganado, porque afinal de contas tudo o que propõe é algo que eu, que não acho a flexigurança seja uma mentira - mas antes um avanço global na regulação europeia do emprego nos tempos que correm, com os constragimentos existentes (e são vários) -, não posso discordar. Nem eu nem ninguém de matriz social-democrata a nível europeu. Assim:

«Sugestões? Aqui ficam algumas: o incremento da dimensão local das relações laborais, descentralizando e territorializando o diálogo social, a promoção activa de pactos de confiança criados na base de uma legitimidade renovada por parte de sindicatos e associações patronais, o reforço da formação e qualificação de trabalhadores e de empregadores, a transformação da economia informal e trabalho não declarado em emprego estruturado, a intervenção preventiva do Estado na negociação colectiva sem pôr em causa os parceiros sociais e, por fim, o mais fácil ou mais difícil, dependendo do ponto de vista, a aplicação do quadro legal vigente com algumas alterações cirúrgicas, mas onde a efectividade das normas seja real, explorando responsavelmente as possibilidades consagradas de flexibilidade e segurança já previstas.»

Deixo quatro notas só.
Primeira nota: o autor não propõe o reforço do Código do Trabalho na linha de dificultar os despedimentos (ou manter as protecções mais restritivas existentes nessa área). Nem parece argumentar por aí, ao contrário de muitos à esquerda. Ainda bem, digo eu. Mas então eu pergunto: a flexigurança é uma mentira porquê?
Segunda nota, mais geral, e talvez mais curiosa: a maior parte das sugestões, para não dizer todas, inscrevem-se e estão previstas numa lógica ampla da flexigurança. A flexigurança não pretende destruir a dimensão local das relações laborais (a sua aplicação será sempre flexível); privilegiará, sempre que possível, a produção de pactos sociais entre capital e trabalho com o objectivo de contínua formação dos trabalhadores como prioridade; lutará sempre contra a economia informal, que, caso muitos se esqueçam, é alimentada e reproduzida por leis laborais que reduzem a fluidez do mercado de trabalho, etc.
Terceira nota: o sindicalismo devia ver este contexto como uma oportunidade para fazer um trabalho de internacionalização/europeização sério e de luta contra as barreiras que criam desigualdades entre trabalhadores. Uma política europeia de inflação baixa, gostemos dela ou não, tem a virtude de obrigar os sindicatos a pensar nos efeitos colaterais das suas reivindicações salariais (tanto nas desigualdades entre trabalhadores como no desemprego). Introduz, por isso, uma disciplina que é mãe da inteligência e da estratégia num sector tantas vezes dominado pela ideologia preguiçosa. Por incrível que pareça, a verdade é que uma política restritiva do Banco Central Europeu pode ter o condão de pressionar os sindicatos a coordenarem as suas políticas a nível transnacional, ajudando a resolver um problema - que é hoje bem real - de acção colectiva.
Quarta nota: O princípio essencial da flexigurança diz que os trabalhadores são mais importantes que os empregos, e o que é fundamental é proteger os primeiros - com robustos esquemas de income substitution e de formação profissional -, mesmo quando os segundos tenham que "ir". Isto parece-me um avanço conceptual e, se forem encontrados os dispositivos de protecção e investimento social correspondentes, político muito importante.

Lutar a favor de modelos laborais e industriais anacrónicos sem ter em conta as suas consequências numa economia internacionalizada - e, sobretudo, com mercados financeiros globalizados -, é um beco sem saída. Mais valia que todos contribuíssemos para este debate, ainda em aberto em várias dimensões (em vez simplesmente de dizer "não"). Felizmente, António Casimiro Ferreira, talvez à revelia do que pretendia, fê-lo.

Sunday, December 16, 2007

A ler



Este excelente artigo de David U. Himmelstein e Steffie Woolhandler, professores de medicina em Harvard, onde apresentam uma curta história das várias tentativas - falhadas - de criar um sistema de seguro obrigatório a nível estadual nos EUA (uma ideia defendida há mais de 30 anos por Nixon), na linha do que propõem os mais importantes candidatos democratas. O seu argumento é de que este modelo «is economic nonsense. The reliance on private insurers makes universal coverage unaffordable». A alternativa, claro, seria um sistema universal público como existe, por exemplo, ali ao lado, no Canadá (e em vários países europeus, naturalmente).

Thursday, December 13, 2007

Como e o que fazer?


O João já deu o mote. Para o ano realizam-se as eleições mais importantes do planeta. Este livro devia fazer parte de leitura obrigatória dos interessados: The Return of the 'L' Word (2005, Princeton University Press), do sociólogo Douglas S.Massey.

Tuesday, December 11, 2007

«Mãe, roubaram-me o chocolate!»

De um take da Lusa:

«Quanto ao modelo de gestão escolar hoje anunciado pelo primeiro-ministro, José Sócrates, Menezes defendeu que é a cópia "de forma atabalhoada" e "sem imaginação" do que "o PSD defende há muito tempo, há meia dúzia de anos, de forma concreta há quase três anos". (...) "Nove anos e meio depois, vem o PS encaminhar-se no sentido de princípios que são defendidos pelo PSD. Isso lisonjeia-nos mas achamos que é um bocadinho tarde", concluiu.»

Para o PSD, parece que a política é um affair de direitos de autor. Se o PSD defende estes princípios, porque não os traduziu em letra de lei? Talvez porque defender princípios é fácil, mas um pouco mais arriscado é mesmo legislar, não?

E não se venha dizer que agora os defende de forma 'concreta' há quase 3 anos; só os 'concretizaram' a partir do momento em que saíram do Governo, não é? Que conveniente.
Em vez de reconhecer o consenso transpartidário que parece existir nesta matéria - e não fica mal ao PS dizer que chegou tarde a ele; a isto chama-se 'aprendizagem' -, reconhecendo a ineficácia do modelo de gestão das escolas que vigorava até aqui, o PSD resolve fazer uma birra.

Quando é Governo não muda as propostas, é porque é 'teimoso', 'autista', 'autoritário', 'ditatorial', etc.; quando subscreve abordagens defendidas há mais tempo por outros partidos, é porque lhes 'copia' as propostas, é 'frágil', e não tem 'estratégia política'.

Se precisarem de um powerpoint para explicar como isto se insere na estratégia política global para o sector da educação, a gente também faz. É difícil a vida na oposição.

Outra metamorfose

Do João Caetano. 'Goodnight Moon', dos Shivaree, é também o nome da faixa de boas-vindas.

Agenda


A ler

"Quando o centro vira à esquerda", pelo Pedro Adão e Silva no "Diário Económico" de hoje.

Sunday, December 9, 2007

«Ter ou não sangue nas mãos não pode ser indiferente»

Título do artigo publicado este sábado por José Manuel Fernandes, director do "Público", jornal que publicou dois anúncios de capa inteira durante esta semana, na quarta e na sexta-feira, pagos pelo «meio senil Muammar Kadhafi».

Tudo em nome dos direitos humanos e da «piedade humana», imagino.


O debate continua, mas convinha avançar na identificação dos problemas

Aqui. Começa a ficar claro para mim que o principal inimigo da esquerda não é tanto o neo-liberalismo como o conservadorismo continental que estrutura a economia política de um país como a França (onde boa parte da crítica por cá se inspira), mas também a de países como a Alemanha ou a Itália, e com réplicas parciais nos países mediterrâneos, sendo Portugal um exemplo inequívoco. Por alguma razão é que foi nos três grandes países do Continente que emergiu na década de 90 o 'movimento anti-globalização', e não nos países onde vigora o modelo social-democrata, os nórdicos, que, se num primeiro momento (fim dos anos 80/início dos 90) sofreram um forte embate, recuperaram e aprender as jogar as regras da economia internacional. Por lá, ninguém perdeu muito tempo com o papão da globalização; nos 3 grandes países continentais, faz-se da globalização um monstro, mas o problema é na realidade outro: os desiquilíbrios financeiros existentes assentam em desequilíbrios sociais e laborais fortemente estruturados pelo Estado (e pelos sindicatos), com arranjos institucionais que têm uma face nada progressista na forma como protegem uns e exclui outros. Enquanto não se perceber isto, muito do discurso à esquerda contra o neo-liberalismo (e contra a globalização, em parte) vai continuar, quando os problemas têm a sua origem naquilo nas perversões estruturadas pelo Estado social e pelo mercado laboral. E enquanto não se perceber isto, as críticas vão continuar a falhar o alvo e as prioridades estratégicas vão continuar a ser erradas. Atenção: isto não é um problema de ideologia. É, sobretudo, um problema de análise empírica, de identificação do epicentro do problema. A especulação meta-política e sobre-ideológica aqui só atrapalha; precisamos das ciências sociais para identificarmos o epicentro do problema e as suas ramificações.

Por outras palavras, e de forma mais codificada e redutora, o meu diagnóstico da situação é este: problema maior do que a esquerda que procura reformar a social-democracia ter naturalizado Freedman, Hayek e co., é o problema de uma parte da (velha?) esquerda ter (sem perceber, parece-me) naturalizado Bismarck. Enquanto não exorcizar completamente este espírito, vai continuar a ver alguns fantasmas.

Saturday, December 8, 2007

Friday, December 7, 2007

«La lutte des classes n'est pas entre les bourgeois et les prolétaires, elle est entre les créanciers et les débiteurs»

Vale a pena ler a entrevista de Jacques Marseille no Le Monde sobre a paranóia relativamente à inflação alimentada pelo Banco Central Europeu.

Le don

O João Rodrigues afirmou, simpaticamente, que este blogue é representante de um «liberalismo político de matriz social-democrata». Nunca pensei bem nisto, mas a verdade é que vejo as coisas de forma inversa: prefiro que o liberalismo político seja guiadp pelas preocupações (e dúvidas) sócio-económicas de social-democrata do que o inverso. Se Rawls está ali à direita, está mais na categoria de defensor de uma forma particular de igualitarismo do que pelo seu liberalismo político.

Mas eu não escrevo este post por causa disso. Escrevo para dizer que tudo aquilo que me separa da atitude de alguns à esquerda - e que me levou a escrever isto - me leva a admirar o trabalho realizado pelos Ladrões de Bicicletas, que aliam precisamente aquilo que eu acho que é importante: os contributos das ciencias socias, em particular da economia política institucionalista (se este não for o vosso label preferido avisem :)) com uma reflexão normativa sofisticada e desinibida. O maior erro da uma parte da esquerda foi entregar a análise sócio-económica e a reflexão filosófico-política à direita em nomes da atitude voluntarista de 'resistência' a uma série de coisas do passado - sem saber como esse passado pode ser mantido no presente sem arruinar o futuro.
Nem sempre estou de acordo com eles - por vezes estou mesmo em radical desacordo; a verdade é também não sei tanto como eles sobre uma série de coisas -, mas a seriedade e sofisticação do seu trabalho merece amplo reconhecimento.

If only eu tivesse a energia para escrever à velocidade deles :)

Sobre o "dogma da escola inclusiva"

Lido no 'Público': Paulo Portas denuncia "dogma da escola inclusiva"

A transparência e a honestidade são virtudes. Tiro o chapéu a Paulo Portas por admitir aquilo que, afinal, que toda gente já sabia, mas que é sempre ouvir pela boca do próprio: que o CDS-PP é defensor da segregação escolar oficial. Isto de haver escola pública que é obrigada a aceitar filhos de ricos e pobres e que faça o mais possível para limitar os handicaps culturais de partida dos segundos é efectivamente um drama para alguém que considera que a família é a célula central da sociedade.

Aquilo que eu tenho curiosidade de saber era a opinião da classe docente sobre esta questão. Em 2004, numa sondagem publicada pelo 'Le Monde', 70% dos professores do ensino secundário francês eram da opinião de que o collège unique - um sistema legislado em 1975 mas que demorou cerca de 10 anos a ser implantado ao nível nacional e que unificava as vias até ao fim do secundário inferior, permitindo a criação de fileiras gerais, tecnológicas e profissionais no secundário superior, mas que conferem um baccaulerat no fim do ensino secundário: basicamente, um sistema em tudo semelhante ao nosso (ou nosso ao deles) - era um "fracasso".
Ou seja, a larga maioria dos professores franceses do ensino secundário preferia que a selecção fosse feita mais cedo - como no passado, no fim da primária, ou 1º ciclo do ensino básico -, e que os alunos que chegassem ao secundário, e sobretudo às vias gerais fossem menos socialmente heterogéneos, isto é, mais fáceis de ensinar. O que pensam sobre isto os professores portugueses?

Uma pequena contribuição para o "debate da esquerda"

O Miguel Madeira já tentou reconstituir a ordem cronológica de uma discussão para a qual fui contribuindo de forma muito dispersa em caixas de comentários de outros blogues. Talvez faça sentido dizer algo mais sustentado aqui.

Vou cortar a discussão para afirmar o que me interessa dizer, mesmo que isso diga pouco sobre alguns dos temas que vieram entretanto ao de cima. Estas discussões são sempre tão animadas como frustrantes, e eu chego sempre ao fim a perguntar porque me meto nelas. Mas cá vai: queria escrever alguma coisa sobre um dos que me parece ser um (o?) problema de muitas das coisas escritas à esquerda por gente com qualidade (e até alguma experiência de militância política).

Talvez o problema elementar seja a excessiva ideologização dos pontos de partida, que depois impregna os termos e conteúdos das discussões. É óbvio, por um lado, que não há posição política sem ideologia; por outro, quando esta se resume a um contínuo reshuffle histórico de temas e palavras velhas, e não é disciplinada por outras forças intelectuais, a ideologia torna-se preguiçosa, oca e dogmática, e tem tendência a protelar o uso de significantes que já ninguém conhece muito bem o significado e alimentar lutas fratricidas entre 'puristas' e 'traidores'. Torna-se uma conversa de seita, fechada a quem ela não pertence, sem qualquer relevância para além deste círculo. Pode ser sem dúvida excitante, mas a sua relação com a actividade política que procura ter impacto na vida das pessoas é irrelevante.

Como combater o excesso de ideologia? Num dos comentários que escrevi, propus uma dupla estratégia. Uma abertura da reflexão ao lado da filosofia política, por um lado, e ao lado das ciências sociais, por outro. A filosofia política obriga-nos a pensar as coisas os nossos princípios do princípio, e de forma clara e analítica, enfrentando escolhas morais e intelectuais difíceis (e para isto é preciso seriedade). O que defendemos, afinal? Como hierarquizamos os diferentes valores que queremos defender ou escolher quando estamos perante um dilema? Isto é absolutamente central porque, em primeiro lugar, a esquerda gosta de se dizer defensora da 'liberdade', 'igualdade' e 'fraternidade' ou 'solidariedade', etc. sem que muitos pareçam pensar num minuto que um avanço em direcção a um vértice do triângulo (ou quadrado, ou qualquer que seja a figura geométrica) pode significar a aumentar da distância em relação a outro (por ex., mais igualdade pode significar um decréscimo de liberdade). Em segundo lugar, isto é importante por motivos empíricos: ao contrário do que aconteceu na maior parte da Europa e nos EUA, o Estado deixou de poder prosseguir políticas de expansão em certos sectores-chave (o que não significa necessariamente recuo; pode significar estagnação, estagnação pode muitas vezes significar melhor gestão), e isso significa que há menos recursos para distribuir por mais grupos, alguns mais reivindicativos (ou bem organizados) do que no passado. Menos recursos para mais procura social só pode dar mais descontentamento, e por isso maior necessidade de definirmos os princípios que nos levam a distribuir o recurso A (mais escasso hoje do que no passado) pelo grupo X (e não pelos grupos Y ou Z).

As ciências sociais, não sendo propriamente a "física" das sociedades (coisa que nunca serão), disciplinam a nossa forma de pensar e tentar perceber como o mundo funciona, algo que a reflexão ideológica obviamente abomina (é uma chatice quando o mundo não funciona da forma que queremos). O trabalho na economia, na sociologia, na ciência política, tanto de cariz quantitativo como qualitativo (embora admita a maior centralidade do primeiro), é essencial para as visões mais politizadas do mundo aprenderem a ganhar um pouco de humildade e a saírem do wishful thinking. É essencial também para sabermos a exequibilidade, utilidade e eficácia das políticas públicas. As pessoas elegem representantes políticos para lhe resolverem os problemas - quando acreditam que isso é possível… -, não para andarem a discutir questões sobre o que é, efectivamente, da ordem da "meta-política". E para resolverem os problemas, os intervenientes políticos precisam de saber o que funciona e o que não funciona, o que é inteligente e/ou viável e o que é estúpido/inviável. Dizer que o 'ideologicamente correcto', código genético do qual muitos não parecem conseguir separar-se, pode tantas vezes degenerar nas decisões políticas estapafúrdias é uma banalidade. Ou melhor: devia ser uma banalidade. Ao ler o que muitos escrevem, pergunto-me se alguma vez pensam nisto.

A direita, claro está, percebeu isto há muito tempo. Explorou, ao nível da filosofia política, as avenidas do libertarismo e tirou as devidas consequências ao nível das políticas públicas, do policy mix ideal entre o Estado e o mercado, e mobilizou/estimulou o conhecimento produzido por economistas e cientistas políticos para perceber como funcionavam ou podiam funcionar as instituições para colocar carne empírica no seu esqueleto normativo. Enquanto muitas à esquerda ficaram a gritar contra o “neo-liberalismo” (real ou fantasmagórico), a direita mobilizou princípios e estudos para sustentar e justificar as suas políticas.

Já sei o que alguns vão dizer: para pegar na metáfora usada pelo Zé Neves, que estou a fazer de fiscal-de-linha e a meter uma série de gente fora-de-jogo. A verdade é que é quem acha que este campo tem uma dimensão e regras excessivamente limitadas tem que provar porque é que reflexões “meta-políticas” devem ser levadas a sério por aqueles que, à esquerda, concebem a política como uma actividade cujas intervenções têm como FIM ÚLTIMO E ESSENCIAL resolver os problemas das pessoas e ajudá-las a levar uma existência decente. O ónus recai, efectivamente, sobre essas pessoas e os seus argumentos. O resto pode ser muito interessante, ocupa certamente mentes brilhantes, produz livros que fazem história, gera horas inesquecíveis de discussão, mas, em tempos de urgência política - e há algum que não o seja? - isto é um luxo. Talvez noutros tempos este fosse chamado um luxo burguês. Mas luxo apenas está bastante bem. Quem o pratica ou dele usufrui, não tem que escondê-lo nem ter dele vergonha. Bastaria que pensasse nisso um pouco, e talvez não o fizesse mal assumir.

O resultado deste meu “pragmatismo”, como imagino que muitos digam, não leva ao "fim da política", nem ao "fim da ideologia", nem os chavões do costume. Significa levar várias coisas a sério antes de se começar a pensar de forma adulta sobre política: por exemplo, os constrangimentos colocados pela economia (capitalista ou outra; e convém não esquecer que a escassez é maior no socialismo do que no capitalismo), pela democracia (é uma chatice, isto das pessoas terem que votar ou concordar com as propostas políticas de uns quantos, ou pelo menos eleger alguém com um programa político dado) e uma série de outros direitos que ainda muito gente parece ainda não levar suficientemente a sério (como os direitos de propriedade, que não sendo nem ‘absolutos’ nem’ naturais’ como a direita gosta de dizer, muita gente ainda raciocina como se eles não existissem para a definição de uma estratégia ou de uma política dada). A discussão é tantas vezes tão difícil - nem chega a começar, realmente - porque muitos à esquerda parecem esquecer-se de alguns de alguns "pormenores" que outros take for granted (ou consideram, pelo menos, que não podem ser convenientemente varridos para debaixo do tapete): que certas políticas ideologicamente correctas seriam um desastre económico (que levaria muitos, convenientemente, a culpar pela milésima vez o 'capitalismo' quando deviam culpar a incompetência criminosa de quem lançou as políticas); que seriam impraticáveis numa democracia, em particular num país relativamente próspero, com uma classe média robusta, que coloca o eleitor mediano completamente a leste dos delírios de alguns e que votaria, obviamente, contra (a alternativa, claro, é iniciar uma revolução contra estes eleitores e os outros mais ricos: any candidates? se sim, que ponham o dedo no ar para se saber o que as pessoas, lá no fundo, defendem, era pelo menos mais transparente e honesto); e que seriam altamente dúbias do ponto de vista do respeito mínimo dos direitos de propriedade, e aqui a filosofia política serve precisamente para podermos pensar e justificar o que é que é de um (bens privados), de poucos (club goods), ou de todos (bens públicos).
Ignorar este tipo de constrangimentos - adicionem outros, não quis ser exaustivo – não é ficar, num qualquer lance da partida, e por alguns milímetros, fora-do-jogo; é simplesmente nem sequer entrar no relvado por discordância ou ignorância/negação deliberada das regras da modalidade. Faça-se um esforço para conceber, como escrevi em cima, a política como uma actividade cujas intervenções têm como FIM ÚLTIMO E ESSENCIAL resolver os problemas das pessoas e ajudá-las a levar uma existência decente, e talvez se perceba porque escrevo o que escrevo sobre a estratégia da "negação" (sem querer abusar da psicologia política...). Não pretendo ser paternalista; pretendo apenas constatar o que, pessoalmente, me parece uma evidência.

P.S.- É claro que isto é um exercício estúpido: como se o problema da negação se resolvesse pela discussão racional. Há formas de estar na e pensar política que são modos de vida, e contra modos de vida não há discussão racional que sirva para demonstrar o que quer que seja; por isso ignoram-se os problemas e as questões difíceis para reduzir o choque axiológico e psicológico que mudanças de perspectiva neste plano produziriam. Por isso, muitos só mudam de opinião depois desses choques violentos, por vezes evitáveis, e nunca pela discussão racional.

Wednesday, December 5, 2007

A prova final e irrefutável da 'crise da escola'

Ciência
Os chimpanzés de cinco anos têm melhor memória fotográfica que os estudantes universitários - estudo
2007-12-05, 15h53

Lisboa, 5 Dez (Lisboa) - Os chimpanzés de cinco anos têm melhor memória fotográfica que os estudantes universitários, concluiu um estudo de investigadores da Universidade de Quioto (Japão)publicado na revista "Current Biology".

"Aqui mostramos pela primeira vez que os jovens chimpanzés têm uma extraordinária capacidade para trabalhar com a memória numérica, melhor do que a dos humanos adultos, que foram submetidos às mesmas provas e procedimentos", disse um dos autores do estudo, Tetsuro Matsuzawa.

Nouvelle Vague

Esta sexta-feira na Aula Magna. Aqui a cover de 'Guns of Brixton', dos Clash.

Tuesday, December 4, 2007

PISA, segundo olhar

Saíram os resultados do PISA 2006, e Portugal, como gostam de dizer os media, "chumbou" nos testes relativos às competências (e não "conhecimentos": possuir uma compêtencia implica ser capaz de operacionalizar, possuir um conhecimento significa saber explicar porque é que a operacionalizaçao deve ser feita de uma dada forma; isto não é irrelevante porque há sistemas de ensino e abordagens pedagógicas que privilegiam a aprendizagem primordial de competências e outros a aprendizagem prioritária de competências) em ciências - o foco principal do estudo de 2006 -, leitura, e matemática.


O indicador elementar para a avaliar a performance de um país é a média nacional em relação à média da OCDE (sempre igual a 500). Mas a média é um instrumento enganador. No caso português, é interessante ver como se distribuem os resultados dos alunos por ano de escolaridade que frequentam. O PISA é aplicado a alunos entre os 15 e os 16 anos - independentemente do nível de escolaridade em que estão -, por ser a idade com que se prevê terminarem a escolaridade obrigatória. Se um país, como Portugal, tiver níveis de retenção muito altos, haverá alunos que terão dificuldade em responder a certos exercícios sobre matérias que o teste do PISA espera que o aluno conheça; isto é essencial para perceber os resultados dos alunos portugueses. Vejam os quadros que coloquei abaixo, retirados deste relatório (que os mais interessados devem consultar).



O tamanho das esferas representa a percentagem de alunos dos diferentes anos de escolaridade que responderam ao inquérito (que é representativo da distribuição da população escolar nacional). Veja-se como os alunos do 11º - uma minoria, a esfera é pequeníssima - obtêm excelentes resultados, e como os do 10º ano obtêm sistematicamente uma média razoavelmente superior à da OCDE. O problema está nos alunos que já ficaram retidos, uma, duas, três vezes. São esses que puxam os resultados portugueses para baixo - e puxam mesmo, porque as 3 esferas somadas (relativas ao 7º, 8º e 9º anos) dão uma esfera bem grande.

Atenção: não está em causa o facto de em Portugal o nível de dispersão dos resultados ser grande (noutros países isso também acontece); o que está em causa é que esse nível de dispersão está directamente ligado aos anos de escolaridade frequentado pelos alunos que ficam abaixo da média.

Há duas possíveis conclusões a retirar daqui. A primeira é que, contra todo o senso comum (e conversa habitual do PSD e do CDS), o nosso sistema é selectivo. É muito selectivo. Os alunos que não perderam qualquer ano obtêm muito bons resultados; os que ficaram para trás - e que são por definição prejudicados pelos testes do PISA, desenhados, repito, para alunos ques estejam a terminar a escolaridade obrigatória (15 anos = normalmente 10º ano de escolaridade) - apresentam resultados negativos - alguns confrangedoramente negativos (a maior parte deles talvez quiçá explicados pelo facto de não terem sequer compreendido o que lhes era perguntado, o que também é facil de perceber: não se pode pedir a um aluno do 7º ou 8º ano que perceba uma questão que exige, eventualmente, competências que só aprenderá no 9º ou no 10º). A Finlândia, por exemplo, que surge quase sempre em primeiro lugar nestes estudos, tem um sistema que não selecciona: praticamente todos os estudantes chegam ao final da escolaridade obrigatória sem terem sido retidos uma única vez.

A segunda conclusão possível é que a retenção não serve de praticamente nada em termos de recuperação dos alunos. Enquanto instrumento compensatório das aprendizagens, a retenção é de uma ineficácia extrema. Como instrumento de exclusão de alunos, por outro lado, é de uma eficácia ímpar.

A resposta não é proibir as retenções e deixar tudo como está, permitindo os alunos percorrerem sem problema os anos da escolaridade básica e secundária. A resposta passa por se fazer com eficácia e qualidade cá o que se faz nos outros países que proibiram por via administrativa a retenção. Os finlandeses não são pequenos génios, mas, desde o primeiro momento em que os alunos revelam dificuldades na aprendizagem, são accionados mecanismos de aprendizagem compensatória e de reforço pedagógico que não os deixam ficar para trás. Por cá, estes dispositivos também já existem - chamam-se planos de recuperação e, como mecanismo de reforço de aprendizagem, deviam substituir gradualmente a prática da retenção que é, se se vir bem, um mecanismo facilitista, sim, mas para o professor.

Monday, December 3, 2007

Et voilà

É sempre bom ser alvo de um argumentum ad hominem por parte de alguém do calibre intelectual do Zé Neves. Pena é - e confesso a minha desilusão - que haja pouco para discutir, à parte das minhas funções profissionais e do bias que daqui adviria (que as pessoas possam pensar para além das suas funções profissionais é algo que certas pessoas não percebem: deve ser da "funcionarização da mente" que projectam nos outros). Se o Zé Neves não quis perceber o alcance da minha argumentação aqui, que era um comentário - mas que devia pelos vistos ter transformado em post, agora percebo e faço mea culpa -, é porque a levou para o lado pessoal ou, pior, "psicanalítico" (seja lá o que isso for; se houve alguma coisa que eu não tentei fazer foi psicanalizar ou psicologizar o que quer que seja, mas adiante; se o problema é a questão da "masturbação intelectual", tudo bem, terei pecado por excessiva informalidade - afinal de contas, o Zé Neves fez o favor de mostrar o contexto em que nos conhecemos [como se isso tivesse a mais pequena relevância para o quer que seja], por isso não preciso de repetir -, mas isso não tem nada a ver com a substância do comentário; retire-se isso e o resto mantém-se por inteiro).

O problema é que o Zé Neves me acusa - de não ser capaz de separar o público do privado - daquilo do que ele próprio é incapaz, mas a uma escala, para o debate político, com consequências muito mais negativas. Para o Zé Neves, o cargo das pessoas é sempre mais importante do que as pessoas dizem. Nada disto é novo. Como há uns tempos referi a propósito de outra polémica, há uma esquerda especializada* no uso e abuso da falácia genética, cujo mandamento é mais ou menos assim: "não discutas o que a pessoa diz/escreve, discute de onde ela vem/o que ela faz". É uma espécie de uso pedestre da sociologia do conhecimento.

Eu podia começar a prescrutar o currículo político-académico do Zé Neves, ver as suas clientelas e de quem é ele cliente, se já foi do PCP, se agora é do BE, a mando de quem é que ele escreve, etc., etc., etc.. Não o faço como o nunca o fiz, porque para mim isso não só é o grau zero do debate político (ou outro), como, sobretudo, define quem usa e abusa desses argumentos. Como dizem os sociólogos, esses especializados nessa falsa ciência «a meio caminho entre a futurologia e a demografia» - eu adoro estes argumentos de quem não tem um pé epistemológico em que se aguentar, ou não pretende reivindicar nenhum - quem dessa forma classifica, classifica-se.

Depois com mais tempo tentarei procurar explicar melhor o que quis dizer no comentário em causa, porque ele era, antes de mais, impessoal. E o Zé tem razão quando escreve: «Antes porém, e para desdramatizar, convém dizer que as bocas do Hugo Mendes não configuram um ataque dirigido especialmente contra mim. Um outro qualquer Hugo poderia mandá-las a um outro qualquer Zé». Exactamente, Zé: tivesses levado esta tua frase a sério e tinhas feito melhor figura, terminando o teu post por aí. Há pessoas que enfiam o barrete tão fácil como desnecessariamente.

E se a levasses ainda mais a sério, farias um debate de ideias - e desculpa, mas estão algumas no meu comentário em causa, mesmo que não gostes delas; se discordas, contrapõe com outros argumentos - e não um chorrilho de insultos, que é a única coisa que o teu post contém. A este tipo de coisas, meu caro, eu faço como os adversários do Benfica a cada cruzamento do Luís Filipe: "desses venham mais".

* Felizmente esta esquerda não é toda a esquerda. Dos inúmeros e quentes debates que tive, por exemplo, com o Renato Carmo no Peão ou - em menor número, é certo - com o João Rodrigues nos Ladrões de Bicicletas, nunca nenhum destes dois bloggers, no meio do calor e da violência da discussão, teve a necessidade de dizer que eu trabalhava para X ou falava em voz de Y. Para eles, e para todos aqueles com quem ainda vai sendo possível discutir política a sério, a minha pequena homenagem.

Friday, November 30, 2007

Max Richter

Life chance politics

...ou porque é que a luta contra a pobreza infantil deve ser a primeira prioridade política de luta contra as desigualdades. Quanto mais tarde agirmos sobre elas, mais ineficiente e mais caro será. A pobreza infantil determina em larguíssima medida as oportunidades de vida dos futuros adultos, e isto é resultado de algo profundamente arbitrário: o resultado de se nascer numa família pobre e não numa rica.
Até a direita não-libertária (i.e., aquela que acha que existe mundo para além dos livros de filosofia política que reconfortam a sua predisposição para elevar o egoísmo e a indiferença a nobres ideais morais) concordaria que as crianças não devem ser injustamente prejudicadas por algo - a condição económica da sua família - que não é da sua responsabilidade.

A Fabian Society propõe a ideia/conceito/slogan de life chances como o leitmotiv polític central do terceiro mandato do New Labour, que se propõe acabar com a pobreza infantil no Reino Unido até 2020. Para quem está na cauda da tabela europeia, só suplantada pelos países mediterrânicos, este é uma meta complicada. Mas é provavelmente o melhor investimento que o país pode fazer. E a mesma mensagem serve, ceteris paribus, para Portugal.

P.S. - Uma boa parte deste investimento faz-se através da educação. Por isso é que em vez de, na sua luta contra os NEET (jovens "not in education, employment or training"), em vez de os ameaçar com a ida ao tribunal e respectiva multa (ver post anterior), os jovens deviam ser convencidos e incentivos e não compelidos, sob ameaça, a ficar na escola. Nem que o governo lhes tenha, para isso, que pagar (juntamente com as empresas, por exemplo, se se tratar de estágios). Ninguém disse que o investimento saia barato.

Um caminho perigoso

Queremos mesmo começar a multar os alunos que faltem às aulas durante a escolaridade obrigatória? É nestas coisas que provavelmente a pior face do New Labour, a punitiva, vem ao de cima. Por cá, estas medidas seriam - se o fossem, a este nível - propostas pelo CDS-PP.

Uma questão importante...

...neste post do Zèd. Depois talvez escreva mais longamente sobre isto aqui, a partir do comentário que lá fiz.

Thursday, November 29, 2007

Muito exigente deve ser o nosso ensino, de facto

Lido num take da 'Lusa':

Portugal único país desenvolvido com taxa de repetentes a atingir 10 por cento nos primeiros ciclos - UNESCO

Portugal é o único país desenvolvido onde a taxa de alunos repetentes no primeiro e segundo ciclos atinge os 10 por cento, de acordo com dados da UNESCO divulgados hoje.
Segundo o relatório anual "Educação para todos" da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), um em cada dez alunos portugueses (10,2 por cento) a frequentar a antiga primária e o 2º ciclo chumbaram e estão a repetir o ano de escolaridade.
Em Espanha e na Alemanha estes valores situam-se nos 2,3 e 1,4 por cento, respectivamente, enquanto em países como Finlândia, Grécia, Irlanda e Itália a taxa não atinge sequer um por cento.


Isto é o resultado do que se chama cultura da retenção.

The Vision Thing

Custava assim tanto fazer uma coisa deste género, à esquerda, em Portugal?

Calexico / Iron & Wine



O tema chama-se 'He Lays In The Reins', faixa que dá ao título ao EP de 2005. Para saber mais, basta consultar a página dos 'Iron and Wine' aqui.

Tolerância dos cidadãos às desigualdades


Os dados já são antigos, na maioria com cerca de 20 anos, oriundos do International Social Survey Program* (mas as atitudes e opiniões das pessoas não mudam rapidamente nestas questões, e o grau de consistência ao longo de tempo é assinálavel), mas mostram a diferente tolerância das populações de 8 países em relação às desigualdades salariais (a partir da resposta à pergunta «quanto acha é que o ---- devia ganhar?»). A base 100 corresponde ao salário de um operário fabril pouco qualificado. Vemos como em países como a Noruega ou a Suécia a diferença máxima aceitável entre o operário e um gestor de uma grande empresa é inferior a 2 vezes e meia, no EUA as pessoas aceitam que este último ganhe mais de 11 vezes o salário do operário! Dos países europeus, é a Alemanha que mais se aproxima - apesar da enorme distância - da tolerância dos norte-americanos às desigualdades.
* Quadro retirado de Stefan Svallfors, "Worlds of Welfare and Attitudes to Redistribution: A Comparison of Eight Western Nations", in "European Sociological Review", 13 (3), 1997, pp.283-304.

As baixas desigualdades salariais como um bem público

Alemanha
Altos salários de gestores podem pôr em causa paz social - Presidente

2007-11-28, 23h44
Berlim, 28 Nov (Lusa) - O presidente alemão, Horst Koehler, acusou hoje os gestores das grandes empresas do país de estarem a pôr em causa a paz social, ao fazerem com que os seus salários aumentem acima da média dos restantes trabalhadores.
"Existe um sentimento compreensível no seio da sociedade de que qualquer coisa não vai bem quando o rendimento de uns conhece fortes aumentos, enquanto que o dos outros estagna", afirma o chefe de Estado alemão em entrevista a ser publicada quinta-feira no influente diário económico Handelsbatt.
O resultado desta prática, afirma o ex-director do Fundo Monetário Internacional, é "uma alienação crescente entre empresários e sociedade".
Koehler apela a que os accionistas e conselhos de administração assegurem que os gestores "não percam a noção da proporção" nas suas "pretensões salariais".
A Alemanha, afirma, precisa de que os dirigentes empresariais "adoptem uma cultura de moderação e dêem o exemplo" aos restantes quadrantes sociais.
Dados recentemente publicados pelo Ministério do Trabalho alemão indicam que, entre 2000 e 2006, os resultados das empresas aumentaram 42 por cento, enquanto que os salários cresceram apenas 4,5 por cento.

Wednesday, November 28, 2007

E esta?

Argentina
Empresa inaugura fábrica em prisão

2007-11-28, 00h54
Buenos Aires, 28 Nov (Lusa) - Uma empresa argentina inaugurou uma fábrica de processamento de pescado dentro de uma prisão na Argentina e que terá 25 presos como operários, que vão receber salário e todos os benefícios da segurança social.
O projecto é pioneiro no mundo e foi desenvolvido na unidade penal de Batán, próxima da cidade de Mar del Plata, a 420 quilómetros da capital argentina.
A fábrica, que ocupa cerca de 200 metros quadrados dentro da prisão e dá trabalho remunerado, com direito à segurança social, a 25 presos, está, no entanto, projectada para um total de 300, explicou o director do Serviço Penitenciário da região de Buenos Aires, Fernando Díaz.
A empresa Infood S.A., que dinamiza o projecto, é local e indicou que a sua iniciativa tem como objectivo a reinserção dos presos na sociedade e assinalou que a fábrica não funcionará como uma cooperativa mas sim como uma pequena e média empresa.
A construção do espaço também esteve a cargo dos reclusos que receberam pelo trabalho e levou ao investimento por parte da empresa de cerca de cem mil euros.
A selecção dos presos teve como critérios, numa primeira fase, a conduta e, numa segunda, os conhecimentos dos reclusos em relação aos trabalhos que iam desempenhar na fábrica.

Tuesday, November 27, 2007

O regresso dos The Devastations

É o regresso da banda australiana, com o 3º trabalho, 'Yes, U', editado em Setembro passado (que já passou por Lisboa, em Fevereiro passado, no Santiago Alquimista). Aqui fica uma versão ao vivo de um dos temas, 'Rosa'.




Entretanto, ficam na lista de músicas aqui em baixo as faixas do primeiro álbum da banda, intitulado "The Devastations" (2004).

Monday, November 26, 2007

Quadro Europeu de Qualificações: uma revolução silenciosa?

Hoje foi apresentado em Lisboa o Quadro Europeu de Qualificações [QEQ] (texto aprovado pelo Parlamento Europeu aqui). Parece mais um documento chato para entreter os burocratas de Bruxelas, mas não é: é algo que pode, a prazo, causar grandes mudanças na forma como as pessoas organizam a sua vida na Europa. Depois, com mais tempo, escrevo mais sobre isto, mas o QEQ trata-se basicamente de uma grelha de tradução das qualificações obtidas por um cidadão num qualquer país da UE, que sabe que a sua qualificação será reconhecida como válida e como tendo o mesmo valor que tem no país de origem. Claro, Bolonha já fazia isso para o ensino superior, mas o QEQ alarga isto a todas as qualificações de todos os níveis de ensino - e mesmo as obtidas pelo reconhecimento de competências obtidas por via não-formal ou informal.
Foram criados oito níveis de qualificações que pressupõem uma correspondência a um conjunto de 'conhecimentos', 'aptidões' e 'competências' (ver nos 3 quadros).

A prazo, isto pode revolucionar o mercado de trabalho. Ao contrário do que acontece nos EUA (e esta é uma vantagem comparativa pouco lembrada, mas que joga de facto a favor do caso americano ao nível da mobilidade e competitividade interna), onde as barreiras linguisticas e culturais são muito reduzidas e onde a mobilidade profissional das pessoas é ampla, na Europa a situação é muito diferente, e a maioria das pessoas não tem qualquer oportunidade de procurar emprego longe do sítio onde vivei ou obteve alguma qualificação/experiência profissional. Quando muito, a maioria das mudanças dão-se no interior do mesmo país. A criação do QEQ procura mudar um pouco isto.
Do ponto de vista colectivo (e económico), a existência de barreiras à mobilidade do género que existe na Europa não é conducente a uma maior eficácia no uso dos recursos humanos; esta unificação do mercado de qualificações aumenta em teoria, por isso, a competitividade e a qualidade dos produtos e serviços.


Do ponto de vista individual, abre oportunidades a quem queira aventurar-se num outro país sem ter que sofrer uma imediata discriminação ao nível das qualificações de que é portador. Assim, por exemplo, uma pessoa com uma qualificaçao do nível 5 em Portugal é uma pessoa com qualificação do nível 5 na Áustria - se Portugal e Áustria alinharem o seu quadro de qualificações nacional pelo europeu (o que não completamente garantido, dado que o QEQ é de adopção voluntária; mas Bolonha também era e generalizou-se mais ou menos rapidamente; e Portugal é dos países que mais tem feito nos últimos tempos por avançar neste processo, e o Quadro Nacional de Qualificações, já aprovado em Conselho de Ministros, está em discussão pública). Isto, logicamente, reduz as discriminações e, simetricamente, as situações de protecção/privilégio (altamente injustos, porque determinados pelo acaso de uma pessoa nascer no país Y ou Z).

Há outras dimensões muito importantes de todo este processo, que tem que ser compreendido numa lógica de aprendizagem ao longo da vida - devidamente consagrada no 'Programa para a Aprendizagem ao Longo da Vida' (2007-2013) lançado pela presidência alemã no primeiro semestre de 2007, e que corresponde a um real descentrar da escola como único dispositivo institucional onde é possível alguém 'aprender' e 'qualificar-se'. A este fim de um certo 'escolocentrismo' corresponde, em compensação, um ênfase muito maior no que as pessoas sabem fazer ou conhecem (nos resultados), independentemente de onde aprenderam/fizeram o curso (a 'fama' das instituições).

Depois volto a esta temática.
Mas isto são boas notícias. Estão lançadas as bases para que, no futuro, se avaliem progressivamente as pessoas, os seus percursos e as suas capacidades menos em função de características particularistas - que tantas vezes alimentam perversos privilégios de status -, e mais pelo que são capazes e pelo que é universamente reconhecido: um passo em frente naquilo a que os sociólogos chamam 'modernidade'.

Top 5

Ora então para dar seguimento à cadeia (a ordem dos filmes é arbitrária):

Eyes Wide Shut (1999), de Stanley Kubrick
Dogville (2003), de Lars von Trier
A Vida dos Outros (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck
Pallombela Rossa (1989), de Nanni Moretti
Good Bye Lenin (2003), Wolfgang Becker

Tirando o filme de Kubrick, chego à conclusão agora que são filmes bastante políticos. Eyes Wide Shut é uma história fantástica sobre a traição a sobre duplicidade dos desejos e das vidas.

Com pena minha, In the Mood for Love (2000), de Wong Kar Way, fica de fora, mas não há lugar para todos. E Woody Allen e Clint Eastwood e Pedro Almodovar que me desculpem. And so on.

Passo a cadeia aos seguintes blogues:
A Vez do Peão
Timshell
Avesso do Avesso
País do Burro
2 + 2 = 5

Yaach!!

Bem sei que tenho um simpático repto do Mapa do Cais para nomear 5 filmes, imagino que daqueles que levaríamos para uma ilha deserta enquanto o dilúvio final não chega. Mas isso fica para amanhã. Agora é só mesmo para dizer que, depois de ver o bem Lynchiano "Eraserhead" - que estreou faz agora 30 anos e está em exibição no Nimas -, o comentário que assim de repente apetece fazer é que aquela narrativa delirante atinge seriamente qualquer desejo que possa subsistir no espectador de vir a ser pai/mãe.
Depois queixam-se das baixas taxas de fertilidade desta geração.

Perplexidade sociológica de domingo à noite

Será que o movimento europeu de reconhecimento e validação de aprendizagens não-formais e informais, institucionalizado pelo Quadro Europeu das Qualificações - apresentado hoje em Lisboa -, vai acabar com a amplitude empírica do conceito de "conhecimento tácito"?

Wednesday, November 21, 2007

Um par de CDs

Nem quero imaginar o que se diria do "Governo", de "Portugal", dos "portugueses", e do "futuro da nação" e etc. se uma coisa destas acontecesse por cá.

Da superioridade moral do socialismo


Ainda não completamente refeito do impacto desse exquisite documentário que é "Sicko", de Michael Moore - e que merece uma resenha mais alongada mais tarde -, para já só me apetece dizer isto: perante a propaganda produzida nos EUA contra a ideia de um sistema público e universal de saúde (sobre o que isso implicaria em termos da "estatização da medicina", etc.), entre as muitas inverdades e exageros que se dizem/escrevem, há uma coisa que é verdade, sim: um sistema público e universal de saúde é uma construção segundo princípios socialistas, onde vigora o princípio da igualdade independentemente dos rendimentos, qualificações, estatuto social, etc., e onde cada um paga em função das suas possibilidades e recebe cuidados em função das suas necessidades. Perante as situações hediondas que Moore mostra no filme (atenção: em todos os sistemas há situações hediondas - mas há uma enormíssima diferença entre a situação hedionda que viola profundamente os princípios do sistema (e que por isso deve ser corrigida), e a situação hedionda que decorre natural e inevitavelmente desses mesmos princípios), apetece mesmo dizer: não apenas um sistema público e universal concretiza princípios socialistas, como serve de clara demonstração do que noutros tempos se chamava, pomposamente, a "superioridade moral do socialismo". Já não há assim tantas instituições que consigam mostrar isto, mas esta é uma delas.

Tuesday, November 20, 2007

Sobre a política da retenção

Talvez muita gente fique escandalizada por causa disto. Mas convém lembrar que em Portugal é, se os dados comparativos servem para aprender alguma coisa, o país onde mais se usa o instrumento da retenção - que sabemos ser um primeiro passo para o abandono escolar (ver figura, primeira coluna "Taux de retard aux 14 ans", que mede precisamente a percentagem de alunos que nessa idade já repetiram pelo menos um ano - Portugal tem o valor mais elevado dos países europeus em comparação; dados provenientes rede Eurydice, 2003, reproduzidos em Marcel Crahay, Peut-on lutter contre l'échec scolarie?, Bruxelas, De Boeck & Larcier, 3ªedição, 2007, p.45).



Talvez muitos protestem contra a ideia "escandalosa" de promoção automática, mas a verdade é que a promoção automática está institutucionalizada em vários países europeus, em particular nos nórdicos, onde praticamente ninguém fica pelo caminho até ao fim da escolaridade obrigatória (9, 10 ou 11 anos, consoante os países). Estes sistemas não são facilitistas; os seus alunos estão geralmente muito bem classificados nos testes internacionais do PISA. A diferença é que estes sistemas estão organizados de forma a fazer tudo para manter os alunos na escola e recorrer à retenção só em casos excepcionais.

Missão impossível

Carlos Oliveira: Mas e tu? Vês-te do lado da teoria feliz ou do lado moderno, com os desconcertados?
Peter Sloterdijk: Talvez queira o impossível, a modernidade e a felicidade ao mesmo tempo.

in Peter Sloterdijk, Ensaio sobre a Intoxicação Voluntária. Diálogos com Carlos Oliveira, Lisboa, Fenda (2001[original alemão de 1999, tradução de Cristina Peres]), p.39

Monday, November 19, 2007

Blue Monday

Os números de INE hoje publicitados pelo Diário Económico não são nada encorajadores, onde se lê que, de 2005 para cá, «houve uma destruição de 167 mil postos de trabalho com maiores qualificações – dirigentes e quadros superiores, profissionais intelectuais e científicos e técnicos de nível intermédio. Segundo o INE, eram 1,372 milhões de trabalhadores no primeiro trimestre de 2005, mas recuaram para 1,205 milhões no terceiro trimestre deste ano. Uma quebra de 12%, que fez diminuir este tipo de empregos de 27% para 23% do total».

Para quem pretende entrar de vez numa economia pós-industrial assente na inovação tecnológica e organizacional, e no uso intensivo de recursos humanos qualificados, este não é melhor caminho. Vivemos provavelmente os resquícios de uma época em que emprego qualificado estava excessivamente dependente da mão protectora do Estado, que, por questões orçamentais, não pode continuar a agir como no passado. A mudança deste padrão leva tempo, e depende de um ajuste particularmente complicado entre oferta e procura de emprego qualificado – sabendo-se que o investimento do sector privado em áreas onde a inovação tecnológica e/ou organizacional responde a níveis de exigência e requer níveis de enlightenment por parte dos investidores e/ou empregadores que são tudo menos naturais. É que é muito mais difícil montar uma empresa de biomateriais do que um café. A formação em gestão e o apoio do Estado através de programas especiais como objectivo de limitar os poderosos efeitos da incerteza de investimento nestas áreas são essenciais, mas os resultados são aqui tudo menos imediatos.

É importante também saber separar os fenómenos de conjuntura dos mais estruturais. Por exemplo, nos primeiros, se o desemprego entre licenciados subiu, é importante saber há quanto tempo estas pessoas estão desempregadas. Estar no desemprego ao fim de uns meses quando se procura o primeiro emprego é relativamente comum; e convém não menosprezar o efeito Bolonha, que fez com que mais pessoas completassem num curto espaço de tempo os seus cursos mais depressa do que seria previsível no início. No que toca aos segundos, é importante saber em que áreas é que o desemprego (ou a dificuldade de encontrar um primeiro emprego) é mais forte. É bem possível que o país não precise, nem vá precisar no futuro, de tantas pessoas formada em humanidades ou nas áreas eminentemente ligadas ao ensino; o upgrade tecno-económico requer indivíduos com qualificações na área das engenharias e das ciências. Falar de licenciados em abstracto só obscurece o fulcro do problema.

He Lost Control

Control, filme sobre a curta e conturbada existência de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division, está longe de ser uma obra-prima. Há qualquer coisa de trivialmente anti-aurático neste tipo de filmes que contam a história banal daquele que, por detrás da pop star amada por milhões, não deixa de ser um homem banal (ainda por cima, baseados na narrativa de alguém que é tudo menos um personagem neutral - o argumento é construído a partir do livro da sua viúva, Deborah Curtis (representada por Samantha Norton)).

Ian Curtis era um rapaz nascido e educado num pequena cidade perto da Manchester, Macclesfield, terra «grey and miserable», nas suas palavras, que escrevia poemas enquanto adolescente, expressava a sua rebeldia fumando no quarto a ouvir David Bowie e, filho de classe média-baxia - provavelmente filho de um honroso mas pouco qualificado civil servant, a avaliar pela casa, roupas e ethos corporal do pai -, tinha que roubar comprimidos contra a esquizofrenia da casa de banho da casa das velhas do bairro para explorar o mundo das drogas, em vez do LSD e da erva a que os seus mais privilegiados colegas da grammar school teriam acesso. Saiu da escola, casou-se por volta dos 20 anos, e foi trabalhar para um centro de emprego - não deixa de ser cómico o vocalista do Joy Division, qual dedicado street bureaucrat , ajudar os clientes do Estado social a encontrar emprego (o filme é generoso nesse aspecto, porque entre 1976 e 19780 o desemprego explodiu no Reino Unido, e Ian age sempre como se tivesse milhões de empregos para ajudar quem lhe aparecesse pela frente). Um dia, em troca das 400 libras que pede à mulher para alugar um estúdio para gravar o primeiro disco da banda, pergunta se não ela queria ter um filho.

A troca, mesmo que Maussiana, saiu cara a Ian. A sua vida doméstica nunca deixou se ser cinzenta e miserável como Macclesfield, e o nascimento da sua filha tornou tudo pior. E a sua epilepsia, que nunca fez por controlar (sempre ignorou os conselhos médicos), ia-lhe progressivamente retirando o controlo sobre a sua vida - que perdeu por completo quando se envolveu com uma funcionária da embaixada belga em Londres, Annik Honorek (representada pela actriz Maria Alexandra Lara). A partir daqui, é o evoluir trivial de um triângulo amoroso e da correspondente espiral de culpa, isolamento, e self-commiseration.

Uma vez que não conseguiu acabar com o dito triângulo, este acabou por levá-lo a por fim à vida. A 18 de Maio de 1980, na véspera de partir com a banda para a primeira grande digressão pelos EUA, Ian enforca-se, em plena cozinha, com a corda do estendal, onde secava a sua roupa interior. Sem honra nem glamour, Ian Curtis matou-se aos 23 anos.

Ficam as músicas, cujo significado começamos a perceber quando vemos as imagens cinzenta e miserável Macclesfield amarrado a uma cinzenta e miserável vida conjugal. Esta combinação, pelo menos, ajuda bastante a compreender a letra de "Love Will Tear Us Apart".



When routine bites hard, and ambitions are low
And resentment rides high, but emotions won't grow
And we're changing our ways, taking different roads
Then love, love will tear us apart again

Why is the bedroom so cold? You've turned away on your side
Is my timing that flawed - our respect run so dry?
Yet there's still this appeal that we've kept through our lives
Love, love will tear us apart again

You cry out in your sleep - all my failings expose
There's a taste in my mouth, as desperation takes hold
Just that something so good just can't function no more
When love, love will tear us apart again.

Saturday, November 17, 2007

A improbabilidade da comunicação

"Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no facto de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente?"
Michel Foucault

A resposta é óbvia: a comunicação gera entropia. Quanto mais "comunicamos", maior a probabilidade de não nos entendermos, de sermos mal intepretados, de entrarmos no infinito círculo "não era bem isso que eu queria dizer".

Mas é esse o prazer da comunicação: jogar no espaço cinzento da indefinição ontológica do sentido, não apenas para o receptor, mas, e quiçá principalmente - algo tantas vezes esquecido ou subvalorizado -, para o emissor. «Às vezes compreendemos algo / entre a sombra e a sombra», escreve António Ramos Rosa. E muitas vezes a sombra é tanta que não compreendemos coisa nenhuma.

Os prazeres, claro, comportam riscos. Para quem escreve e para quem lê. Mas esse double bind faz parte das regras do jogo. Ou antes: é esse double bind que faz o jogo.

Por isso é que a blogosfera não devia ser tanto visto como um espaço de "comunicação" ou de "expressão". If anything, é um fantástico dispositivo de produção de entropia, uma máquina de fabricação de mal-entendidos. Mas só é enganado quem se deixa sê-lo.

Friday, November 16, 2007

Song

Don’t lie to me please
about anything big, about anything
else. I’d rather know what was destroyed
than have you lie
because that’s more destructive.

Don’t lie about love,
something you feel or something you’d
like to feel. I’d rather
be sad than have you lie
because that’s sadder.

Don’t lie about danger
because I know your fears
and if I don’t trust what I know
you’ll be a stranger
and that’s more dangerous.

Don’t lie to me about sickness,
I’d rather look into that pit
than lose myself in one
of your sweet placations
because I’d lose myself more.

Don’t lie to me about dying
because as long as we’re here
I find that blocked
unsharing of thoughts
worse and much more dead.


Judith Herzberg (1934-)

tradução de Shirley Kaufman e Judith Herzberg,
in But What: Selected Poems (Oberlin College Press, 1998)

Tuesday, November 13, 2007

Diagnósticos para além das polémicas


«Southern European welfare states suffer from many of the same problems as the Continental family - especially in the labour market - but they also have their own specific traits. In Spain, Portugal and Greece and (to a lesser extent) Italy, the welfare state developed later than in northern Europe and has ad to cope with more difficult socio-economic enviroments. Social protection entered the age of permanent austerity on a state of institutional and financial underdevelopment and was beset by internal unbalances. The social transfer systems of these countries have peaks of generosity for certain occupational groups alongside large gaps of protection for certain others. Insiders and outsiders - both in the labour market and more general acess to benefits - are separated by a sharp divide in terms of guarantees and opportunities. The black economy is excessive, posing serious efficieny and equity problems. Public services are still unevenly distributed and, in some cases, insufficient and/or inefficient. These countries have thus been forced into shifting coverage, providing less generous benefits for insiders and - to the extent that budgetary constraints allow it - new benefits and services for the outsiders. The inherent difficulty of doing so is aggravated by a particularly adverse demography: southern European populations (especially those of Italy and Spain) are ageing at one of the fastest rates in the world». (e Portugal não fica muito atrás). (p.157)
Maurizio Ferrera, Anton Hemerijck e Martin Rhodes, "Recasting European welfare states", in Welfare Futures, editado por Stephen Liebfried (2001)

Uma proposta humilde

Já que se lembram de inventar mercados para tudo, até para a poluição, não há ninguém que pense em criar um mercado do sono? As pessoas que têm menos actividade (em sentido lato) e que não precisam de estar tanto tempo acordadas (e provavelmente até gostam bastante de dormir) podiam ceder - em troca de uma compensação monetária, claro está - alguma da energia aos que precisam dela e gostariam de dormir menos. Assim, eu vendia as horas que preciso de dormir - bom, pelo menos algumas - e comprava energia suficiente to carry on.

Podem rir-se. Quando daqui a muitas décadas a inovação tecnológica permitir semelhantes transferencias, vão ver que eu tinha razão. E o capitalismo terá transposto outra fronteira.

Monday, November 12, 2007

Blonde Redhead



Excelentes como cover band dos Interpol na quarta-feira passada, os nova-iorquinos Blonde Redhead, aqui com o single do último álbum com o mesmo nome: "23".

Jobless growth

Lido no "Público":

De acordo com as estimativas divulgadas pela Comissão Europeia na passada sexta-feira, a produtividade nacional - medida como o PIB por pessoa empregada - deverá crescer em 2007 a uma taxa de 1,5 por cento. Este resultado ultrapassa os 1,1 por cento esperados para a zona euro. É necessário recuar até 1999 para encontrar outro período em que a produtividade portuguesa tenha crescido mais rápido do que a dos seus parceiros da moeda única.A explicação para este brilharete não está, na sua maioria, na aceleração do produto em Portugal. O PIB português até volta este ano a crescer bastante menos que a média europeia. O que acontece é que Portugal está a conseguir produzir mais sem que os empregos cresçam ao mesmo ritmo. Isto significa, para além da manutenção de uma taxa de desemprego elevada, um ganho de produtividade de que beneficiam as empresas.

Isto quer dizer que algo de sério vai mal no mercado de trabalho, em particular no que diz respeito à protecção do emprego. Se determinados empregos são hiper-protegidos, quando vem a retoma, os empregadores preferem não contratar ninguém - e fazer os que ainda estão contratados trabalhar ainda mais, ou entao a "contratar" uma máquina. É por isso que o nosso mercado de trabalho nao pode continuar como está, porque assim não vai conseguir absorver desemprego em nenhuma escala decente - partindo do princípio que a retoma do crescimento está para ficar.

Thursday, November 8, 2007

Completely relaxed about people getting filthy rich

Tony Blair factura 341 000 € com algumas horas na China

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebeu 500 mil dólares (341 mil euros) por uma curta deslocação de três horas a um condomínio de luxo na China, noticiou hoje a imprensa estatal chinesa.

Peter Mandelson disse uma vez, numa daquelas frases que traduzem bem o zeitgeist, que o New Labour estava «relaxed about people getting filthy rich». Ora pois.

Depois da tragédia, a farsa

Venezuela
Chávez garante que "nada nem ninguém" travará o seu projecto de socialismo do século XXI
2007-11-08, 16h19

Caracas, 08 Nov (Lusa) - O presidente venezuelano, Hugo Chávez, garantiu hoje que "nada nem ninguém" o fará desviar do seu projecto de instaurar um regime de "socialismo do século XXI" no país, apesar da oposição à reforma constitucional


...que me faz lembrar uma história...

«Hegel remarks somewhere that all great world-historic facts and personages appear, so to speak, twice. He forgot to add: the first time as tragedy, the second time as farce

Karl Marx, The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte (1852)

Sunday, November 4, 2007

Dustin O'Halloran



Piano Solos, Vol.2 (2006)

Friday, November 2, 2007

O aumento de Sarkozy

Parece que Sarkozy resolveu aumentar o seu salário em 140%: de 8400 euros/mês para 19330 euros/mês. O aumento é brutal, é verdade. De qualquer forma, 8400 era um valor ridículo, e 19330 coloca pelo menos a França na linha da norma europeia/internacional, pelo menos no que aos países mais ricos diz respeito (o primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern ganha 25830 euros/mês e é o mais bem pago; G.W.Bush ganha 23000, sensivelmente o mesmo que Angela Merkel; Gordon Brown recebe 22470; Romano Prodi aufere 16370, e Fredrik Reinfeldt , o primeiro-ministro sueco, 13700). Talvez o aumento de Sarkozy caia mal publicamente, ainda por cima em clima de elevada conflitualidade sindical, mas os cargos políticos devem ter salários condignos. Caso contrário, só se atraem os medíocres - e uma política feita por medíocres dificilmente deixa de ser uma política medíocre.

A mesmíssima mensagem vale para Portugal. Um ministro ganha pouco mais de 4000 euros. Um professor auxiliar numa universidade nao ganhará muito menos; e um quadro de topo numa empresa pode ganhar mais, muito mais. Quando assim é, para quê vir para a política e entregar-se a uma missão de serviço público, quando se ganha mal e isso traz imensas chatices, do jornalismo incompetente à oposição demagógica, entre outras irracionalidades inerentes à vida das organizções e instituições?

Literatura quente




A descoberta da pólvora

"Dias difíceis para escolas públicas que são factor de desigualdade", diz o editorial do José Manuel Fernandes.

Obrigado, "Público", porque o resto das pessoas - aquele que nunca entra nas escolas, como o dito director gosta de moralizar sempre que pode - ainda não sabia que as escolas são factor de desigualdade. Estamos gratos por semelhante notícia, porque ainda nunca ninguém da tinha chegado a essa conclusão.

Resta dizer que as regras do sector privado, que o "Público" secretamente elogia, aumentariam ainda mais essa desigualdade e levariam a selecção a níveis estratosféricos. Porque é que José Manuel Fernandes não escreve isso?

Já sei. Se calhar ainda o acusavam de também ter descoberto a pólvora. E só se descobrem coisas como a pólvora uma vez.

The Organ - Sinking Hearts

Wednesday, October 31, 2007

The Organ - Steven Smith

Estes não actuam em Lisboa - não para já. O primeiro álbum dos "The Organ", intitulado 'Grab That Gun', está cheio de óptimas faixas, e eu irei colocar algumas aqui ao longo dos próximos dias. À espera que alguém os tragam para tocar em Portugal.

Tuesday, October 30, 2007

A exigência e a interpretação das estatísticas segundo o "Público"

O "Público" é um jornal muito exigente. Já sabíamos. Muito exigente para consigo e para com os outros. Assim, quando o Ministério da Educação anuncia que «a taxa de insucesso escolar caiu de 32 por cento para 25 por cento, em dois anos» no ensino secundário, o que corresponde ao número mais baixo alguma vez registado em Portugal, o "Público" escreve no título "Insucesso escolar em Portugal baixa sete pontos percentuais mas ainda é de 25 por cento". Ainda! Portanto o que é merece efectivo relevo na notícia nao é o ganho obtido, mas o facto de ainda estarmos atrás dos outros países europeus (que é, como sabemos, uma grande novidade, e é por isso que merece tamanho relevo). Caramba, devia baixado aí para 15% logo, ou valor semelhante. Isso sim, seria uma convergência imediata com as taxas europeias. É o que se chama exigência.

Esta salutar atitude de exigência já havia ficado demonstrada na semana passada, onde - infelizmente não consigo recuperar a notícia no site do "Público" -, em reacção aos resultados de um dos relatórios apresentados na conferência organizada nos passados dias 22 e 23 de Outubro sobre o Plano Nacional de Leitura e que demonstravam que, por comparação com a mesma pergunta que constava num inquérito realizado em 1997, os não-leitores em Portugal (isto é, os que não lêem nenhum tipo de suporte - jornal, revista ou livro), tinham descido de 12% para 5%. O título da notícia (a tal que não consigo encontrar) era qualquer coisa do género: "em 10 anos, os não-leitores apenas desceram 7%".
Bom, se calhar convinha lembrar que ainda existem em Portugal pessoas que não sabem ler. Segundo os dados do INE de 2001, eram 9% os anafabetos no nosso país. Assumindo que algumas destas pessoas, seguramente de idade avançada, podem entretanto ter morrido, teremos de certeza, ainda hoje, mais de 5% da população portuguesa que não sabe ler. Assumamos, por agora, que são 5% - é um número que atiro ao ar, mas é uma estimativa conservadora: o valor bem pode ser superior. Ora, os esforços nos últimos 10 anos dos diferentes governos para levar as pessoas a ler não terão grande efeito sobre aqueles que não sabem ler de todo; se há hoje 5% de anafabetos ainda vivos, e se 5% - de acordo com o mencionado inquérito - são "não-leitores", parece-me simples concluir que é um pouco difícil baixar mais o número de não-leitores; é mesmo impossível que a queda entre 1997 e 2007 seja superior ao "míseros" 7% sublinhados pelo "Público". Provavelmente, foi atingido o tecto da população com capacidades de leitura em Portugal; "só" houve uma queda de 7% porque provavelmente não havia possibilidade de cair mais (fica, naturalmente, em aberto o número de analfabetos em Fevereiro de 2007, altura em que se realizou o inquérito, creio, mas, repito, 5% é um estimativa que muito favorece o "Público" neste caso)!

Mas isto deve ter escapado à exigência e ao rigor do jornal de José Manuel Fernandes. Para ressaltar os nossos endémicos atrasos - por muito que se esteja a trabalhar gradualmente, e com sucesso relativo, para os ultrapassar a médio prazo -, para isso, o jornal está sempre pronto. Se o dono do jornal, Belmiro de Azevedo, ainda tivesse interesses neste constante ataque à escola pública do género a que o "Público" nos habituou, bem como na extensão da rede de oferta privada em progressiva substituição da pública; isto é, se a SONAE tivesse a ambição de se substituir ao Ministério da Educação como maior entidade empregadora de professores, eu até desconfiava de que aqui havia gato. Mas, felizmente, e como acredito pouco em conspirações, devo estar enganado.

Será que o próximo presidente dos EUA terá coragem para acabar com esta idiotice?

A Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou hoje, por esmagadora maioria, uma resolução exigindo o fim do embargo económico imposto pelos EUA a Cuba há mais de quatro décadas. Esta é a 16ª vez desde 1992 que o órgão plenário da ONU, onde estão representados os 192 Estados-membros, aprova uma resolução sobre esta matéria, mas o diploma não tem valor vinculativo.

Uma certa ideia de justiça e de igualdade na educação


«Pour l'école de base, il nous semble devoir réclamer la justice corrective. Usant de dispositifs de discrimination positive et traquant tous les mécanismes par lesquels s'opère le renforcement des inégalités de départ - qu'elles soient d'origine naturelle, sociale ou scolaire - l'école de base, prolongée jusqu'à 15 ans, devrait se donner pour idéal l'égalité des acquis fondamentaux. Le redoublement d'une anné ne devrait être toleré que dans de cas très exceptionnels. Les compétences essentielles étant définies, les enseignants seraient tenus d'en faire acquérir la maîtrise par tous les élèves. Cela ne les dispenserait pas de susciter le développement d'autres compétences qui ne figuraient pas dans la liste des socles».


Marcel Grahay, Une École de Qualité Pour Tous!, Bruxelles, Editions Labor (p.22)

Interpol - The Pace is the Trick

Non-stop: depois de Rufus, no dia 6, os Interpol tocam no Coliseu no dia 7 de Novembro, no regresso a Lisboa depois do 'Super Bock Super Rock' de Julho.

Algumas considerações politicamente incorrectas sobre o "facilitismo" em educação

É muito interessante ler e ouvir o que por aí se escreve e diz em torno da revisão do estatuto do aluno e dos resultados hoje anunciados do ensino secundário. Mas o verdadeiramente extraordinário é a ideologia que leva as pessoas a pensarem que retenção = sinal de rigor, e fazer tudo para manter os alunos integrados na instituição escolar (que implica de facto mais, e não menos trabalho por parte das escolas) = facilitismo.

Mas apetece perguntar: facilitismo para quem? Nas actuais condições, só se fosse facilitismo para o professor, que assim pode sancionar legalmente as dificuldades reveladas por um aluno em vez de o procurar "agarrar", ir "atrás" dele, dar tudo para que este as supere e, se este não aprende de uma forma à primeira, possa aprender de outra à segunda, e aí por diante. Isto, sim, é o contrário do facilitismo. Facilitismo é continuar a manter escancarada a porta do chumbo, a opção exit sem quaisquer problemas acrescidos para quem avalia (a opção exit é como a opção de despedimento fácil e imediato nas empresas sem qualquer problema para quem a decide, ou seja, o patronato; a esquerda acha isto péssimo – eu também -, mas acha que os professores devem poder punir os alunos com a guia de marcha da “retenção” sem qualquer problema, despedindo-os daquela turma/ano. Muito curioso, mas nada de empiricamente extraordinário: como François Dubet gosta de dizer, a classe de professores é tão socialmente progressista como profissionalmente conservadora). Hoje, as tão atacadas ciências da educação - e tantas vezes sem sentido, fruto de tanta ignorância -, mas também a sociologia ou psicologia - outras ciências 'obscuras' para algumas elites - estão fartas de mostrar que a repetição não beneficia o aluno em nada. Em nada. Não são raros os casos em que ele revela saber menos no ano seguinte a ter chumbado do que no ano anterior, mas regularmente não sabe mais. Perdeu um ano, e não ganhou absolutamente nada: a consequência negativa é que ficou para trás com o estigma pessoal e social de que a escola (professores e colegas, tantas vezes nestas fonte de profundo reconhecimento e afirmação identitária) o olha como caso de fracasso. De fracasso em fracasso, claro: sabemos que quanto mais cedo um aluno chumba, maiores são as probabilidades de ele voltar a chumbar, até, pura e simplesmente, se cansar. Até que um dia sai da escola. Ponto final. É isto o "rigor"? Então Portugal, por este critério, é um país extremamente rigoroso. Voilà. Estamos no topo da UE. A nossa escola é tão boa, tão boa, chumba tantos e a um ritmo tão veloz, que deve ser de uma qualidade acima da média.

Quem decide o chumbo não vê a sua vida muito alterada - quando muito, vê-a facilitada, porque passa a ter menos alunos com dificuldades na mesma sala. Que tentação será, não é? Em vez de "puxar" pelo aluno, de o tentar "agarrar", de fazer tudo o que está ao alcance da escola - repito, da escola como colectivo, como instituição socializadora, não como soma de elementos atomizados minding their own business - para o recuperar, para o fazer melhorar (os verdadeiros rankings, os do futuro, vão, espero, poder medir o que se chama "valor acrescentado" que a escola traz ao aluno, independentemente do seu nível de partida - aí veremos se as escolas públicas ficam atrás das privadas), porque não simplesmente deixá-lo estar? Porque não, no limite, deixá-lo reprovar por faltas?

Comparemos agora o que se passa no caso de um médico. Ao contrário do professor, não há aqui escapatória, não há estratégia de exit, não há “retenção” que lhe resolva o problema: ele simplesmente não pode dizer “não” a um doente (idealmente, eu sei - e sobretudo isto só é possível no sector público, porque no privado também se constróem belos rankings 'chutando' os casos complicados para o público). Um médico que revelasse não ter feito tudo o que está ao seu alcance para salvar a vida do doente teria cometido uma grave falha ética e profissional (claro, sabemos que o Sindicato, perdão, a Ordem dos Médicos bem os protege de qualquer ataque à sua "autonomia", pelo que o mundo estará seguramente cheio de erros médicos por sancionar...); porque é que aceitamos que um professor que não faça tudo o que está ao seu alcance para salvar um aluno? Podemos dizer, claro, que um médico salva vidas e um professor não intervém em nenhuma área tão crítica como a clínica. Fair enough. Mas apenas até um certo ponto, se virmos a vida apenas definida de uma perspectiva clínica; porque se adoptarmos uma perspectiva biográfico-profissional, o acto de um professor no sentido de determinar uma repetência pode condicionar ou determinar, em larga medida, o futuro escolar e social de um aluno. Por exemplo, um aluno que chumba no 2º ano do 1ºciclo dificilmente termina o 3º ciclo. Uma decisão nesse momento de o fazer repetir o ano em vez de o fazer passar e investir nele todos os cuidados no ano seguinte para o recuperar para o nível desejado pode ser determinante para a sua vida futura. Aqui pode residir a diferença entre um previsível trajectória de insucesso - e se era previsível ou esperada, então porque não agimos imediatamente sobre ela em vez de esperar que ela aconteça?! - e uma trajectória difícil de luta contra as probabilidades, feita de trabalho e de pequenos sucessos, em direcção um futuro profissional mais decente, construída pelo aluno e pelo(s) professores e escola(s). Não preciso romancear a segunda situação. A diferença de estratégias é claríssima. É entre deixar as disposições inscritas na história das pessoas e das instituições actuarem, ou significa intervirmos sobre essas disposições, e corrigir os seus efeitos perversos e as suas consequências que impendem, lamento recordar, sobre os alunos, e não sobre os professores. As trajectórias escolares, sociais, e biográficas, são path-dependent, ou seja, dependem do percurso tomado no passado, e sobretudo de decisões tomadas em momentos-chave - como bifurcações - que podem fazer a diferença num futuro mais ou menos distante. «Se eu tivesse feito isto ou aquilo...» não é matéria da telenovela nas 9 da noite, é o húmus de todas as frustrações individuais pós-adolescência (e por aí em diante). Não me digam que os professores, como formadores de seres humanos e com o poder institucional que têm ao seu dispor, não têm responsabilidades nesta matéria. Então que a saibam usar.

Aqueles que falam de facilitismo, respondam-me por favor: qual delas é mais fácil, a que literalmente dá menos trabalho? O reprovar por mil e um motivos (o aluno é "isto" ou "aquilo", os pais "não sei que mais", a "turma também não ajuda", etc.) ou fazer o possível, o que está ao alcance da escola para o salvar? A retenção raramente é sinónimo de rigor. A retenção é, essa sim, na maior parte das vezes, sinónimo de facilitismo, sem quaisquer consequências para quem a decide, e com consequências potencialmente negativíssimas para quem recebe a decisão. E esta assimetria pode ser incrivelmente perversa.

Se as pessoas percebessem que as políticas actuais pretendem acabar com este tipo de facilitismo perverso que serve todos menos os alunos, talvez dessem menos ouvidos às desonestidades intelectuais de Paulo Portas e co.. Agora, eu percebo porque é que os professores podem ficar zangados: isto obriga-os a trabalhar mais e ter mais responsabilidades. Porém, isto levanta duas questões. Primeiro, se os professores terão de trabalhar mais - e com eles os estudantes que serão assim "agarrados" e verão como menos óbvia/atractiva a estratégia do abandono -, por que motivo está tudo a falar de maior "facilitismo"? Segundo, e ao contrário do se diz por aí, o maior trabalho e a maior responsabilização são os meios para a credibilização presente e futura da profissão docente. É quando a sociedade olha para os professores como profissionais que dão tudo de si para salvar os alunos que sem a sua ajuda teriam percursos educativos de insucesso constante que ela começará a valorizá-los e atribuir-lhes um reconhecimento que não cai do céu (como não cai a nenhum profissional só por "ser" algo: é preciso justificá-lo; um médico não é respeitado por ser médico; é respeitado por ser bom médico; idem para um juiz, um arquitecto, um engenheiro, etc.), mas deve ser conquistado activamente e actualizado de forma constante (o tempo do professor e do médico venerado pela comunidade pertence ao imaginário do início rural do século XX - com a infelicidade, é verdade, dessa ter sido a nossa realidade até há bem pouco mais de um terço de século).

Deve ser para situações como esta em que as pessoas precisam de mudar completamente o seu olhar sobre um problema que a expressão "revolução copernicana" se aplica. O nosso país está cheio de pretensos "revolucionários", há por aí algum copernicano?