Quem assiste agora em directo ao debate entre Obama e Clinton na CNN não pode deixar de confirmar algo que me insatisfaz desde o início desta campanha: a falta de imaginação e linguagem moral dos candidatos democratas; e sem Edwards na corrida, o problema é ainda mais agudo. Não há uma única referência a "igualdade", "liberdade", "justiça", "solidariedade", ou qualquer outro valor moral-político fundacional. Menções vagas a "obrigação moral" ou ao "sonho americano" is as far as it goes, a par de muitos exemplos concretos das dificuldades quotidianas que muitos indivíduos e famílias americanas enfrentam. Mas estes exemplos, apesar de reais e vívidos, não são nunca enquadrados por uma arco doutrinário que possa colocar carne moral e filosófica no esqueleto constituído pela soma dos casos reais sistematicamente descritos pelos candidatos.
Não faltará reflexão moral, filosófica, doutrinária ao partido Democrata? (É por isso que a retórica quasi-religiosa - poderosa, mas perigosamente oca - de Obama tem a centralidade e o impacto que tem).
Friday, February 1, 2008
Wednesday, January 30, 2008
A despedida anunciada II

John Edwards acabou de apresentar a sua desistência à corrida para a nomeação Democrata, com o cenário semi-destruído de Nova Orleães como pano de fundo. Foi um discurso notável, cheio de alusões à responsabilidade colectiva por garantir a realidade de uma vida decente a cada americano.
Oxalá os outros candidatos saibam falar para os que, e em nome dos quais Edwards falava - aqueles que, sem casa ou seguro de saúde, lhe pediram, em pessoa, para que ele não se esquecesse deles.
Sem Obama e Clinton na mesma corrida, Edwards teria tido outras hipóteses.
Update: o texto completo do discurso de hoje de Edwards está disponível aqui.
A diferença entre capitalismo empresarial e capitalismo gestionário
«35 per cent of US and 20 per cent of British entrepreneurs are dyslexic. Only 1 per cent of corporate managers in the US have dyslexia.»
in Prospect, January 2008, p.7
in Prospect, January 2008, p.7
Thursday, January 24, 2008
Mais impressões
A corrida democrata aqueceu nos últimos pelos piores motivos: ataques pessoais e "lavagem de roupa suja" pessoal e institucional. John Kerry já compara a campanha dos Clinton contra Obama à infâme propaganda lançada pelos Republicanos na eleição de 2004 que colocava em causa os seus desempenhos militares. Aqui, na táctica do golpe baixo, Hillary parece ter a lição melhor estudada que Obama.
Mas não é só aqui. No debate de segunda-feira ficaram visíveis alguma diferenças entre os candidatos que podem determinar o evoluir da campanha e a adesão dos eleitores: não é só o facto de Hilary falar mais rápido e de forma assertiva, transpirando confiança, enquanto Obama gagueja sistematicamente (mesmo que isso o torne mais 'humano'); e não é só o facto de Obama ter percebido que o discurso da "mudança" e "unir" os amernicanos não escapa à lei dos rendimentos decrescentes; é, parece-me, o discurso de Obama ser órfao de referências doutrinais mais claras - que não de contornos quasi-religiosos - e de uma história de exemplos de política (no sentido da policy) que tenham funcionado no passado para ajudar os americanos a sair da crise. Assim, se Hilary Clinton não estivesse na corrida, Obama podia reivindicar de forma mais clara o legado de Bill Clinton. Para quem se recorda, não só Clinton venceu as presidenciais de 1992 surfando precisamente na onda do discurso da "mudança", como concorreu com uma plataforma de política económica que retirou os EUA de uma situação complicada (daí o sucesso do "é a economia, estúpido!") e relançou o crescimento, estimulando a maior vaga de criação de emprego de sempre que os EUA viverma em tão curto espaço de tempo. Quem lê as propostas de policy de Obama no seu livro vê que ele não procura reiventar a roda: a receita é basicamente a mesma Clintonomics mais o choque energético, aliás comum a todos os candidatos.
Ora, não só Obama não pode reivindicar a mesma capacidade de instituir a mudança - e carisma, uma das armas de Bill, não lhe parece faltar - como não pode elogiar a política económica dos nineties, pela simples razão que Hillary é quem, mesmo infra-discursivamente e sem nunca o tornar explícito, transporta essa mensagem. Bill não está na campanha apenas por causa dos seus dotes de orador e entertainer de multidões: ele representa a prosperidade da década passada que só o rebentamento da bolha da new economy abalroou.
Com isto, Obama vê-se na "obrigação" de acabar por tecer vagos - mas politicamente infâmes, digo eu - elogios a Ronald Reagan, porque na história recente não há ninguém, para além de Clinton, em quem um candidato democrata se possa inspirar - e porque, claro, está à caça desse recurso tão importante que se chama swing voter (ler um capítulo do livro aqui).
Dito isto, a verdade é que está tudo em aberto, até porque dificilmente Obama perderá na Carolina do Sul neste sábado - e margem maior ou menor da sua vitória pode ser mais importante que o primeiro lugar em si.
É importante ter em consideração que a batalha democrata não acaba com uma suposta vitória em Novembro. Há eleições para o Congresso agora em 2008 e depois em 2010 (agradeço ao João por me ter esclarecido esta questão das datas das eleições). É extremamente importante para o partido Democrata ganhar de novo a Câmara dos Representantes como o fez em 2006. Foi isto que Clinton não conseguiu - e o facto de ter perdido o Congresso em 1994 moldou não apenas o seu discurso como também as suas políticas: sem a pressão de um Congresso nas mãos dos Republicanos, é bem possível que famoso "end of welfare as we know it" que serviu de inspiração política à welfare reform de 1996 não tivesse acontecido, e a dimensão mais punitiva do workfare na versão americana tivesse ficado na gaveta.
É por isso que é extremamente importate para os Democratas eleger alguém que tenha capital político suficiente não apenas para ganhar em Novembro, mas para inspirar o país e mantê-lo unido à la longue. Hillary Clinton pode garantir as bases democratas o suficiente para beneficiar de um eventual (e legítimo!) descontentamento do eleitorado com uma administração Republicana - mas McCain, no caso de ser o candidato Republicano, promete ser um osso duro de roer. Mas mesmo que Hilary ganhe as presidenciais, a questão é: concederá o eleitorado americano mais poder, na prática, a uma administração Clinton, renovando a sua vantagem no Congresso? Ou os anti-corpos que gerou (ela e Bill, claro) ao longo dos anos em inúmeros sectores da sociedade americana falariam mais alto? Esta questão é tão fulcral como difícil de responder agora. Mas uma potencial penetração de Barack Obama nos swing voters desiludidos com a administração Bush pode ser não apenas decisiva para Novembro próximo; ela pode ser central também para obter o apoio que permita manter o país unido por trás de uma administração Democrata. Isto é importante porque, sem amplos consensos institucionais, é muito difícil fazer mudanças políticas nos EUA. Mas este é um tema para outro post, que trabalhe a questão da fragmentação de poder no sistema político americano.
A ideia crucial é simples, porém: para mudar a América, os Democratas precisam de ganhar em 2008 e em 2010, e para isso precisam de ter uma plataforma filosófica ou axiológica - para além da política enquanto policy- que reúna consenso. Claramente, é neste tipo de plataforma que Obama aposta. E aposto que quando ele reza não gagueja.
P.S. - Claro, não falei de Edwards, que para muitos - acho que me incluo no lote - ganhou o debate de segunda-feira. O seu problema é ter dois candidatos muito fortes na corrida. Deixou, parece-me, de falar sistematicamente de corporate greed e passou, no seu Estado, ao ponto forte do seu discurso: the war on poverty.
Ou melhor, pensado bem, o problema não é apenas aquele que referi duas linhas acima. O seu grande problema é que está, simplesmente, do lado errado do Atlântico.
Mas não é só aqui. No debate de segunda-feira ficaram visíveis alguma diferenças entre os candidatos que podem determinar o evoluir da campanha e a adesão dos eleitores: não é só o facto de Hilary falar mais rápido e de forma assertiva, transpirando confiança, enquanto Obama gagueja sistematicamente (mesmo que isso o torne mais 'humano'); e não é só o facto de Obama ter percebido que o discurso da "mudança" e "unir" os amernicanos não escapa à lei dos rendimentos decrescentes; é, parece-me, o discurso de Obama ser órfao de referências doutrinais mais claras - que não de contornos quasi-religiosos - e de uma história de exemplos de política (no sentido da policy) que tenham funcionado no passado para ajudar os americanos a sair da crise. Assim, se Hilary Clinton não estivesse na corrida, Obama podia reivindicar de forma mais clara o legado de Bill Clinton. Para quem se recorda, não só Clinton venceu as presidenciais de 1992 surfando precisamente na onda do discurso da "mudança", como concorreu com uma plataforma de política económica que retirou os EUA de uma situação complicada (daí o sucesso do "é a economia, estúpido!") e relançou o crescimento, estimulando a maior vaga de criação de emprego de sempre que os EUA viverma em tão curto espaço de tempo. Quem lê as propostas de policy de Obama no seu livro vê que ele não procura reiventar a roda: a receita é basicamente a mesma Clintonomics mais o choque energético, aliás comum a todos os candidatos.
Ora, não só Obama não pode reivindicar a mesma capacidade de instituir a mudança - e carisma, uma das armas de Bill, não lhe parece faltar - como não pode elogiar a política económica dos nineties, pela simples razão que Hillary é quem, mesmo infra-discursivamente e sem nunca o tornar explícito, transporta essa mensagem. Bill não está na campanha apenas por causa dos seus dotes de orador e entertainer de multidões: ele representa a prosperidade da década passada que só o rebentamento da bolha da new economy abalroou.
Com isto, Obama vê-se na "obrigação" de acabar por tecer vagos - mas politicamente infâmes, digo eu - elogios a Ronald Reagan, porque na história recente não há ninguém, para além de Clinton, em quem um candidato democrata se possa inspirar - e porque, claro, está à caça desse recurso tão importante que se chama swing voter (ler um capítulo do livro aqui).
Dito isto, a verdade é que está tudo em aberto, até porque dificilmente Obama perderá na Carolina do Sul neste sábado - e margem maior ou menor da sua vitória pode ser mais importante que o primeiro lugar em si.
É importante ter em consideração que a batalha democrata não acaba com uma suposta vitória em Novembro. Há eleições para o Congresso agora em 2008 e depois em 2010 (agradeço ao João por me ter esclarecido esta questão das datas das eleições). É extremamente importante para o partido Democrata ganhar de novo a Câmara dos Representantes como o fez em 2006. Foi isto que Clinton não conseguiu - e o facto de ter perdido o Congresso em 1994 moldou não apenas o seu discurso como também as suas políticas: sem a pressão de um Congresso nas mãos dos Republicanos, é bem possível que famoso "end of welfare as we know it" que serviu de inspiração política à welfare reform de 1996 não tivesse acontecido, e a dimensão mais punitiva do workfare na versão americana tivesse ficado na gaveta.
É por isso que é extremamente importate para os Democratas eleger alguém que tenha capital político suficiente não apenas para ganhar em Novembro, mas para inspirar o país e mantê-lo unido à la longue. Hillary Clinton pode garantir as bases democratas o suficiente para beneficiar de um eventual (e legítimo!) descontentamento do eleitorado com uma administração Republicana - mas McCain, no caso de ser o candidato Republicano, promete ser um osso duro de roer. Mas mesmo que Hilary ganhe as presidenciais, a questão é: concederá o eleitorado americano mais poder, na prática, a uma administração Clinton, renovando a sua vantagem no Congresso? Ou os anti-corpos que gerou (ela e Bill, claro) ao longo dos anos em inúmeros sectores da sociedade americana falariam mais alto? Esta questão é tão fulcral como difícil de responder agora. Mas uma potencial penetração de Barack Obama nos swing voters desiludidos com a administração Bush pode ser não apenas decisiva para Novembro próximo; ela pode ser central também para obter o apoio que permita manter o país unido por trás de uma administração Democrata. Isto é importante porque, sem amplos consensos institucionais, é muito difícil fazer mudanças políticas nos EUA. Mas este é um tema para outro post, que trabalhe a questão da fragmentação de poder no sistema político americano.
A ideia crucial é simples, porém: para mudar a América, os Democratas precisam de ganhar em 2008 e em 2010, e para isso precisam de ter uma plataforma filosófica ou axiológica - para além da política enquanto policy- que reúna consenso. Claramente, é neste tipo de plataforma que Obama aposta. E aposto que quando ele reza não gagueja.
P.S. - Claro, não falei de Edwards, que para muitos - acho que me incluo no lote - ganhou o debate de segunda-feira. O seu problema é ter dois candidatos muito fortes na corrida. Deixou, parece-me, de falar sistematicamente de corporate greed e passou, no seu Estado, ao ponto forte do seu discurso: the war on poverty.
Ou melhor, pensado bem, o problema não é apenas aquele que referi duas linhas acima. O seu grande problema é que está, simplesmente, do lado errado do Atlântico.
Oh, chamem a ASAE
High Mercury Levels Are Found in Tuna Sushi.
P.S. - Por falar em ASAE, a comparação que José Manuel Fernandes faz no seu editorial do 'Público' desta quarta-feira entre o «inefável presidente da ASAE» e Torquemada, «o primeiro grande inquisidor de Espanha, o carrasco dos judeus em nome da pureza da moral e dos costumes», é das mais despropositadas que li nos últimos tempos - e garanto-vos que li muitas. Qualquer dia, claro, ainda o acusam de anti-semitismo. E com isto já dei uma dica à Esther Mucznik, dado que este é um dos seus hobbies preferidos.
P.S. - Por falar em ASAE, a comparação que José Manuel Fernandes faz no seu editorial do 'Público' desta quarta-feira entre o «inefável presidente da ASAE» e Torquemada, «o primeiro grande inquisidor de Espanha, o carrasco dos judeus em nome da pureza da moral e dos costumes», é das mais despropositadas que li nos últimos tempos - e garanto-vos que li muitas. Qualquer dia, claro, ainda o acusam de anti-semitismo. E com isto já dei uma dica à Esther Mucznik, dado que este é um dos seus hobbies preferidos.
O futuro?
EUA
Alunos pagos a 8 dólares à hora para frequentarem aulas de apoio
2008-01-24, 00h37
Washington, 24 Jan (Lusa) - Duas escolas norte-americanas da Geórgia (sul), insatisfeitas com os resultados escolares medíocres dos seus educandos, decidiram pagar aos maus alunos oito dólares à hora para frequentarem aulas de apoio.
"Começámos terça-feira. Os alunos estão entusiasmados. Estavam todos presentes", congratulou-se o reitor do liceu Creekside Hide, de Fairburn, perto de Atlanta.
Vinte alunos deste liceu e outros tantos do colégio vizinho Bear Creek foram seleccionados pelos maus resultados e convidados a frequentar as aulas de apoio de Matemática e de Ciências recebendo em troca uma retribuição monetária.
Duas vezes por semana, podem seguir as aulas de apoio que têm a duração de duas horas. A oito dólares à hora, podem ganhar até 32 dólares por semana, se forem assíduos.
"Na nossa comunidade é mesmo preciso ser-se criativo para interessar alguns alunos. Penso que este convite tem pernas para andar", sublinhou o reitor do liceu, com uma população escolar de 2.500 alunos.
A iniciativa, lançada a título experimental durante 15 semanas, é financiada por uma fundação privada.
No final da experiência, se os alunos conseguirem obter um "Bom" ou mais nos seus deveres de Ciências e de Matemática, poderão mesmo meter ao bolso um bónus de 125 dólares, indicou o reitor.
"Oferecemos outros programas de apoio, mas geralmente são os alunos que não têm necessidade que vêm, e aqueles que precisam é muito difícil interessá-los", concluiu.
Alunos pagos a 8 dólares à hora para frequentarem aulas de apoio
2008-01-24, 00h37
Washington, 24 Jan (Lusa) - Duas escolas norte-americanas da Geórgia (sul), insatisfeitas com os resultados escolares medíocres dos seus educandos, decidiram pagar aos maus alunos oito dólares à hora para frequentarem aulas de apoio.
"Começámos terça-feira. Os alunos estão entusiasmados. Estavam todos presentes", congratulou-se o reitor do liceu Creekside Hide, de Fairburn, perto de Atlanta.
Vinte alunos deste liceu e outros tantos do colégio vizinho Bear Creek foram seleccionados pelos maus resultados e convidados a frequentar as aulas de apoio de Matemática e de Ciências recebendo em troca uma retribuição monetária.
Duas vezes por semana, podem seguir as aulas de apoio que têm a duração de duas horas. A oito dólares à hora, podem ganhar até 32 dólares por semana, se forem assíduos.
"Na nossa comunidade é mesmo preciso ser-se criativo para interessar alguns alunos. Penso que este convite tem pernas para andar", sublinhou o reitor do liceu, com uma população escolar de 2.500 alunos.
A iniciativa, lançada a título experimental durante 15 semanas, é financiada por uma fundação privada.
No final da experiência, se os alunos conseguirem obter um "Bom" ou mais nos seus deveres de Ciências e de Matemática, poderão mesmo meter ao bolso um bónus de 125 dólares, indicou o reitor.
"Oferecemos outros programas de apoio, mas geralmente são os alunos que não têm necessidade que vêm, e aqueles que precisam é muito difícil interessá-los", concluiu.
«Is it wicked not to care?»...
...perguntam os Belle and Sebastian. A resposta é, obviamente, só uma: yes, it is.
Wednesday, January 23, 2008
Invisíveis
Quando os candidatos do Partido Democrata se referem aos problemas económicos do país, parece que as desigualdades que merecem real atenção se resumem ao gap crescente entre a middle class e os hiper-ricos - os tais que têm comprado os taxs cuts com que a Administração Bush os tem confortado ao longo deste anos. A classe média está falling behind, dizem-nos; a mobilidade ascendente, esse mito tão americano, está bloqueada. Isto é verdade.
Mas, com a excepção de algumas referências de John Edwards ao problema da pobreza persistente, os candidatos falam muito pouco daquela que Gunnar Myrdal em 1963, no seu clássico Challenge to Affluence - que pintava o futuro da economia americana em tons escuros, antecipando a sua incapacidade para lidar com a futura (hoje actualíssima) vaga de desindustrialização que iria abanar o aparelho produtivo nas décadas seguintes - descreveu como aquela «unprivileged class of unemployed, unemployables and underemployed who more and more hopelessly set apart from the nation at large and do not share in its life, its ambitions and its achievements».
Em campanha eleitorial, porém, nada disto é de estranhar. Os mais pobres praticamente não votam; nem fazem donativos para campanhas. No dia em que o fizerem, como diz o outro, é porque provavelmente deixaram de ser pobres.
Mas, com a excepção de algumas referências de John Edwards ao problema da pobreza persistente, os candidatos falam muito pouco daquela que Gunnar Myrdal em 1963, no seu clássico Challenge to Affluence - que pintava o futuro da economia americana em tons escuros, antecipando a sua incapacidade para lidar com a futura (hoje actualíssima) vaga de desindustrialização que iria abanar o aparelho produtivo nas décadas seguintes - descreveu como aquela «unprivileged class of unemployed, unemployables and underemployed who more and more hopelessly set apart from the nation at large and do not share in its life, its ambitions and its achievements».
Em campanha eleitorial, porém, nada disto é de estranhar. Os mais pobres praticamente não votam; nem fazem donativos para campanhas. No dia em que o fizerem, como diz o outro, é porque provavelmente deixaram de ser pobres.
Monday, January 21, 2008
Transparência?
A CNN explica bem o que se passou (ou passa) com os delegados democratas nas primárias do Nevada: já há local delegates (que Clinton venceu, correspondendo aos 51% que obteve), mas ainda não há national delegates, cuja estimativa dá vantagem a Obama sobre Clinton (13-12). Mas este número só ficará definido em Abril, durante a convenção estadual do Partido Democrata.
Como se percebe, isto é tudo menos simples. Gostava de saber a percentagem, daqueles que votam, que realmente percebem como isto funciona.
Numa escala internacional de transparência do sistema eleitoral, os EUA teriam que ficar muito mal classificados.
Como se percebe, isto é tudo menos simples. Gostava de saber a percentagem, daqueles que votam, que realmente percebem como isto funciona.
Numa escala internacional de transparência do sistema eleitoral, os EUA teriam que ficar muito mal classificados.
Sunday, January 20, 2008
Onde é que nós já vimos isto - há umas décadas, noutro continente, mas sob a mesma bandeira ideológica?
Venezuela
Leite, farinha, arroz, frango e outros produtos "desapareceram" dos supermercados
2008-01-20, 21h38
Caracas, 20 Jan (Lusa) - Os problemas de abastecimento alimentar intensificaram-se nas últimas semanas, com o desaparecimento das prateleiras dos supermercados de produtos como o leite, queijos, ovos, açúcar, farinha de trigo, frango e ovos, entre outros.
A agravar a situação, quando alguns destes produtos reaparecem momentaneamente, os preços de venda são superiores aos fixados pelo Governo, nalguns casos são 40 por cento mais altos que em Dezembro de 2007, altura em que a inflação acumulada, segundo o Banco Central da Venezuela, atingiu os 22,5 por cento.
(...)
Leite, farinha, arroz, frango e outros produtos "desapareceram" dos supermercados
2008-01-20, 21h38
Caracas, 20 Jan (Lusa) - Os problemas de abastecimento alimentar intensificaram-se nas últimas semanas, com o desaparecimento das prateleiras dos supermercados de produtos como o leite, queijos, ovos, açúcar, farinha de trigo, frango e ovos, entre outros.
A agravar a situação, quando alguns destes produtos reaparecem momentaneamente, os preços de venda são superiores aos fixados pelo Governo, nalguns casos são 40 por cento mais altos que em Dezembro de 2007, altura em que a inflação acumulada, segundo o Banco Central da Venezuela, atingiu os 22,5 por cento.
(...)
Claro...
...que há uma boa explicação para o facto que apontei no post anterior: todos estão distraídos. A começar pela própria CNN, cujo grande destaque do seu site é, no momento em que escrevo, nem mais nem menos que o último elemento da telenovela gerada em torno do desaparecimento de Madeleine McCann.
Isto sim, interessa ao mundo.
Isto sim, interessa ao mundo.
Wait a second....
Hillary Clinton teve mais votos do que Barak Obama em Nevada: 51% contra 45%. Certo. Mas Obama teve mais delegados: dos 25 em disputa, Obama ficou com 13 e Clinton com 12 (o que aliás permite ao senador de Illinois aumentar a sua vantagem de 1 para 2 no total de delegados atribuídos até agora - por muito pouco que isto conte nesta altura do campeonato, como é natural).
Estranha-me que ninguém - pelo menos a imprensa, dado que parece normal que Obama não queira entrar fazer muito barulho por causa disto - pareça valorizar isto: o que conta são os delegados, não o popular vote.
Estranha-me que ninguém - pelo menos a imprensa, dado que parece normal que Obama não queira entrar fazer muito barulho por causa disto - pareça valorizar isto: o que conta são os delegados, não o popular vote.
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Friday, January 18, 2008
Thursday, January 17, 2008
Wednesday, January 16, 2008
Por falar em socializar o risco....
Reino Unido
Gordon Brown admite nacionalizar o banco Northern Rock
2008-01-16, 00h49
Londres, 16 Jan (Lusa) - O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, declarou terça-feira que o seu governo coloca seriamente a possibilidade de nacionalizar Northern Rock, o banco britânico atingido pela crise mundial do crédito, se não se resolver a sua crise financeira.
Numa entrevista concedida à cadeia ITV, Brown indicou que, embora "várias" empresas privadas tenham manifestado interesse no banco, a nacionalização poderá ser necessária para preservar a estabilidade da economia britânica.
"Dado que a estabilidade é um assunto chave, consideraremos todas as opções, e isso inclui fazer com que a empresa passe a ser propriedade pública para depois transferi-la de novo para o sector privado", declarou.
"Sim, a nacionalização é uma das opções a ter em conta", reforçou.
Gordon Brown admite nacionalizar o banco Northern Rock
2008-01-16, 00h49
Londres, 16 Jan (Lusa) - O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, declarou terça-feira que o seu governo coloca seriamente a possibilidade de nacionalizar Northern Rock, o banco britânico atingido pela crise mundial do crédito, se não se resolver a sua crise financeira.
Numa entrevista concedida à cadeia ITV, Brown indicou que, embora "várias" empresas privadas tenham manifestado interesse no banco, a nacionalização poderá ser necessária para preservar a estabilidade da economia britânica.
"Dado que a estabilidade é um assunto chave, consideraremos todas as opções, e isso inclui fazer com que a empresa passe a ser propriedade pública para depois transferi-la de novo para o sector privado", declarou.
"Sim, a nacionalização é uma das opções a ter em conta", reforçou.
Isto até seria cómico....
...se não fosse antes de tudo trágico: Bush a pedir a líderes e a empresários sauditas que se lembrem que o preço do petróleo “[has] affected our families”; “Paying more for gasoline hurts some of the American families.”
Ainda me lembro de Rupert Murdoch sonhar em voz alta com o barril de petróleo a 20 euros nas vésperas da invasão do Iraque em 2003: «greatest thing to come out of this [war]».
Ainda me lembro de Rupert Murdoch sonhar em voz alta com o barril de petróleo a 20 euros nas vésperas da invasão do Iraque em 2003: «greatest thing to come out of this [war]».
Tuesday, January 15, 2008
Os lucros são privados; e os riscos, públicos?
Queda de gigante do Citigroup
Maior banco dos EUA apresenta prejuízos mais altos de sempre
Foi um dia negro para todas as bolsas. Os mercados estão a ser pressionados por uma má notícia: o Citigroup, o maior banco norte-americano, anunciou prejuízos superiores a seis mil e seiscentos milhões de euros, no quarto trimestre.
São os piores resultados de sempre em quase 200 anos de história do Citigroup. Este resultado reflecte o impacto da crise no crédito hipotecário nos Estados Unidos, em especial no crédito de alto risco. O banco pretende agora reduzir quatro mil e 200 postos de trabalho. Ou seja, cerca de seis por cento do número total de colaboradores. Irá ainda haver uma redução de 41 por cento nos dividendos.
Vamos ver o que faz Bush.
Maior banco dos EUA apresenta prejuízos mais altos de sempre
Foi um dia negro para todas as bolsas. Os mercados estão a ser pressionados por uma má notícia: o Citigroup, o maior banco norte-americano, anunciou prejuízos superiores a seis mil e seiscentos milhões de euros, no quarto trimestre.
São os piores resultados de sempre em quase 200 anos de história do Citigroup. Este resultado reflecte o impacto da crise no crédito hipotecário nos Estados Unidos, em especial no crédito de alto risco. O banco pretende agora reduzir quatro mil e 200 postos de trabalho. Ou seja, cerca de seis por cento do número total de colaboradores. Irá ainda haver uma redução de 41 por cento nos dividendos.
Vamos ver o que faz Bush.
Se fosse um país muçulmano...
...já o mundo livre estava em ebulição - e bem - contra a restrição da liberdade de expressão. Como é a 'capitalista' China...
[obrigado, Susana, pela foto]

China
Citroên pede desculpa pelo anúncio com retrato distorcido de Mao Zedong
2008-01-15, 12h45
Pequim, Jan 15 (Lusa) - A empresa automóvel francesa Citroën pediu desculpas à China pelo anúncio publicitário em que utilizou uma imagem distorcida do famoso retrato de Mao Zedong, anunciou hoje a imprensa estatal chinesa.
O anúncio apareceu, entre outras publicações espanholas, no jornal diário El Pais e mostrava o famoso retrato do líder revolucionário chinês com um rosto irónico, de boca cerrada, sobrolho franzido e olhos vesgos.
Os criativos da Citroën modificaram o retrato de Mao Zedong que está colocado diante da Praça de Tiananmen, centro político histórico de Pequim.
"Somos líderes, mas na Citroën, a revolução nunca termina", dizia o slogan do anúncio em referência ao volume de vendas que a empresa considera um sucesso e pretende repetir em 2008.
"A imagem foi distorcida (...) e a imagem de Mao está muito estranha", referiu o jornal estatal chinês Global Times, acrescentando que o anúncio causou protestos e incómodo entre os chineses que vivem em Espanha.
Também surgiram críticas online ao anúncio. "Enquanto chinês sinto-me bastante insultado quando vi o anúncio", escreveu um internauta no portal Tianya (www.tianya.com). "Não só é um insulto ao presidente Mao, mas a toda a nação chinesa", conclui.
Muitos chineses admiram Mao, que consideram ser responsável pela união do país depois da guerra civil de 1945-1949.
De acordo com a mesma fonte, a Citroën já emitiu um pedido de desculpas e comprometeu-se a não voltar a utilizar a publicidade.
"A Citroën pede profundas desculpas por qualquer desagrado causado pelo anúncio espanhol da Citroën e pede desculpas a todos os que possam ter sido ofendidos por ele", lê-se num comunicado da empresa, citado pela imprensa chinesa.
"A Citroën reitera a sua amizade pelo povo chinês e respeita grandemente as figuras e símbolos chineses", afirmou à imprensa, um porta-voz da empresa na China.
[obrigado, Susana, pela foto]

China
Citroên pede desculpa pelo anúncio com retrato distorcido de Mao Zedong
2008-01-15, 12h45
Pequim, Jan 15 (Lusa) - A empresa automóvel francesa Citroën pediu desculpas à China pelo anúncio publicitário em que utilizou uma imagem distorcida do famoso retrato de Mao Zedong, anunciou hoje a imprensa estatal chinesa.
O anúncio apareceu, entre outras publicações espanholas, no jornal diário El Pais e mostrava o famoso retrato do líder revolucionário chinês com um rosto irónico, de boca cerrada, sobrolho franzido e olhos vesgos.
Os criativos da Citroën modificaram o retrato de Mao Zedong que está colocado diante da Praça de Tiananmen, centro político histórico de Pequim.
"Somos líderes, mas na Citroën, a revolução nunca termina", dizia o slogan do anúncio em referência ao volume de vendas que a empresa considera um sucesso e pretende repetir em 2008.
"A imagem foi distorcida (...) e a imagem de Mao está muito estranha", referiu o jornal estatal chinês Global Times, acrescentando que o anúncio causou protestos e incómodo entre os chineses que vivem em Espanha.
Também surgiram críticas online ao anúncio. "Enquanto chinês sinto-me bastante insultado quando vi o anúncio", escreveu um internauta no portal Tianya (www.tianya.com). "Não só é um insulto ao presidente Mao, mas a toda a nação chinesa", conclui.
Muitos chineses admiram Mao, que consideram ser responsável pela união do país depois da guerra civil de 1945-1949.
De acordo com a mesma fonte, a Citroën já emitiu um pedido de desculpas e comprometeu-se a não voltar a utilizar a publicidade.
"A Citroën pede profundas desculpas por qualquer desagrado causado pelo anúncio espanhol da Citroën e pede desculpas a todos os que possam ter sido ofendidos por ele", lê-se num comunicado da empresa, citado pela imprensa chinesa.
"A Citroën reitera a sua amizade pelo povo chinês e respeita grandemente as figuras e símbolos chineses", afirmou à imprensa, um porta-voz da empresa na China.
Monday, January 14, 2008
Irrational exuberance
Boa parte da prosperidade dos últimos anos das famílias americanas assentou na valorização da propriedade imobiliária. A irrational exuberance dos bancos - que passaram a emprestar dinheiro de forma cada vez menos criteriosa - alimenta a dos consumidores - que exploraram a subida do valor da propriedade e a criativa engenharia financeira permitida pelas entidades credoras para se endividarem ainda mais -, levando, quase inevitavelmente, à criação de uma bolha. Isto é o que acontece quando a bolha rebenta.
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